desde o primeiríssimo número da revista Webdesign eu estou lá, com um artigo mensal sobre, well, o que me der na telha :) e como na minha telha o que mais dá são reflexões sobre cultura digital e nosso ofício interativo, o resultado são dezenas e dezenas de artigos que eu compartilho aqui com vocês. bom proveito!
(detalhe: está tudo fora de ordem ainda e talvez faltem alguns... vou arrumando devagarinho)
Que Beethoven não nos ouça, mas talvez
ele não tenha sido tão genial assim. Ao menos foi o que aprendi escutando
uma entrevista bárbara outro dia com um professor de música.
Beethoven se dava ao luxo de escrever,
reescrever, rabiscar, rascunhar e ir lapidando suas partituras até
o ponto em que estivessem redondas, perfeitas, insuperáveis.
O contraponto a isso é outro tipo de
genialidade: um pianista de jazz (Bill Evans foi o exemplo, Bill Evans
que eu adoro) improvisa o tempo todo, em tempo real, sem tempo de voltar
atrás e alterar o que ficou registrado para todos os tempos pelo microfone
implacável.
Bom ouvir isso, não? Improviso é nosso
nome do meio, improviso sempre foi nosso pulo do gato.
Well, seria um bom pulo-do-gato
se caíssemos sempre em pé. Ou se tivéssemos sete vidas. Vai ver é
por isso que desenvolvemos outra tecnologia interessantíssima, o "levanta-sacode-a-poeira-dá-a
para dar algum charme que seja a tombos esborrachados.
A nossa arte de disfarçar tombos se
tornou tão elaborada que nem percebemos mais a variedade de estilos,
nem notamos mais inovaçõs fantásticas na arte de pisar na bola.
Eu mesmo já apresentei para vocês
diversas gafes invisíveis: projetos que caem no brejo das especificaçoes
vagas, prazos que viram fumaça na mágica das promessas incumpríveis,
etc., etc., etc.
Hoje tenho a honra de apresentar a vocês
um novíssimo e modernérrimo super-vilão: o picadinho 2.0.
A receita é simples, vocês encontram
os ingredientes prontinhos no mercado:
Pronto! Nunca foi tão fácil "cozinhar"
internet e... ter uma dor de barriga das boas. Algo como "faça
você mesmo seu piriri". E aí entra a tremenda originalidade,
o segredo da invisibilidade do vilão picadinho 2.0: se ficou
ruim, a culpa não é de ninguém.
Ok, como sempre estou carregando nas
tintas. É bem possível que fique razoável. Mas para ficar genial
pra valer falta algo que ainda não tem nome, algo que em outro tipo
de parto, o parto de verdade com parteira e tudo, aquele que botou no
mundo geraçõs e geraçõs de seres humanos, se chama... Doula.
(Um detalhe: estou escrevendo esse texto
offline, sem acesso a wikipedias ou similares, portanto vou ter
que dar uma de Bill Evans e improvisar sem chance de corrigir qualquer
vacilo. Confira se Doula se escreve assim mesmo, por favor).
Doula, segundo uma grande amiga
versada em partos, é um personagem tradicional na cultura russa que
tem como papel fundamental dar apoio ao parto. Não, ela não faz
o parto, quem faz é a parteira. Ela simplesmente garante que a mãe
se sinta segura, amparada, assistida, sobretudo porque o pai nessa altura
ou desmaiou ou mijou nas calças.
Em projetos grandes as Doulas
têm nomes bonitos: gerentes de projeto certificados por PMI, líderes
black-belt de gerenciamento de mudanças, business analysts
e bla-bla-bla. Mas no mundo do picadinho 2.0, nesse buffet self-service
de coisas pré-mastigadas... quem garante que nasça um belo bebê interativo
e não um jovem frankenstein feito de partes mal-encaixadas?
Nesse cenário onde qualquer um pode
invocar os poderes de designers e programadores autônomos e remotos,
quem garante que alguma mágica ocorra?
Ficou fácil comprar as peças avulsas...
mas quem disse que o cliente sabe montar o brinquedo? Não olhem pra
mim, não fui eu não :)
Mea culpa, eu deverita ter dito.
Eu venho falando há anos sobre projetos "clássicos" tipo
Beethoven, onde primeiro se cria uma belíssima partitura/documentação
para só então chamar a orquestra e seu maestro. Faltou eu dar alguma
pista pra internet jazzística, a internet improvisada por pequenos
ensembles de talentos únicos, essas jam sessions
remotas e assíncronas. Mea culpa.
Eu dou uma pista, então: o improviso
absoluto é um mito. Jazzistas praticam muito, grupos ensaiam muito.
Ninguém é doido de gravar algo sem preparo algum.
Uma Doula
ajudaria? Alguém que segurasse na mão do cliente na hora do parto,
alguém que ensaiasse o site, testasse, apontasse melhorias, alguém
que poupasse o cliente dos erros mais crassos? Talvez sim.
Eu já fiz esse papel, con mucho
gusto. E sei que fez/fiz diferença. Quem sabe vocês não viram
e-Doulas on-demand também?
Ficou curioso sobre o Bill Evans? Procure
pelo álbum Conversations with Myself, com gravações caseiras
do gênio ensaiando sozinho, ensaiando, improvisando, ensaiando. Genial.
- Sou contra.
Contra? A entrevistadora ficou tão desconcertada que repetiu a pergunta:
- Você é contra liberar as drogas???
O rock star era contra mesmo.
- Primeiro porque quem é chato, com droga fica mais chato ainda. Segundo porque se liberar, não vai ter pra todo mundo.
Adoro essa estorinha, ainda mais pelo fato de ter acontecido mesmo, mutatis mutandi, anos atrás. Adoro também por ter na prateleira As portas da Percepção e A Ilha do Huxley, e outras pérolas do tempo em que drogas prometiam expansão de consciência e tal.
Por uma questão de timing (tenho 39) perdi essa grande balada, e só vim a conhecer a grande ressaca que sobreveio à farra.
Mas teve um bonde que eu peguei andando e tive chance de sentar na janelinha: o tal do digimundo. Não dava barato, mas que expandia a consciência, expandia. E era barato, liberado, e tem pra todo mundo (ou quase).
Well, anos depois lá vem outra ressaca de novo. A cada vez que puxo meus emails com overdose de spam, a cada vez em que algum xarope ataca meus sites, a cada novo virus worm fico pensando: que droga.
Diabólico mesmo são as alucinações: você abre um email achando que é de alguém querido e pumba, era um vírus disfarçado. Você recebe um email do seu banco, abre a tal da página e pumba, é golpe. Droga mesmo é que você não sabe mais em que confiar, em quem confiar.
Como fica a vida se não pudermos confiar em ninguém? Nessas horas que a gente vê que confiança, como diziam nossas avós, demora uma vida pra se conquistar e um segundo pra se perder. E uma vez perdida, já era.
Confiança no digimundo é uma questão delicada. No mundo tijolão os bancos constroem sedes espetaculares para inspirar confiança. Governos fazem capitais monumentais para inspirar confiança. Documentos vêm cheios de selos e carimbos pra inspirar confiança. Um bom locutor empresta confiança a um comercial chinfrim. E no digimundo? Como você mostra que é confiável?
Como sabiam nossas avós a questão é dupla, na verdade: como ganhar a confiança e como não perder a confiança alheia?
Lembro-me de um chefe que tive, que dizia sempre: você tem uma chance só de causar a primeira impressão. Só uma. Ele também dizia: alguém só é teu cliente se ele te compra de novo. Mais ou menos a mesma coisa, enfim.
Parecer confiável é uma preocupação fundamental. O design do seu site inspira confiança? Reflete os valores da empresa? A arquitetura de informação, a clareza do conteúdo, até mesmo o desempenho das funcionalidades denota seriedade, compromisso, competência? Tem muito site por aí que é um tiro no pé, que depõe contra a empresa e a seriedade de quem trabalha nela.
Emails são um território minado para confiança. Muitas vezes a única pista que você tem para saber se aquele email é do seu banco ou não é o estilo de redação, os erros de português, e sobretudo a atitude, todos eles elementos muito sutis que têm a ver com confiança.
Alguns exemplos do mundo do papel podem ajudar. Uma revista Veja ou um Estadão tem um estilo tão consolidado de redação, de editoração, de postura que você reconhece a origem mesmo num fragmento xerocado. Por outro lado, um email com um texto supostamente escrito por Jorge Luís Borges (ou pelo Veríssimo, Ziraldo, etc...) nos deixa com a pulga atrás da orelha por conta de alguns desvios de estilo que traem a farsa.
Constância e coerência são difíceis de se manter em comunicação: mudam as estratégias, mudam as equipes, mudam os fornecedores... Mas para o teu consumidor, a marca ainda é a marca, e qualquer coisa estranha, qualquer acidente de percurso pode por a perder uma confiança conquistada ao longo de anos.
Confiança é algo profundamente humano, é como nos relacionamos com o mundo. O digimundo, porém, está começando a criar confianças automáticas, inumanas, implacáveis. Faça um subject meio suspeito no teu e-mailing e ele pode ser barrado por filtros bayesianos. Mande um anexo gracioso e ele pode jamais chegar a quem devia, por seguranças automáticas de sistemas.
Comunicação no digimundo requer atenção duplicada: teu target está de olho, os filtros também. Um deslize, e você cai na vala comum.
Consistência em doses diárias, transparência na veia. O digimundo tem remédio sim. Confia em mim.
Boca, Pé, Mão, Bola
Tempos atrás, um amigo me indicou um podcast genial, ou melhor, rrrreniaL: o Desde El Baño (http://desdeelbano.blogspot.com).
Digo rrrreniaL porque foi a maneira mais inusitada e gostosa de me aprofundar nos nuances e peculiaridades do portenho, o espanhol falado na Argentina (adoro o sotaque portenho). Achei genial também porque... de genial não tem nada, é um ovo de colombo: a dona do blog, a Sofia, simplesmente abre o microfone e... fala. Fala e conversa sem afetação alguma sobre - por exemplo - todos os palavrões do filme Hijo de La Novia (viram? rrrrenial) ou sobre... gírias baseadas em nomes de animais, ou nomes de jogos infantis, ou... maneiras de se dizer que alguém é louco ou... as inúmeras acepções do termo fiaca. Acompanhem, é bárbaro. Deu até vontade de fazer algo parecido para a língua brasileira. Não seria uma má idéia, não?
Por exemplo... um programete sobre as diversas aplicações do pé, ou melhor, da palavra pé :)
Pé de vento. Pé-direito. Sem pé nem cabeça. Tiro no pé. Não dá pé.
Ou boca: boca-miúda, boca-a-boca, bocudo, boca-mole, água na boca, arrumar uma boquinha.
Bola: bola-da-vez, não dar bola, tratos à bola, comer bola.
E mão? Mão na roda, dar uma mão, mão-francesa, contra-mão. Poxa, já tenho assunto pra váááários podcasts ;)
Dá até pra construir um exemplo: esse podcast, que descobri por boca-a-boca, é uma mão na roda, e dá uma bela mãozinha para quem nunca pôs os pés em Buenos Aires. Esse é um exemplo não só de gírias brasileiras, mas também de... mídia social: quem me anunciou esse serviço foi um amigo, não um comercial de tv, e a Sofia não gastou nada com mídia alguma.
Mídia social nem sempre é um bom exemplo: boca-a-boca, se você erra a mão ou come bola, pode ser um tremendo tiro no pé. Mesmo que o boca-a-boca (o tal do WOM, word-of-mouth) seja a bola da vez.
Esse nosso ofício tem disso: volta-e-meia surge alguma bola da vez que cai na boca do povo. Quem está com o pé nessa história faz tempo já viu de tudo: ascensão e queda do email marketing, a glória e o ocaso do one-to-one, e agora a panacéia universal do "tudo pelo social". Alguém do Maranhão já dizia isso... mas acho que ninguém quer lembrar :D
Mídia social, virais, comunidades, conteúdo gerado pelo usuário funcionam sim, e movimentam a custo baixíssimo as engrenagens de muita coisa bacana que temos hoje no digimundo. É como se alguém tivesse inventado uma maneira de termos Ferraris zunindo pelas pistas... sem gastar gasolina. É o sonho digital/social do moto contínuo. Tudo funcionando e crescendo... por conta própria. Lindo, não?
Well, gripes também são assim: se espalham facinho, dominam e duram um montão. Tudo grátis. Mas gripe não é lindo não :)
Não é pra menos que muitas dessas estratégias sociais são chamadas de "virais". Mas nem todo viral é um santo remédio. Existe uma diferença entre "contagiante" e "contagioso". E essa diferença sutil pode matar um bom projeto no berço.
Vou dar um exemplo hipotético: pense num site social gringo que você acha legal. Pensou? Ok, então vamos fazer uma versão brazuca. Para "economizar tempo" (coff, coff, desculpe) você "se baseia" em exemplos concretos bem-sucedidos. Para não dizer que você está fazendo uma cópia descarada do trabalho alheio, pense que você está fazendo, como Duchamp, uma assemblage de ready-mades numa collage aggiornata no Zeitgeist dos mash-ups. Ou apele para outro ex-presidente nosso que escreveu "A Originalidade da Cópia" :D
Ok, tudo funcionando. Falta agora trazer gente, falta "popular" esse teu micro-cosmo. Aí você, inspirado pelo "tudo pelo social" faz um esquema member-get-member viral (soa bem, não?) onde cada inscrito pode convidar seu address book inteiro e ainda ganhar pontos por isso. Matematicamente parece lindo, mas você caiu em tentação antes mesmo de entrar no paraíso. Pecado capital. Teu paraíso não vai ter mais só anjinhos.
Explico: a graça e a graxa da mídia social é a confiança. Eu fui ouvir o podcast da Sofia porque confio no meu amigo. Mais do que isso: fiquei feliz pelo seu gesto generoso e desinteressado. Mais, até: fiquei lisonjeado por ele ter achado que algo tão bacana combinava comigo. Em suma: em termos de user experience foi redondo.
Se um mecanismo viral erra a mão e "toma liberdades" com a questão da confiança, é um tiro no pé. Uma comida de bola. Um pé no... well, você sabe. Não dá pé.
Pior do que isso: a manobra vai cair na boca do povo. As pessoas nem vão por os pés lá dentro, por mais que seja tudo genial.
A lição é clara: user experience só é redonda quando, do momento zero até o final, tudo é consistente, tudo é coerente, quando nada quebra a confiança, quando não se frustram expectativas.
Meter os pés pelas mãos e pisar na bola, afinal, é coisa de perro (que, segundo a Sofia, é um perna-de-pau). Mas não é nosso caso, por supuesto.
artigo publicado na revista WebDesign
Dei uma volta pelo shopping, ontem. Numa vitrine vi um modelo de palm que eu não conhecia. Entrei, o vendedor me mostrou o aparelho, fui embora satisfeito por ter visto de perto aquele palm, por ter manipulado uma máquina que eu só conhecia superficialmente.
Este episódio tão prosaico, se o olharmos de perto, pode também
mostrar como funciona outra maquininha, a maquininha humana. Os
senhores teriam interesse? Sigam-me, por favor.
Em primeiro lugar, por que escolhi um shopping? Resposta: eu não
estava procurando nada específico, estava querendo olhar vitrines
só, e shoppings concentram vitrines de todo tipo. Mais: estava
chovendo muito, e shoppings são cobertos. Por fim, eu queria
circular entre gente bacana sem me preocupar com segurança e
violência.
Ir ao shopping envolveu um preparo extra, claro. Coloquei uma roupa cuidadosamente casual, refiz minha toalete básica, peguei carteira e celular e fui.
Uma vez na tal loja (sofisticada, diga-se de passagem), dirigi-me ao vendedor com uma atitude sóbria e polida. Eu queria ser bem
atendido, e para isso precisava parecer um bom prospect. Na conversa com o vendedor, reforcei essa impressão mostrando meu interesse pela marca e pela tecnologia em questão.
Não comprei o produto, mas saí de lá melhor informado, com
condições de fazer uma decisão mais acertada numa compra futura.
O vendedor, mesmo sem ter efetuado a venda, cumpriu o seu papel ao aumentar meu potencial de compra, e também por criar um vínculo positiva entre mim e a loja.
Os senhores teriam interesse também em internet? Que ótimo. Por
esse lado, por favor. Saiamos do mundo (a)palpável e entremos no
digimundo.
Aliás... entrar é a palavra correta? Quando queremos comprar
online dizemos entra aí no Submarino abra a Livraria Cultura, ou vai na Americanas, mas em verdade a gente não vai a lugar algum, não entra em nada. A gente chama, e eles vêm. Sites vêm até você, e não o contrário.
Quem tem que se preparar todo, ficar bonitão e falar direito é o
site, não você. Você, de cuecas ou não, é que vai medir o vendedor de alto a baixo. Essa inversão de papéis têm
implicações sérias.
Em primeiro lugar: por que você escolheu a internet? Por que estava chovendo, também? Por que é fácil pular de site pra site
conferindo preços e lançamentos? Por que você não queria se expor
í violência urbana? Hmmm... mais ou menos a mesma lógica do mundo
físico. Racionalmente, pelo menos.
Vamos agora checar a parte irracional. O site está entrando na TUA casa, no TEU computador, usando a TUA linha telefônica... e o
mínimo que se deve esperar é que ele seja educado, que ele se
comporte. Eu fico transtornado quando um site que eu convido para adentrar na minha vida se comporta mal: é pesado, abre janelas que não devia, tenta instalar plugins que eu não quero, ou fica parado na porta cantarolando uma introdução desnecessária. Malabaristas num semáforo de rua até que têm seu charme, mas não na information highway.
Aparência e toalete também contam. Se você recebe um email
de uma marca sofisticada, vai estranhar muito se ele vier de bermuda e chinelo, falando português ruim. Vai achar que é golpe, e nem vai abrir a porta para ele. Pro lixo direto.
Um último aspecto: respeito à tua inteligência. Internet para mim
é como a lâmpada de Aladim: você esfrega, um gênio aparece por
download, e te promete 3 desejos. Se depois dessa mágica toda você faz um pedido singelo e o gênio coça a cabeça, diz veja
bem..., você enxota o canastrão e diz fecha-te sésamo.
Na tua vida esse cara não entra mais.
Em shoppings, em sites, em lâmpadas mágicas, o que há são
usuários humanos, e que se tornaram mais dignos e humanos ainda
quando ganharam um superpoder: o mouse power. O cara clica o mouse
e... ai de você se não atender seus desejos. Nem precisa ser gênio para adivinhar a punição: mil e uma noites sem aquele unique visitor.
Pensando agora como loja, e não como cliente. Se encararmos a loja online como um caixeiro viajante, que notícias ela traz depois de tanta andança? Ela entrou em milhares de casas, conheceu pessoalmente um mundo de clientes... e não tem nada para dizer? Isso sim é que é desperdiçar oportunidades.
E para você que é nosso cliente preferencial, um brinde: o site
Good Experience é um bom começo para quem quer ver o mundo por outros olhos, os olhos do consumidor.
Volte sempre, o prazer é nosso. Servimos bem para servir sempre.
OK, isso não é coisa pra se perguntar assim do nada, mas a questão quase me acerta na testa mal eu abro a porta, e voilá a dita ave em pânico se debatendo contra o teto, paredes, um furacão azulado sem freios nem juízo.
Rapidamente notei que alguém já estava se dedicando a esse problema filosófico de maneira bastante atlética, e antes que ele literalmente matasse a charada, tirei meu gato de cena. O pobre passarinho não tinha sete vidas, enfim.
Como se pega um beija-flor?, pensava eu quebrando a cabeça enquanto o pobre bicho quase quebrava a própria. De sopetão? De tocaia? Com as mãos? Com uma rede? Perto de uma criatura tão delicada eu me senti um godzilla tosco. E pensar que ele descendia de dinossauros, e não eu.
O que tem essa história a ver com nosso métier, afinal? Well, pra mim tem. Se você já teve que cativar corações e mentes e fazer com que um projeto online fluísse, sabe do que estou falando. Colaboração é avis rara, ave... do paraíso, quase.
Desenhar uma arquitetura, definir um fluxo de trabalho não é bicho de sete cabeças. Difícil é fazer sete bichos humanos não baterem cabeças ao trabalhar em conjunto.
Muitos idéias “interativas” brilhantes nunca decolam porque dependem de uma integração, de uma colaboração, de uma espontaneidade impensáveis em condições normais de temperatura (baixa) e pressão (alta). As pessoas se entocam, viram porco-espinho e os projetos atrofiam.
Gente é um bicho estranho mesmo: um mero boato faz com que cordeiros virem lobos, e o que era uma alegre colméia vira ninho de vespas. A mera suspeita de uma mudança de organograma é capaz de deixar gente sênior tão atarantada quanto meu beija-flor na cozinha. É só passar o perigo, porém... que todos somos golfinhos brincalhões de novo.
Projetos de internet não escapam dessa selva. Qualquer projeto online, qualquer mesmo, sacode estruturas. O mundo não é empresas de um lado, pessoas de outro, com a internet servindo de ponte. O mundo real é feito de feudos, tribos, tramas, times rivais e outras encrencas numa cartografia intrincada e, pior de tudo, invisível. Você só percebe que existia uma fronteira depois que pisou no campo minado.
Information highway? Eu só vejo buraqueira, semáforos quebrados e gente em fila dupla.
Mas... qual a saída? Engrenar a tração nas 4 rodas e forçar o motor? Acredite: a menos que você queira fundir motores e cérebros, não.
A primeira medida é... medir o terreno. Avalie muito bem quais são os interesses em jogo, que resultados são realmente críticos e quais os fatores que podem levar o projeto à ruína. Falta de verbas? Custo crescente? Estouro de prazo? Refaça a tua rota para não ficar no mato sem cachorro.
Segunda medida: casting. Como numa peça de teatro ou filme, um projeto online precisa de atores, gente que reme, fique no timão, gente que ice as velas. Investigue com carinho se as pessoas são aptas a tocar esse barco.
OK, a essa altura teu projeto já tem motor, airbags, piloto, navegador e o tanque cheio de combu$tível. Mas que o impede essa turma de desencanar e ir para o litoral norte ser feliz? Simples: envolvimento. Eis aí nossa ave fugidia, nosso beija-flor assustado.
Todo começo de projeto online parece sala de aula: sempre um ou dois levantam a mão ansiosos por responder, enquanto uma turma enorme faz cara de paisagem. Teu projeto também vai ter um ou dois entusiastas, mas ainda falta cativar o resto das tribos.
Aí está o segredo: as malditas tribos.
Mas por mais que a gente se feche em tribos (atendimento x criação, comercial x desenvolvimento, TI x marketing), tribos são feitas de pessoas, e pessoas são muito mais ricas e complexas e interessantes do que um mero rótulo. Veja teus amigos no orkut: você sempre se surpreende por descobrir que um conhecido teu, de outra tribo completamente distinta, também está na comunidade “eu adoro pizza amanhecida”. Quem diria... Outro colega teu de departamento, tímido e fechado, é popularíssimo numa comunidade forrada de conhecidos do outro andar. Ora vejam...
Se você criar oportunidades e propiciar o clima adequado, as pessoas saem da toca e criam novos laços, novas afinidades, e perdem a vergonha de levantar a mão e vir à lousa.
Não é fácil não, mas compensa. É um processo delicado, que requer sensibilidade, justiça e alguém que transite livremente. Mais importante ainda: alguém que saiba reconhecer, valorizar e incentivar as atitudes pró-ativas, generosas. Em pouco tempo surge algo definitivamente maior que a soma das partes: colaboração, sinergia, fecundidade.
Vale a pena. Eu juro que vale. Digo isso com uma gata rajada se espreguiçando ao meu lado, gata sem dono que inexplicavelmente confiou em mim, entrou conosco no chalé e passou boas horas no meu colo diante da lareira. Um dengo. Que diferença do meu gato maldoso que quase enfartou um beija-flor desnorteado.
Falando nele... como eu peguei o beija-flor? Nem sei. Sentei por uns bons trinta minutos ali, tranqüilo, esperando que em algum momento ele se acalmasse e aceitasse minha mão. Uma bela hora eu lhe estendi com calma um apoio, ele pousou ali e eu lentamente o levei até a janela. Lá se foi ele.
Deve haver outras maneiras, imagino. Mas isso é o que eu soube fazer: me desarmar e estender a mão.
Os dinossauros acabaram virando pássaros. Se você facilitar, pessoas também criam asas.
Revista é bom.
Meu pai me conta que na sua infância no interior de São Paulo a
Seleções do Reader's Digest era esperada com ansiedade. Tenho pilhas
de Wired que me recuso a jogar fora. E as Fast Company então? E a
Business 2.0? Pilhas.
Jornal ninguém guarda nem aguarda. Jornal simplesmente vem. Revista
não: ela surge, enfim, radiante e perfumada.
Não me pergunte por quê. Colorido o jornal é. Fotos jornal tem. O papel bom, será? O formato?
Pense nas revistas que você gosta. Esta aqui, por exemplo. Há algo nela que te agradou uma vez e você encontra de novo edição após edição: a profundidade dos artigos, o tone and manner, o mix de articulistas, os temas, e por aí vai. Se algum desses aspectos mudar, você vai estranhar: "o que aconteceu com esta revista? Ela não é mais a mesma".
Revistas têm uma "cara" e isso não é por acaso. Em algum momento definiram seu perfil editorial, seu formato, seu público, e a cada edição um time profissional junta os elementos todos, cada um vindo de um lado, e costura o quebra-cabeças tão bem que a revista parece um bebê nascido de uma romântica noite de amor. E o parto, sofridíssimo? E a gestação tumultuada? Nem se adivinha.
Uma boa revista, assim como um bom site ou um bom produto qualquer, é uma boa experiência, uma experiência intelectual, tátil, visual, olfativa, afetiva, etc. A embalagem da vitamina é um horror, coisa que só o Wolverine abre? Ops, experiência ruim. Você teve dúvidas com o DVD mas o call-center te orientou direitinho? Experiência boa. Você clicou no link e o servidor deu pau? Experiência ruim.
Experiência é algo que vai além da guerra perpétua "é-lindo" x "funciona": experiência vai desde o site até a embalagem, do preço camarada até aquele telefonema simpaticíssimo perguntando se você está feliz com a compra. Experiência engloba cada vez mais coisas.
OK, você é um especialista, e só te cabe fazer uma dessas coisas. O que vão fazer depois disso não te compete, certo? Nesta revista, por exemplo, meu papel é mandar um artigo decente no tamanho adequado no prazo correto, e ponto. Há outros colaboradores cuja função é ilustrar os artigos, enquanto um outro zela pela diagramação.
Se você é um especialista, por que se preocupar com a tal da experiência do usuário?
Simples: num projeto complexo ou você é parte da solução ou é parte do problema. Ponto.
A tal da experiência final só vai ser consistente e redonda se cada um dos colaboradores... colaborar. Não cumpriu o prazo? Não leu o briefing? Mandou fora da especificação? Sorry, mas mesmo que você seja o rei da cocada preta, que você tenha diplomas e prêmios, que você seja lin-do... você é parte do problema, e se não se corrigir a solução pode incluir... excluir você.
Fui direto demais? Fui pouco romântico? Então tá. Falemos de arte, então. Van Gogh, que tal?
Todos nós gostamos de Van Gogh. Atormentado, inspirado, impulsivo. Well, era o que eu pensava até ontem: numa matéria da Lúcia Guimarães descobri que o Van Gogh era, antes de mais nada, um desenhista extraordinário. Lindos, os desenhos. Ele desenhava em detalhe, inclusive, os quadros que planejava pintar. Planejava meticulosamente.
Por essa você não esperava, não? Você não imaginava que esse artista genial planejasse e concebesse de antemão, rascunhasse, refizesse.
Pois é, fomos enganados. Alguém nos convenceu que genialidade é improviso, é inspiração, nasce por arroubos criativos, que rigor e método é coisa pra quem não tem talento. Balela: Picasso dominava as técnicas clássicas, Beethoven rabiscava as partituras, os acrobatas do Cirque de Soleil se esfalfam o dia inteiro para poder dar uma pirueta graciosa.
Anos atrás me pediram para não cobrar de criativos que cumprissem prazos, que respeitassem cronogramas, que lessem todos os emails. Criação é jardim-de-infância?, eu retruquei. Se eu fosse um de seus criativos, ia me sentir tratado como um bocó.
(Jardim-de-infância, aliás, é um dos primeiros casos notórios de experience design: dê uma olhada no sempre excelente Boxes and Arrows (http://www.boxesandarrows.com )).
Voltando aos acrobatas: circo só é mágico porque não há mágica, há suor e compromisso.
E não me venha com truques. ;)
Você vai ficando mais velho e o que era elogio passa a te deixar com
um pé atrás. Por exemplo: ser um profissional "sênior" indica uma
trajetória profissional longa e rica ou quer dizer que... por decurso
de prazo você já virou um "ex-jovem"?
E ser um "peso-pesado"? Significa que você precisa retomar a dieta
a-go-ra ou que a sua atuação é poderosa e faz diferença no jogo de
forças?
Pelo sim, pelo não, essa semana eu me inscrevo numa academia. :)
Se você não for tão sênior assim talvez nunca tenha ouvido falar de um
peso-pesado magnífico, o Cassius Clay. Já? Não? Mohammed Ali, então?
Também não? Céus... quem mandou eu ter 40 anos, enfim?
Vamos lá: Mohammed Ali e Cassius Clay são o mesmo pugilista, e o nome árabe foi adotado quando ele se converteu ao islamismo como o Cat Stevens (o que, na pré-história da minha juventude, era um gesto anti-guerra e pacifista, pasmem).
Eu ia sugerir que você pesquisasse a respeito por conta própria, mas me esqueci que a tua referência de peso-pesado deve ser algo furioso e bestial como Mike Tyson, cuja colaboração artística para a humanidade foi arrancar com os dentes uma orelha alheia, e isso não deve te animar muito.
Esqueça o Tyson. Cassius Clay era elegantíssimo no ringue, um dançarino. Mais: fora dos ringues era um ativista político, um negro consciente, um ídolo pop e, pasme, um belo frasista. É dele a frase que me inspirou esse artigo: "fly like a butterfly, but sting like a bee", voe como uma borboleta, mas ferroe como uma abelha. Lindo, não? Exceto, claro, para quem, confuso de ver aquele gigante dançando em torno de si, recebia o murro certeiro e beijava a lona.
E o que tem a ver o conselho de um boxeur com nosso ofício de zeros e uns? Simples: muitos dos grandes tapas-na-cara digitais hoje, muitas das porradas nocauteadoras no digimundo são... simples.
Não? Pense nas páginas de busca. Pense nos messengers. Pense nos blogs. Voam como borboletas, não? Você os acessa de todo lugar, em qualquer máquina, em palms, em celulares... Não importa onde, eles pousam com graça e leveza sempre. A hora que você os aciona, porém, são rápidos e certeiros. Como uma abelha. Viram só? Ou vocês pensavam que abelhinhas e flores só servem pra (não) falar de sexo?
Agora pense naqueles sites super instigante-original-multimídia que você viu uma vez só, achou lin-do, mas nunca mais usou porque ele não te agregava em nada. Well, de cara me lembro de uns 3.
Eu creio, porém, que o Cassius Clay não tenha jamais sido picado por uma abelha. Você já foi? OK, dói, mas como se não bastasse a picada, a abelha continua se batendo contra você insanamente, batendo, batendo, até morrer. Muito estranho (e contra as regras do pugilismo, imagino). Sabe por que ela faz isso? Antes de morrer, ela vai te marcando com um odor que avisa às outras abelhas que você é um inimigo. As outras abelhas sentem o cheiro que ela deixou em você e te picam também. Aí que mora o perigo: uma picada leva à muuuuuitas outras.
Tem outra grande lição aí: abelhas não só ferroam forte, mas também colaboram entre si, trocam informações, e assim derrotam qualquer inimigo. E as coisas mais bacanas que temos hoje no digimundo funcionam da mesma maneira: as "borboletas" digitais não só voam com elegância mas também se comunicam entre si. Teu messenger te avisa do email que chegou e das últimas notícias, teu webmail te avisa por SMS de uma mensagem urgente, você escolhe quais fontes de notícia tua home vai "escutar" por RSS, você compartilha teus favoritos usando metatags, você compra produtos baseado nos reviews de outros consumidores...
É assim que os pesos-pesados do digimundo estão lutando hoje, num estilo que mistura leveza, rapidez e integração. Preste atenção, compare os campeões, estude seus movimentos. E torça fervorosamente, como eu, pelos milhões de usuários que estão ganhando asas.
Posted by renedepaula at 9:47 PM
San Francisco, Califórnia
- Vocês estão procurando algo? Posso ajudá-los?
Tirei meus olhos do mapa amarrotado e ali estava ele, sorridente. Perguntei por uma casa vitoriana XYZ que deveria ficar nas imediações. O moço a conhecia sim, era na rua de cima à esquerda, coisa simples. Agradeci pela solicitude e hospitalidade e pensei comigo: esse cara é o Google 2.0.
Miami, Flórida
Vishal me deu uma carona. Veeranna também veio conosco. No carro, comentávamos felizes o jantar indiano comme il faut que Lalitha nos oferecera. Perguntei ao Vishal se ele gostava da cidade, se ele gostava da América. Enquanto dirigia pela noite tranqüila, me disse que tanto fazia Miami, San Diego ou qualquer outra cidade, dava mais ou menos na mesma. Encontrar lugar para morar, achar trabalho, fazer compras, dirigir, tudo na vida cotidiana era o mesmo, tudo funcionava igual. “Sistema americano” foi a palavra que ele usou. Você pode mudar de cidade sem pestanejar, porque o sistema é o mesmo. Insisti: “vocês não estranham nada?”.
- Claro! As maçanetas. Aqui são ao contrário!
Rindo, Veeranna acrescentou:
- Os interruptores também! Aqui são de cabeça para baixo!
São Paulo
- Rua Manoel Maria Tourinho? Deixa comigo.
Pacaembu eu conhecia bem. Aquilo era um labirinto, ruazinhas sinuosas serpenteando bairro adentro num traçado perverso que eu só aprendi depois de anos morando na área. De casual, porém, o desenho do bairro não tinha nada: foi um truque urbanístico para que as ruas não virassem um corredor de tráfego, para que as casas ficassem sossegadas numa ilha impenetrável aos motoristas de fora.
Adoro cidades. Adoro. E quanto mais eu trabalho no digimundo, mais eu vejo que estamos de novo erguendo cidades, metrópoles, bairros, malls... sem tijolo algum. Cidades Invisíveis, do Calvino, está ganhando um adendo. (Você não leu? Leia. Releia.)
Esse paralelismo cidades x internet me fascina faz um bom tempo. A primeira coisa que me ocorreu foi mais pobre, porém: pensava no quanto webdesign e arquitetura eram parecidos: a home e a fachada, o sitemap e a planta, e por aí vai. Não é de se espantar que se fale em arquitetura de informação, afinal.
A analogia não ajuda muito, porém: se você quiser fazer sua casa redonda, é problema seu. O vizinho fez uma palafita? Azar o dele. A casa em frente vai ser inteira cor-de-rosa, paredes e teto? Sorte sua que você não vai morar lá.
Muito do que se fez de webdesign, no começo, era assim: cada site era a cara do dono, cada site era original, homes competiam em originalidade e impacto.
Algo, felizmente, nos salvou desse festival de bizarrices. Google. E por três razões.
Primeira razão: sites demais. Antes dava para “navegar” a esmo, checar alguma lista de hot links e topar com o que você queria. Agora não dá mais.
Segunda razão: se o conteúdo do teu site é invisível para o Google (arrá!!! Quem mandou fazer em flash?), teu site vai passar batido, a menos para internautas paranormais.
Terceira razão: uma busca no Google traz dezenas de resultados. Se tua página for bizarra, se não for imediatamente compreensível e usável, o usuário clica, rejeita, volta atrás e tenta outro mais fácil.
Adeus condomínios fechados. Adeus aldeiazinhas e tribos. Adeus ilhas da fantasia. Google é o novo Robert Moses do digimundo. (Não sabe quem é? Confira... no Google)
Hoje não penso mais em arquitetura. Hoje penso em urbanismo. Na minha cabeceira, hoje, está Vida e Morte das Grandes Cidades, da Jane Jacobs. Meus assuntos de interesse, hoje, são softwares sociais, padrões emergentes e, como sempre, usabilidade.
Cidades são complexas. Cidades são imprevisíveis. Cidades desafiam qualquer tentativa de controle. Internet é igual: o email favelizou-se, sites de banco são fortalezas anti-fraude, o Orkut já não é mais “entre amigos”, homes são pichadas por vândalos.
Como evitar que a internet degenere? Como criar ambientes online que sejam dignos, que enriqueçam a vida das pessoas? Como tornar a vida digital mais humana? Como usar esse universo em favor da democracia e liberdade? Como desarmar o egoísmo para que a colaboração floresça?
Essas são as questões que eu me coloco hoje, seja ao esboçar um novo projeto, seja na escolha de um ou outro layout, seja na hora de comprar um gadget. É isso que me orienta quando modero uma comunidade.
Pensar grande não é pensar pirâmides ou monumentos. Pensar grande é pensar em como manter as calçadas do digimundo gostosas, seguras, e plurais.
Essa é a nossa natureza.
Dias atrás reencontrei bons e velhos amigos, gente que não via faz tempo, alguns há quase dez anos. Muitas risadas, lembranças queridas, pizza, brindes... e uma percepção geral: a grande história que vivemos juntos não entrou para a história.
“Devíamos escrever um livro!”, alguém arriscou. “Um documentário!”, sugeriu outro. Eu calei. Para mim sempre foi claro que algumas histórias, boas ou não, nunca vão mais longe do que a mesa de um bar (ou um divã de psicanalista). São complexas demais, são intensas demais, são revolucionárias demais. Ou você as viveu, ou não.
Você já deve estar pensando que a grande história injustiçada é a saga de alguma pontocom extinta, ou de alguma campanha online tresloucada, ou de algum projeto digital ensandecido. Lamento, mas não. Estávamos relembrando nossos tempos de telejornalismo, nosso tempo de Aqui Agora. (Sim, eu trabalhei no Aqui Agora).
Espero não ter decepcionado ninguém. Quem trabalha com internet tende a achar que esse ramo é o clímax da loucura, do corre-corre, que existe um “internet timing”, que existe um pique, uma agilidade, uma urgência que são marca registrada e monopólio desse métier.
Sorry, mas eu não caio mais nesse papo. A tal “loucura” do trabalho online é loucura sim, mas loucura nossa. Não precisava ser assim. Não deve ser assim. Se é assim, é por consenso mútuo entre adultos sem juízo.
Quer uma prova? Então inspire-se nos seriados CSI ou Without a Trace, vista a camisa do Gil Gomes e tente reescrever a tragédia de um job através das provas.
Primeiro mistério: quase não há provas. “O cliente estava com pressa e passou o briefing por telefone”, ou “Ele me pediu isso via messenger”. Mas... você não cumpriu o seu papel e colocou esse briefing no papel, ou ao menos num email de confirmação? “Não dava tempo”.
Segundo mistério: os tempos “não batem”. A tal da “pressa internética” parece que só existe no pontapé inicial e em pontapés no traseiro quando o job atrasa. Entre o chute inicial e os chutes derradeiros, é um festival de demoras, tropeços, passos intrincados de tango e uma alternância de pés em cima da mesa e pisadas nos calos. Os ritmos começam a atravessar logo de cara, o descompasso é crescente e os prazos começam a enforcar todo mundo.
Terceiro mistério: o motivo. Como ninguém registrou nada, como as bolas que vieram quadradas seguiram quadradas e, sobretudo, como ninguém manifestou suas dúvidas a tempo, no final ninguém sabe mais qual era a finalidade essencial do job. Sem saber o propósito do trabalho, o resultado são tiros no escuro. Se alguém acertar o alvo, foi não-intencional.
Quarto mistério: temos um serial killer. Jobs inocentes acabam esquartejados a cada semana, a cada mês, e o padrão é sempre o mesmo. De vez em quando tem sangue na parede, cabeças rolam, mas no geral temos o que a polícia mui sabiamente categoriza como desinteligência. E tá lá o job estendido no chão.
Para acabar com essa onda de jobicídios, só tem um remédio: tolerância zero. Nada de briefings por telefone, nada de pedidos em mesa de happy hour, nada de solicitações por messenger. Briefing tem que vir por escrito, tem que ficar registrado, tem que ser devidamente documentado. Briefing tem que ser completo, briefing tem que vir redondo.
Informalidade e subserviência frente a um cliente queima o teu próprio filme: jamais vão te considerar como um profissional sério. Quem é profissional e maduro exige processos, exige metodologia.
Não há caminho do meio: ou teu job acaba numa história do Gil Gomes, ou com a benção do Russomano: “sendo bom para ambas as partes...”. Seriedade já, aqui e agora.
Se você quiser entender o Brasil volte pra escola: escolas de samba.
Eu faltei nessa aula e até hoje sinto falta.
Um dos nossos gênios da raça, Joãozinho Trinta, cercado de corpos nus e alegorias, despiu nossa brasilidade em cadeia nacional: "Quem gosta de miséria é intelectual. Povo gosta de luxo". E dá-lhe apoteoses, purpurina, plumas e samba para o mundo inteiro babar.
O "renezinho quarenta" aqui não gosta de miséria, mas eu devo confessar que essa mania toda de luxo me desconcerta. Gestão do Luxo pra cá, shopping de luxo pra lá, revistas de luxo, cafés de luxo, bancos de luxo... Tem algo esquisito aí, não? Ou sou eu que preciso ter mais jogo de cintura?
Talvez eu tenha passado tempo demais bebendo de outras fontes, fontes gringas, lendo os Jakob Nielsen e Steve Krug da vida e torcendo o nariz pra carnavalidades, leões de Cannes, prêmios e outras alegrias tupiniquins.
Talvez eu tenha me viciado na racionalidade das métricas do marketing direto, ou na fissura de otimizar resultados e tal.
Overdose de "less is more", talvez.
Preciso reler Oswald. Preciso rever a Tropicália. Quem sabe assim eu aprendo a me alimentar da racionalidade importada para transformá-la em algo que dê samba. É o mínimo que eu posso fazer, pois em torno de mim, com ou sem Oswalds e Caetanos a brasileirada toda é PHD em antropofagia.
Orkut? Dá samba. Fotolog? Entrou na roda. Podcast? Manda que a gente traça!
Essa facilidade com que adotamos novidades me desconcerta, palavra. Quando eu menos espero já perdi o pé e estou atravessando o samba. E dá-lhe repensar, sondar, fazer de tudo o que possa me trazer de volta ao compasso popular. Mas cinco minutos depois surge outra novidade e pronto, lá vamos nós de novo.
Acho que estou aprendendo algo, enfim: no digimundo "miséria" não quer dizer interface peladinha, e "luxo" não requer banda larga. Pense bem: messengers são um luxo. Orkuts e Yahoogrupos são um luxo. Uma caixinha de busca no teu browser, seja Yahoo ou Google ou MSN, são um luxo. SMS entre operadoras idem.
Pense agora nas coisas que te fazem sentir miserável: internet banking ruim é miséria. Sites com "loading" são uma miséria. "Fale conosco" que não responde é uma miséria. Softwares pesados são uma miséria.
Luxo é uma experiência rica. Experiência rica é aquela que te enriquece como ser humano.
Miséria é querer e não conseguir. Miséria é ser tratado como mais um.
Luxo não é um computador que fala: luxo é falar de graça com gente querida usando Skype.
Luxo não é uma foto de 6 megas: é tirar uma foto do teu filho com o celular e mandar direto pro Flickr para o mundo inteiro ver.
Luxo é esquecer que abismos existem. Miséria é ficar ilhado.
Rodei, rodei para enfim cair numa roda de samba, precisei chegar aos 40 para entender a sabedoria do Joãozinho Trinta.
Falta só eu ter mais ginga. Quem sabe um dia.
Enquanto isso crio passarelas e pontes e construo instrumentos para o povo delirar na avenida.
- Calma. Vamos rabiscar no papel, antes.
Ele me olhou com estranheza. O software já estava ali, engatilhado, pronto para receber de braços abertos nosso furor criativo, nosso ímpeto realizador, nossa... precipitação desastrada.
Quando o assunto é criar, somos como maus amantes: partimos para as vias de fato sem cerimônia alguma, sem preliminares, sem nada.
Dá para se conceber assim? Claro que dá, mas prepare-se para um gestação tumultuada e um parto sofrido.
O mal dos softwares autorais é esse: eles te enganam. Nenhum photoshop, dreamweaver, powerpoint te pergunta: "O que você quer de mim?". Que nada: em todos eles começamos com a cabeça tão vazia quanto a tela nova.
Para alguns processos "autorais" isso pode ser um bom começo. Se você for um poeta beat, se você for um James Joyce reencarnado registrando seu stream of conciousness, se você for um Pollock e quiser jogar coisas a esmo para ver no que dá... Nesses casos o processo "vamuquivamu" pode ser esplêndido, mas se for essa a sua praia eu te sugiro procurar outra revista (ou um articulista menos crica).
Essa liberdade infinita que um software nos dá mascara uma limitação básica: aquele software é capaz de cuspir alguns tipos de coisas, mas quem garante que são as coisas de que precisamos? A solução para o seu problema pode não ser um JPG, pode ser um email bem estruturado. A chave para resolver uma questão pode ser um mero telefonema, e não uma campanha elaborada de email marketing. Ou pode ser... não fazer nada a respeito. Por isso é bom parar por um momento, levantar da sua baia e ir buscar lápis e papel para rabiscar um esquema realmente inovador.
Inovação nasce assim, nasce fora dos caminhos batidos. Grandes idéias são grandes já no rascunho, em rabiscos feitos no guardanapo do restaurante. Se depois disso você vai usar o software X ou Y, macs ou PC's, tanto faz. Ou você acha que "Garota de Ipanema" foi escrita usando a última versão do Office num Tablet PC wireless na mesa do bar?
Softwares viciam a gente. Nunca vou me esquecer de uma frase colada no monitor de uma colega, anos atrás: "De tanto carregar um martelo, você acaba achando que tudo é prego". Well, acho que a frase era mais bem construída, mas você pegou a idéia: nem tudo se traduz em planilhas, em classes Java, nem sempre a solução é um repeteco do que você sempre fez.
Anos atrás, o que eu mais ouvia era: "Preciso aprender internet... Que curso de Flash você me recomenda?". Era de arrepiar. E dá-lhe gente disparando SWF pra todo lado, como se a panacéia universal fosse interatividades misteriosas e sons em loop.
Por sorte a paisagem hoje é outra, e não faltam boas opções para quem quer "aprender internet". Mas o problema persiste: e se a solução não for só internet?
Se pensarmos só em termos de internet, como vamos criar aquilo que virá depois da internet?
Há alguns anos todo projeto mirabolante pressupunha que nosso futuro era a atrofia completa, uma humanidade sentada, com nariz colado em monitores e sorrindo por emoticons. Felizmente alguém teve a saudável percepção de que somos bípedes, gregários, afetivos, e que celulares com câmera poderiam ser mais libertadores e revolucionários do que um hipercomputador no meio do living.
Alguns softwares, porém, te ajudam a pensar, a organizar melhor as idéias. Eu sou um dependente terminal do MindManager (http://www.mindmanager.com), que me permite primeiro organizar pensamentos soltos e depois agrupá-los, conectá-los e enfim exportá-los em vários formatos diferentes. Há também o The Brain (http://www.thebrain.com) ou o Inspiration (http://www.inspiration.com), ou mesmo os outliners do Word ou Powerpoint.
O mais importante, seja qual for a ferramenta, é que você conceba algo abrangente, consistente, bem costurado, e que só então você decida qual a melhor maneira de realizar a o que você imaginou.
Namore muito sua idéia, muito. Só assim vamos fazer nascer projetos que fecundem pessoas, que nos tornem mais férteis.
Eu esqueço. Esqueço mesmo. Assumo que esqueço.
Esqueço o dia de pagar contas, esqueço que tenho que mandar meu artigo aqui pra revista, esqueço de comprar o que a faxineira pede... Minha semana é um festival de esquecimentos.
É por isso que nunca me dei bem com agendinhas: ou eu me esqueço de anotar, ou me esqueço de conferir todo dia. Agenda boa, pra mim, tinha que ser uma que me cutucasse e dissesse: René, hoje é o dia do cartão. Ou então apitar na hora H. É por isso que ando com um PDA pra cima e pra baixo quase o tempo todo: ele apita.
O meu PDA, porém, está perdendo ibope pro meu celular novo. Não que meu celular seja um smartphone caríssimo, um iPhone ou seja o que for. É um celular singelo, despretensioso, mas... que navega na internet. Instalei o Opera Mini no bichinho e pronto, o telefone ganhou super-poderes. E eu também.
O primeiro super-poder que eu ganhei foi... andar. Andar, zanzar, dirigir, passear... qualquer coisa que tire meu traseiro da cadeira. Se eu quiser acompanhar meus emails não preciso mais ficar sentado o dia todo: webmails como Yahoo! e Google têm versões mobile bem bacanas.
Outro super-poder sensacional é o sentido aranha: eu recebo agora notícias e alertas e alarmes e compromissos direto por SMS. Se você adotar os calendários do Yahoo! ou do Google eles te avisam por SMS também.
Minha última descoberta (ok, bem tardia, admito) foi o Remember The Milk (www.rememberthemilk.com), que serve para uma coisa só: tarefas. Pronto, agora é que não esqueço mais nada :)
Entrem lá no Remember the Milk, cadastrem-se e explorem um pouco. Adicionar tarefas e gerenciar to-do's é uma delícia. E o mais legal é que ele se integra ao calendário do Google (que, por sua vez, pode ser integrado ao Outlook). E, maravilha das maravilhas, você consegue receber alertas por SMS.
Por que estou contando essa história toda? Qual a graça de saber como eu me organizo?
A primeira graça é: é de graça (ou quase). A segunda graça é que, mesmo com um telefone prosaico, você consegue armar um esquema bacaninha baseado em web e SMS. A terceira graça é: eu posso me desgrudar do PC, da cadeira, das quatro paredes e viver a minha First Life feliz e contente.
Digam o que quiserem da Second Life e ambientes imersivos e experiências 3-D, mas eu ando muito mais fascinado por tudo o que me dá liberdade... real.
Eu não quero ser um avatar lindo nem experimentar fantasias virtuais: eu quero meu corpo e alma e coração e sentidos felizes, não apenas meu cérebro. Um bom café na Livraria Cultura nova aqui em São Paulo (vocês foram? imperdível) é um prazer muito mais memorável, muito mais fecundo, muito mais humano do que... navegar por lojas online, por melhores e mais convenientes que sejam. E, com o celular à mão, posso contar pra todo mundo como estou feliz e contente usando Twitter (twitter.com), que me permite blogar e avisar amigos usando... SMS.
(Um detalhe: uma boa loja online como a www.livrariacultura.com.br me reconhece até mesmo quando estou na loja física. Meu histórico de compra, meus descontos, meu cadastro... tudo é integrado. Não importa onde, eu sou eu, não?)
Tem outra graça nessa história toda: ela me faz enxergar que design mesmo não é desenhar páginas nem animações nem aparelhos, é desenhar experiências humanas. Gente não é aquela coisa que mexe o mouse, gente tem pernas, braços, olhos, boca e uma fome danada, fome de respeito, fome de alegria, fome de experiências ricas e fome de liberdade.
Comece agora mesmo a pesquiser sobre user experience. Lembre-se sempre de pensar em como tornar as pessoas mais autônomas e mais plenas. Lembre-se: gente é "mobile", a vida é opensource, felicidade é freeware.
E lembre-se do leite, claro.
A lenda é mais ou menos assim: na legendária aula inicial, o grande mestre distribui a seus discípulos (todos novatos) folhas de papel e diz “Construam”. E sai.
O desafio era heróico. A escola era, afinal, lendária, seus professores idem, e muitos do que saiu dali (homens e idéias) mudariam o mundo.
Quando o mestre volta há uma torre Eiffel de papel, uma catedral gótica de papel e... algo inusitado: um grupo dobrou uma folha em V, inverteu-a e a apoiou na mesa, como uma tenda. Comparado aos outros projetos, é quase uma afronta.
O mestre disse:
- Catedrais góticas são o apogeu da pedra. É a construção mais luminosa, mais vertiginosa que jamais se fez em pedra. A torre Eiffel, por outro lado, é o triunfo do ferro: só quando dominamos os segredos do ferro pudemos fazer uma estrutura assim. Já essa tenda de papel, tão singela, explora aquilo de que só o papel é capaz: ser dobrado com as mãos e sustentar sua forma com leveza e graça.
Os outros dois grupos tentaram usar o papel para imitar outros materias. Já esse grupo entendeu a natureza do papel e a expressou com perfeição.
Não sei se você já pensou nisso, mas quando se começa a trabalhar com internet o que te jogam na mão é mais delicado que papel: um “material” tênue, flexível, quase transparente. E aí, o que dá para fazer com isso?
Assim como com o papel da lenda, dá para se fazer muita coisa, sobretudo besteiras. Nos primórdios, quando conexão de 28k era um luxo, já se faziam shockwaves elaborados, streaming video, audio, games em java... Imagine, então, quando tivermos banda larga, pensava-se.
Em pouco tempo “construir” passou a ser... usar flash. Que maravilha! Originalidade, impacto, complexidade, tudo isso sem pesar as toneladas de antes. Agora sim estávamos fazendo coisas “interativas” sem ter que esperar pela terra prometida... da banda larga.
Assim como o guru da lenda, eu já fazia meus apartes: coisas pesadonas assim, imersivas, multimídia, são usos pobres dessa novidade. Isso CD-ROM já fazia, TV já fazia, rádio já fazia... e melhor. Usar internet pra isso é fazer catedrais de papier-maché, é usar internet como cano estreito para despejar conteúdo. E sonhar com banda lardar era ficar fascinado com o dedo que aponta a lua, e não ver a lua.
Um dia os Google’s, Yahoo’s, Radio Userland e Orkut’s da vida nos deram um tapa na cara dizendo “acordem, manés”. Diante de nossos olhos estavam enfim usos inteligentes, bem-bolados, elegantes de tudo aquilo que esse nosso papel hiper-dobrável era capaz de fazer.
Mas afinal... do que esse nosso papel é capaz?
Ele é capaz, sobretudo, de criar pontes. No nosso ofício, só cria ilhas quem quer ou está mal-informado. E, claro, só está mal informado quem quer.
Aprender a lição desses mestres não é fácil não.
Por exemplo: RSS. Eu demorei um bom tempo para entender que diabos era isso, mas hoje todos os meus blogs estão compatíveis. Idem para podcasting: meu audioblog também está preparado. Quem quiser acompanhar o que eu publico, é só usar um bom leitor de RSS (tem pra windows, mac, pocketpc, palm...).
Pra descomplicar: RSS é uma maneira de você disponibilizar conteúdo. Eu publico um post no meu blog, e automaticamente ele gera um arquivinho com um resumo do que eu publiquei. Esse arquivinho sempre “fresco” pode ser lido e importado de um monte de jeitos. Se você usa o blogger, ou usa o movable type, ou muitas outras soluções de publicação, elas geram RSS automaticamente. E para você acompanhar vários RSS ao mesmo tempo, eu sugiro o Awasu, gratuito e legal (www.awasu.com)
Uma vez que meus blogs e coisas online todas estavam compatíveis com RSS, criei uma página que mostra de uma só vez, automaticamente, as últimas novidades de todos os meus blogs. Eu publico uma foto nova? Aparece lá. Um post novo? Idem. Quem quiser ter uma visão geral do que eu ando fazendo, vê tudo no www.usina.com/varal.
Mais: quem quiser inserir no seu próprio site chamadas para o que eu publico, é só usar meus RSS também.
Quer ver quem faz isso em larga escala? O Yahoo. A home do My Yahoo permite você adicionar blocos de conteúdo de outros sites. Basta eles gerarem... RSS. Veja o site da BBC. CNN. Veja o site... da MSN. Todos eles tem um linkzinho em algum lugar para o RSS. Veja que belo esforço o do projeto RSSficado (http://www.rssficado.com.br )
Eu fico encantado: conteúdo sendo distribuído e publicado e trocado e disponibilizado automaticamente, seja para que plataforma for, seja para que sistema for. Pessoas misturando conteúdos de todo canto, pessoas disponibilizando seu trabalho em todas as direções. A tal da web finalmente começa a ter cara de... spider web.
Procure descobrir mais sobre RSS. Aventure-se, explore. Vale a pena.
Voltando à nossa lenda: a escola era a Bauhaus em Weimar, Alemanha. O mestre? Josef Albers. Quando? Lá se vão oitenta anos mais ou menos. O prédio em que você está, a cadeira em que você se senta, tua caneta, muito do nosso repertório cotidiano vem de lá. Pesquise na Wikipedia, vale a pena (www.wikipedia.org , outro belo projeto colaborativo).
Gosto muito dessa lenda. Lenda boa é assim: não tem gnomos, princesas nem bruxos. Lenda boa tem homens, coragem e, sobretudo, a esperança de um final feliz para muita gente. Isso sim é mágico.
O Tarzan deve morrer de inveja do Homem-Aranha: o cara clica num botão
e zás, sai um cipó automático limpinho para se baloiçar sobre abismos.
Assim é fácil.
Para piorar a raiva, a selva de pedra tem mocinhas muuuito mais interessantes do que a Jane e a Chita. Sem platéia feminina de que adianta desfilar saradão e seminu pela floresta, afinal? Uma banana pra esse mascarado, deve grunhir o homem-macaco.
É curioso que um dos super-heróis mais queridos seja... uma aranha. Imagine você convencendo um cliente ou chefe de que um homem-inseto que sobe pelas paredes e lança teias vai ser um estrondo comercial. Faça isso hoje e o cara ou te demite ou pede antes um focus-group, que vai optar fragorosamente pelo Iridiscente Homem-Borboleta. Só o Stan Lee mesmo para emplacar uma idéia improvável dessas.
Mudemos da Cartoon Network pro Discovery Channel: o forte das aranhas não é o bungie-jumping. Aranhas vivem por um fio, mas um fio que tece teias. O bichinho escolhe um canto e vai pacientemente esticando, prendendo, enredando, até que uma teia complicada e invisível fique estendida no ar. Como um certo senhor barbudo, ao final da criação ela descansa.
Descansar é modo de dizer: na ponta de suas patas os fios tensos vão dando notícia se o almoço chegou ou não. Um tremelique nervoso no setor XYZ é a sineta do lanche: ela corre para o ponto exato antes que o almoço escape.
Biologices à parte, vou confessar uma coisa: pela primeira vez em anos eu vejo sentido nessa história de falar em web. Que web é teia em inglês não é novidade, mas antes o que me vinha a cabeça era uma teia mundial de computadores interligados e zunindo, e a metáfora não me comovia muito.
Tudo mudou, ou melhor, tudo está mudando muito rápido. A teia agora é outra. Eu posso escolher quais são as fontes de notícia e informação mais relevantes para mim e concentrá-las todas numa página só, ou em um único software. Eu bato o olho ali e vejo o que tem de novo em N fontes diferentes. Como a aranhazinha, sem sair do lugar eu fico ligado em mil fios que me anunciam as novidades. E tudo o que eu produzo, de podcasts a blogs passando por minhas fotos, tudo pode ser importado nas teias alheias.
Como isso é possível? RSS.
Não, RSS não quer dizer "risos". RSS é tão fácil que é até divertido, mas é algo bem sério. RSS (realyl simple syndication) foi um recurso criado anos atrás para facilitar a distribuição de informações. Eu atualizo meu podcast "roda e avisa" (http://www.usina.com/rodaeavisa) e automaticamente um arquivinho é gerado com o resumo das mudanças. Esse arquivinho de nada é que permite que pessoas do mundo todo "acompanhem" as coisas que eu publico sem ter que visitar minha página.
(Confira http://pt.wikipedia.org/wiki/RSS para ver mais detalhes, é bem bacana)
Preste atenção em grandes sites de notícias, em bons blogs e portais: você vai ver que em algum lugar vai ter um botãozinho escrito RSS, ou XML, ou FEED. Esse botão tem um link, e esse link você pode adicionar à tua teia pessoal de interesses e fontes de notícia.
Quer ver um bom exemplo? A CNN oferece inúmeros feeds: http://www.cnn.com/services/rss/ Outro exemplo: ontem me indicaram um blog bárbaro de um americano super-antenado: http://jeremy.zawodny.com/blog/. Como o blog dele tinha RSS, adicionei-o imediatamente à minha página agregadora e pronto: agora ele faz parte da minha teia, ou melhor, da minha web.
OK, agora todos nós temos "sentidos de aranha", todos nós lançamos teias num duplo-clique. Isso o Peter Parker já tinha. Mas temos uma vantagem sobre o CDF solitário: somos milhões de aranhas, milhões, cada uma construindo sua própria web, cada uma produzindo e pendurando na teia para todas as outras aranhas, cada uma aliando forças com outras aranhas e montando sua própria rede de comunidades e trabalho.
Para nós que trabalhamos com essa selva de teias, qual o impacto? O que muda? Vamos ter que repensar nossa maneira de fazer sites, de criar serviços, de pensar em ações de comunicação?
Sim, e rápido. A menos que queiramos ficar de tanga escutando gorilas
Mateus tinha nome de profeta mas no dia-a-dia era um bom mortal. Um certo dia, porém, depois de uma noite não muito certa ele, com fúria sagrada, proferiu uma heresia:
"Um só pernilongo põe em xeque a existência de Deus!"
Ok, ok... Mateus era estrangeiro, não estava acostumado a conviver com o fato de que, por mais que ele se julgasse um cidadão americano, pro pernilongo teológico ele era o Maná, o alimento milagroso que o deus dos pernilongos provê para seus filhos.
Acordei com essa história na cabeça porque dormi com um zum-zum-zum na cabeça, causado não por um inseto iconoclasta mas sim por um pernilongo anti-tecnologia.
"Um só pernilongo põe em xeque a tecnologia onipresente, onisciente e todo-poderosa"
(Definida assim tecnologia parece divindade, não? Só pro pernilongo que não: ele ignorou meu repelente eletrônico com controle de potência, chave seletora de modos de operação e o led vermelho místico indicando a operação invisível da proteção eletrônica. Ignorou. A teologia do pernilongo nem se abalou: eu continuava sendo um paraíso em cujas veias corria leite e mel.)
Ok, ok... eu não deveria misturar teologia com tecnologia. Aliás, ninguém deveria. Ninguém.
Sabe o que tecnologia e teologia têm em comum? Pense. Pense mais um pouco. Eu respondo: você. Ou melhor, pessoas. Sem pessoas não haveria nem uma nem outra. E pessoas têm algo em comum: crença. Pessoas tendem a crer. Você crê em quê?
Opa, antes que você responda deixemos de lado religiões. Deixando a religião de lado deixamos de lado metade das guerras.
Eu começo: eu acredito... Opa, vou fazer isso via twitter, e quando eu escrever aquilo que eu acredito vou acrescentar #euacredito. Se todos twittarmos o nosso credo colocando #euacredito vai dar pra fazer um painel bem bacana com crenças mil. Topa? Assim que eu terminar este artigo eu farei isso :)
Muitos de nós começam sua carreira no digimundo por algum tipo de fé, algum tipo de crença profunda e otimista. Eu tenho fé numa humanidade 2.0, outros têm fé no poder do design, outros têm fé num neo-socialismo digital, alguns têm fé no milagre dos IPO's, outros veneram marcas e por aí vai.
Fé é bom. O complicado é quando tecnologia vira teologia. O complicado é quando alguém foi iluminado e começa a impingir dogmas por aí.
Quer ver como isso é real? Fale por aí: "a internet é XYZ". Publique no seu blog que "blogs são ZYW". É dizer isso e, como se dizia nos meus tempos de Aqui e Agora, "era só bala que avoava!". Os monoteístas de plantão vão começar uma jihad contra você.
Nessas horas zoroástricas e maniqueístas onde existe um Bem (eles) versus um Mal (você), eu começo a achar que estou no século XV e prefiro voltar ainda mais no tempo. Grécia, lá vou eu.
Vocês ouviram falar nos sofistas? Vá pra wikipedia sem pressa, essa revista não dá time-out.
Voltou? Então prossigamos. Um filósofo em busca da essência das coisas perguntou a sofistas: o que é o Belo? Um teria dito: qual? Outro perguntou: quem?
Os sofistas, muito lúcidos, sabiam que essência é uma abstração perigosa. Quando um perguntou "qual?", ele quis dizer que o que há são coisas belas, coisas concretas, palpáveis. Quando o outro perguntou "quem?" ele fez a melhor pergunta de todas: belo para quem? Beleza é subjetivo.
Essa lucidez parece não ter resistido muito ao tempo. Surgiram novos credos, novos dogmas e escreveram verdades em pedra, livros sagrados e tal. Milênios depois surge um novo altar, o da tecnologia, e por mais que ela seja feita à nossa imagem e semelhança, muitos se comportam como a Santa Inquisição 2.0.
Pense comigo: dá pra falar em Internet sem levar em conta que a minha experiência com internet é diferente da sua, sem levar em conta que eu sou diferente de você? Que blogs cada um usa como quiser e dá o sentido que bem entender? Que web 2.0 é reinvenção e não cânone?
Eu presenciei outro dia a vanguarda do digimundo tentando catequisar os bárbaros do mundo arcaico. O encontro foi uma bela oportunidade, mas uma oportunidade a meu ver perdida: justamente os mais modernos foram os mais dogmáticos, os menos propensos a entender a visão do outro, os menos capazes de criar um diálogo equilibrado. Alguém foi convertido, será?
Dica deste evangelista aqui: fanatismo espanta. Catequese assusta. Conversa só acontece quando os dois lados escutam.
Ok, você há de dizer que internet é um conjunto de protocolos e tem o W3C e bla-bla-bla, vai acabar esquecendo que, como o ser humano, a internet é algo ainda em aberto, onde algumas coisas são possíveis, outras nem tanto, e muito ainda está para se experimentar.
Melhor dizendo: internet não é isso não, nem o ser humano o é. Isso é apenas o que eu acredito. E é o que me move :)
Memórias brasileiras têm um gosto indefinível, misto de doçura e de absurdo, de picante e suculento, gostos de dar água na boca e que te trazem palavras fortes na ponta da língua, mas antes que você as enquadre as palavras te driblam o verbo e lá se foi o discurso, a história, a prosa.
Não somos um país sem memória. Memória não falta, o que falta é colocá-las na linha, em linhas, em blocos comportados longe do carnaval das entrelinhas e da folia do não-dito. Haja jogo-de-cintura para se fazer um balanço nesta terra sem perder o rebolado.
A repórter perguntou: “General, o senhor poderia fazer um balanço do seu governo?”.
Figueiredo não hesitou. Diante das câmeras e dos olhos da nação balançou pra cá, pra lá e disse: “Está bom assim?”
(Creio que foi assim mesmo, creio ainda que absurdo, creio com fé vacilante na minha memória idem).
Há balanços mais tentadores do que o de um general irreverente -Vinicius que o diga - mas a tentação de se fazer balanços numa hora como essa é quase irresistível, ainda mais quando um ano se encerra e pede um epitáfio, um rótulo, uma elegia.
Balanços têm sempre um eixo, e girando em torno do título desta revista eu proclamo: esse foi um excelente ano para o webdesign, sobretudo porque foi um péssimo ano para o webdesign ou, ao menos, para o que se costumava encarar como webdesign.
(Well, quem sou eu para falar em webdesign se nem designer eu sou... mas é que esse ano me fez perguntar: o que eu sou mesmo? O que eu deveria ter feito e pelo visto ainda não sei fazer? O que eu vou ser no ano que vem?)
Acabei esse ano deliciosamente desnorteado, abençoado por experiências que jogaram pro alto toda minha experiência, e que me forçaram a perceber que esse nosso ofício tem que se reinventar de cabo a rabo.
Reveja 2004 e veja o Google. Veja os filhotes do Google: Google Desktop, Google Adsense, Google Gmail, Google Picasa. Google via SMS, via WAP. Que webdesign é esse, que fez um logo, uma caixa de texto e um botão de submit virarem a chave para o inumerável?
Veja o Yahoo. Veja as facetas do Yahoo: messenger, chat por voz, webmail, grupos, mobile, porta-arquivos, agenda online, bookmarks online. Veja o Skype.
Veja o Orkut. Veja os blogs. Veja o SMS. Veja a integração do iPod com o iTunes e com a loja online da Apple.
Há algo maior tomando corpo, se infiltrando nas nossas vidas, redefinindo a maneira como trabalhamos, vivemos e vemos o mundo. Algo que não se restringe a interfaces instigantes, criatividade gratuita ou interatividade de araque. Algo que não espera pela benção da academia, nem pelo champagne de publicitários. Algo que não é privilégio de descolados ou de gente com cabelo esquisito. Coisas com siglas anônimas que nos tornam mais humanos, mais dignos, naturais, letras mudas que nos dão mais voz. Um mundo inteiro de integração, de transparência, de agilidade, um universo inédito que parece com tudo o que eu sempre sonhei mas com nada que eu soubesse fazer ou criar.
Reveja tudo isso que te é tão caro no digimundo e me responda: que webdesign é esse, que nos faz mais completos, mais humanos, mais criativos? Usaram Flash, applets, DHTML? Usaram a cabeça, e pensaram... com a cabeça dos usuários. Pensaram naquilo que os usuários pensam, e pensaram em como fazer coisas fáceis de usar, páginas que fossem como o gênio da lâmpada: você pede, ela faz.
Gênios de historinha concedem três desejos sempre, e se vocês me concederem essa honra, coloco aqui meus 3 desejos para o nosso ofício:
* Desejo que aprendamos a satisfazer desejos reais, e não a inventar desejos vazios
* Desejo que desejos possam ser atendidos a qualquer momento e em qualquer lugar, não só na frente de um desktop de 30 quilos.
* Desejo que milhões desejem milhões de desejos, e que não precisem de gênios para realizá-los
Nós, brasileiros, já demos os primeiros passos.Veja o case mundial de e-governo que é o Brasil. Veja os telecentros da prefeitura de SP.
Estamos num momento mágico, e que pede novos gênios que não cruzem os braços como a Jeannie e fechem os olhinhos, mas que saiam dos oásis e arregacem as mangas.
Mãos à obra.
Se os teus kikos marinhos nasceram, cresceram e foram felizes para sempre, não me conte. A menos, claro, que no teu aquário em se plantando tudo dá. Se você nunca ouviu falar de kikos marinhos, porém... nem me diga senão vou morrer de inveja :)
Ok, ok, estou exagerando, o trauma não foi assim tão... traumático. Passou. Mas algo aconteceu ali: perdi minha virgindade mercadológica.
Ainda me lembro da embalagem: uma família feliz e sorridente de kikos marinhos, desenhada com esmero e alegria, enchia de vida e esperança aquele pó cinza dentro do saco plástico. Pó? Que nada! Aquilo era um milagre científico ressuscitando criaturas pré-históricas: Tu és pó, e do pó nascerás!
Depois do leite em pó, do nescau e do nescafé, finalmente... amiguinhos em pó! Just Add Water!
Que criança resistiria? Quem não pagaria com a alma para ver aquele pó bobo ganhar vida e virar papais e mamães e filhinhos kikos marinhos?
Well... a pergunta é: que criança viu isso? Eu não vi nada. Só vi a água do aquário estragando, estragando, enquanto meus olhos aflitos buscavam sinais de bebês jurássicos. Adiós, inocência.
Mas que cargas d'água essa minha história aquática tristíssima (snif) tem a ver com nosso ofício? O que tem os kikos a ver com nossos micos? E que história é essa de citar Pero Vaz de Caminha em vão?
Simples: muita gente está prestes a perder a inocência. E a fé. E a crença em internet. Tudo por conta... de promessas em pó.
Alguém já disse que tecnologia um dia vai parecer mágica, mas daí a acreditar em milagres é outra história. Web 2.0? Ajax? Comunidades? Conteúdo gerado pelo usuário? Lindo, encantador... mas será que é a pedra filosofal? A resposta para todas as perguntas? Unissex? One-size-fits-all? All-you-can-eat? Em comunidades em se plantando tudo dá? Ou há contra-indicações e posologia na bula?
Caríssimos, a resposta é simples.
Como diria Bob Dylan, the answer is blowing in the wind. Traduzindo para bom português: cuidado com pastel-de-vento. O recheio de qualquer coisa, na internet ou fora dela, é... carne. Carne e osso e mentes e coração e sonhos... de gente.
Gente é a resposta, e gente é também a maior das perguntas.
Como fazer gente feliz? O que é relevante para gente? Por quê a gente colabora? Por quê a gente não colabora? A gente quem, cara-pálida?
Um exemplo: blogs.
Bárbaro, não? Você pode incluir blogs na sua proposta e cantar loas às maravilhas do citizen journalism, da folksonomia, do long-tail , do crowdsourcing e demais buzzwords que só a wikipedia é capaz de explicar. O cliente vai ficar boquiaberto.
Quero ver, porém, a cara dele quando adicionar o pó mágico ao seu próprio aquário/site, o tempo passar e passar... e não brotar nada. Blog não era pra ser algo explosivo, revolucionário, uma desconstrução de paradigmas, bla-bla-bla-blogs?
Well, lá se foi a inocência de mais um.
O mesmo vale para comunidades. Conteúdo gerado por usuários. Virais. Colaboração. Parece só questão de adicionar água e mexer um pouco, mas na verdade a química é muito mais complexa. Na verdade, a questão é mais culinária do que química: há que se ter uma certa mão, um certo talento, um certo tempero especial, a temperatura e o tempo ideais pra transformar farinha e água em um magnífico croissant.
Croissant precisa de fermento? Tem que sovar a massa? A massa tem que repousar? Se abrir o forno a massa desanda? Qualquer farinha serve? Tem que peneirar? E o tamanho, importa?
As mesmas perguntas valem pra ambientes sociais: comunidades precisam de um empurrãozinho? Tem que incentivar a colaboração no começo? As pessoas precisam de muito tempo para se ambientarem? Se você se intrometer na comunidade ela desanda? Todas as pessoas e perfis de gente têm o mesmo potencial de comunidades? Vale a pena filtrar antes? Até que tamanho uma comunidade pode crescer?
As perguntas são inúmeras, e todas elas absolutamente fundamentais. E a resposta pra todas é a mesma: depende. Não há nunca um caso idêntico a outro. Aquilo que foi um case no Azerbaidjão pode ser um mico no Uzbequistão. Aquilo que floresce e dá frutos na Bósnia azeda e murcha na Sérvia. Tudo depende e, como diria Gilberto Gil, merece consideração.
Por exemplo: meus kikos marinhos nunca vingaram. Já os seus... ok, ok, nem me conte.
Onde: um belo restaurante. Quando: um belo domingo.
Fato: me acharam.
O celular tocou. Que hora, pensei. Conferi o identificador de
chamadas: um número qualquer. Pedi licença à minha companhia, me afastei e atendi.
"René?"
"Sim, quem fala?"
"Você faz trabalho?"
Fazer trabalho? A primeira idéia que me ocorreu foi macumba.
Well, não era isso. Era trabalho de faculdade, ou melhor, uma versão on-demand e outsourced de trabalho de faculdade, onde um grupo neo-picareta de estudantes apela para um equivalente estudantil da bruna surfistinha e paga por um trabalho de escola encomendado. Claaaaaaaro, o grupo "briefa" antes. Tudo muito profissional.
Fiquei fascinado, e triplamente:
- isso existe?
- de onde saiu essa balela que eu "faço trabalho"?
- onde acharam meu celular?
"Onde eu achei o senhor? Ah, numa página da internet, não me lembro"
É isso: o grupo entrou num mecanismo de busca, buscou não sei o quê, e me achou nem sabe onde.
Despachei a moça e voltei pro meu almoço, tentando esquecer essa intromissão desagradável. Deu vontade de procurar um pai-de-santo para checar se estou com encosto na internet.
Terminei meu almoço, tomei um café, mas não engoli essa história. Tinha muita coisa ruim misturada ali.
A primeira delas é, pra mim, uma vergonha: alunos "colando" sem
nenhuma desculpa decente e, o que é pior, sem vergonha na cara. Com profissionalismo, até. Fazer um bom trabalho antes era uma gincana: tinha que pesquisar em bibliotecas, arquivos, entrevistar pessoas, correr a cidade em busca de fontes de informação. Hoje você tem um mundo sem fim de informação na telinha do seu PC, e mesmo assim tem gente que prefere pagar pra quem faça.
A segunda coisa é: tem gente usando internet para emburrecer. Tem gente usando a web como buffet de festinha de criança: pega os doces coloridos e volta correndo a brincar. Listas de discussão? Ler notícias e blogs? Compartilhar seu conhecimento? Nem pensar (literalmente).
Semanas depois, essas duas aberrações nem me chocam tanto. Se o cara quiser ser tolo, que seja. Mas outro aspecto me perturba até agora: quando alguém faz uma busca por mim, aquela seqí¼ência de links é um retrato fiel de quem eu sou? Aquela página de respostas tem o direito de "falar por mim"?
Eu digo: não. E provo: dias atrás recebo um email formalíssimo,
pedindo desculpas pela intromissão e perguntando por dicas sobre... a vida no Canadá. Detalhe: eu nunca fui ao Canadá. Pior: não me lembro de jamais ter mencionado o Canadá em nenhum "trabalho" (ops) meu. De onde o rapaz tirou isso?
Outro email: um grupo de estudantes (outro!) me perguntando que tema deveriam escolher para seu trabalho acadêmico. Eu nem acadêmico sou... fiz Rádio e TV na ECA e olha lá!
Depois de muito repensar essa história (sim, meu cérebro tem dois estômagos e rumina), notei que sim, havia esperança, sim, havia uma luz: em todos esses casos, as pessoas não estavam buscando apenas páginas, estavam buscando... pessoas. E por que elas estavam procurando pessoas? Zilhões e zilhões de sites e páginas não bastam?
A resposta parece ser... não. Por mais que se publique conteúdo sem parar, existe algo que não está no papel nem na tela, existe algo que a busca não acha: o que cada um de nós acha. Nosso jeito único de pensar e responder, nossa experiência pessoal, nossa maneira de ver o mundo.
(Um break para a auto-propaganda: O Yahoo! lançou meses atrás uma busca assim, onde um pergunta, e quem souber responde: é o Yahoo! Answers (http://answers.yahoo.com). Pergunte o que quiser: como fazer um suflê, como entender seu namorado, por que gatos brancos bebem na torneira... sempre vai ter um monte de gente respondendo, e quem escolhe a melhor resposta é você. Uma delícia, o Answers, e aposto que aqui no Brasil ser um sucesso.)
Eu adoraria perguntar aqui aos estudantes malandros qual vai ser o papel deles num mundo em que a opinião pessoal, o talento individual, a personalidade contam, mas não faz sentido, eles não devem ler uma revista como essa, eles não estão interessados em opiniões alheias.
Acho que nunca vou encontrá-los, aliás, não no mercado profissional ao menos. Vão conseguir um rolinho de papel com um diploma mas não vão conseguir enrolar ninguém.
Reza a lenda de que perguntaram ao Picasso de onde ele tirava idéias e inspiração. Ele teria respondido: "eu não procuro, eu acho". Well, ele era um gênio de uma outra época. Hoje os verbos são outros: eu produzo, tu opinas, ele comenta e nós achamos... o máximo.
É simples: dê a mão, logo vão querer o braço. Simple as that. Quer ver?
Você criou um site? Ótimo! Posso ir lá então e fazer o que eu preciso sozinho? Mais ou menos??? Como assim?
Que bom que tem um fale conosco! Vocês me respondem logo? Como assim mais ou menos???
Usuários são tão cruéis. Se eles soubessem o trabalho que deu, as guerras políticas, o dinheiro que se gastou, as noites em claro... Eles pensam que é fácil?
Agora respondo eu: pensam. E têm toda razão em pensar.
Basta ele digitar o endereço do teu concorrente e pronto, ali está, no site do outro ele pode, no teu site não. Por quê?
Nem tente explicar. Eu conheço os bastidores, sei como é. Os usuários também não querem saber, de problemas já estão bem servidos, e contam com teu site para resolvê-los.
Essa impaciência vem de longe, e a culpa nem é nossa. Pense bem: desde sempre tudo o que você fazia no computador era quase instantâneo. Escrever um texto, usar uma enciclopédia em CD-ROM, jogar um joguinho... Se demorava um pouco, o problema era o teu PC, e a questão era fazer ou não um investimento extra.
Quando a internet entrou na vida cotidiana, parecia mais uma coisa que o teu computador fazia. Ninguém tinha (e quase ninguém tem) idéia de que uma URL que você digita, uma conexão discada, qualquer coisa internética passa por uma corrida de obstáculos ida-e-volta cheia de lodaçais, arame farpado, bandidos, abismos. Para o usuário normal continua sendo mais uma coisa que o computador faz.
A expectativa que já era alta se agravou com o tempo. O usuário vê duas páginas lado a lado, a da Amazon e a tua. Como você vai explicar a diferença cavalar? São páginas, enfim.
Nos anúncios de TV, nos outdoors é fácil. Uma bela modelo, um fotógrafo decente, um slogan a marca X é mais você e pronto. Ninguém espera nada mais de um anúncio. Mas qualquer coisa online gera uma expectativa difícil de atender.
É claro que você espera de mim que eu faça mais do que discorrer sobre o problema. É de se esperar que eu traga soluções, e não mais problemas.
Vamos ajustar as expectativas, então. Em primeiro lugar: a natureza humana não vai mudar. Essa impiedade é uma condição de contorno do nosso problema. O que podemos fazer é levá-la em conta, gerenciá-la, e se possível surpreendê-la positivamente.
Um memorável chefe meu dizia: o mais importante é gerenciar expectativas. Como você gerencia expectativas? Jamais prometendo o impossível e sempre indo além da expectativa criada.
Gerenciar expectativas não diz respeito apenas ao cliente final. Em todo o processo de se construir produtos interativos, é fundamental que esteja sempre claro o que se espera de cada um.
Um layout irresponsável no Photoshop, com lindos botões de busca e fale conosco podem passar batido no processo até a hora em que o site vai pro ar, e então se descobre que uma boa busca é um projeto complexo e custoso, e que um fale conosco só funciona se houver alguém que responda. Mas aí já é tarde demais, simplesmente não funciona tão bem como... o Google (outro inflacionador genial de expectativas).
Um vendedor de soluções interativas que diz Claro! O site pode ter um chat para os clientes VIP, claro que sim pode até fechar o negócio mais rápido, mas depois vai ter muito que explicar na hora de manter o orçamento e, sobretudo, na hora de entregar o produto no prazo.
Meu conselho: tenha sempre certeza do que você promete, e entenda o melhor possível aquilo que teu cliente espera. Deixar para descobrir só na hora H, no clique do mouse, é um risco insano: você estende a mão, eles querem o braço, não dá pé e por fim... cabeças rolam.
No digimundo, quem te alcança sempre espera alguma coisa ;).
artigo para a revista Webdesign
No aeroporto em Amsterdam, no elevador em Nova York, num táxi decrépito, em botequins vazios... Encontrar com ela é sempre mágico, inexplicável, e lá fica você de coração mole, cantarolando junto: a beleza que não é só minha.... Essa canção é cidadã do mundo.
A moça do corpo dourado do sol de Ipanema arranca suspiros até de quem não tem idéia do que seja Ipanema, Vinícius, Tom, e seu mundo se enche de graça e fica mais lindo mesmo em línguas estranhas e arranjos idem.
Graça é uma palavra interessante. Há coisas que você não quer nem de graça, outras te deixam sem graça e, sim, ela é uma graça por graça dos céus. Sempre coisa boa, graça, mas a Graça mesmo é cruel: ou se tem ou não se tem.
Beleza bisturi ajeita. Conteúdo escola dá. Mas graça, mesmo, é uma Graça, uma benção, algo que separa a bonitinha, tadinha da criatura graciosa e encantadora que virou canção e lenda.
A gente fala tanto em beleza, aspecto e nem pára pra pensar que se tem algo que enchemos a boca para dizer é gostoso: Gostosa!.
E vá você definir gostoso: é algo como a graça. Nem é questão de perfeição, é uma dádiva.
Quer ver algo gostoso? Google. É uma delícia. Instant messenger é gostoso também. Um site como o Orkut é super gostoso. Estão aí milhões de usuários para assinar embaixo.
Como você explica algo gostoso? Ou, pior ainda: como você faz o digimundo mais gostoso?
Vou ser sincero: ainda não descobri. Eu persigo essa quimera faz anos, e o mais perto que cheguei foram vislumbres de como fazer coisas não-gostosas.
Procuremos, então, o caminho da Graça no beco dos erros e desvios.
Contemple o abismo: de um lado você tem o usuário, que vai ou não achar gostoso o, digamos, website.
Do outro lado você tem uma turba de designers, desenvolvedores, marketeiros, gerentes de todo tipo, alguns deles clueless, outros com mais certeza do que deveriam. Acredite em mim: são esses hiper-convictos que fazem o abismo crescer.
O problema de quem acha que enxerga claramente a soluçãoé que nem sempre what HE sees is what YOU get. Da inspiração genial até chegar a algo concreto é uma corrida de obstáculos, onde a tal da idéia pode tropeçar tanto que vai chegar aos cacos lá na ponta. Se chegar.
Por que é tão acidentado o caminho da Idéia? Eu arrisco dois palpites: idéia que nasce tão distante darealidade, lá nos píncaros da imaginação iluminada, talvez só funcione bem no ar rarefeito do Olimpo. Aqui no mundo dos mortais ela vai ser tão desengonçada quanto o albatroz do Baudelaire.
Segundo palpite, e o real motivo deste artigo todo: idéias têm pernas curtas. Você tem que levá-la pela mão, carregá-la no colo, ensiná-la a olhar onde pisa, a usar passarelas. Se você deixar uma idéia ir solta, ela se perde.
Se você não cuida do destino da sua idéia, surge o inferno de qualquer projeto interativo: a expectativa de que os outros... adivinhem.
O fornecedor tem que adivinhar o que o cliente quer, o designer tem que adivinhar como funciona o cliente do cliente, o desenvolvedor tem que adivinhar o que aquele photoshop lindo realmente tem que fazer e quem for consertar, pobre diabo, pior ainda: vai ter que fazer engenharia reversa ao cubo. Pior que o mapa do inferno é um inferno sem mapas. Voilí .
Resultado: um site que que ninguém consegue adivinhar como funciona, se é que funciona. Você já passou por isso, e sabe que não tem graça.
As garotas em Ipanema talvez sejam graciosas por serem brasileiras, mas a nossa ginga nacional não ajuda muito quando o assunto é projeto: adoramos ter idéias, mas não achamos graça na lição de casa, temos birra do trabalho metódico, da documentação, de especificações, de tudo que garanta que a idéia não perca o rebolado na areia movediça que é qualquer desenvolvimento.
Isso é chato.
Isso não tem graça.
Processo é pra quem não sabe improvisar, pra quem não tem jogo de cintura.
Não tem por quê stressar, no final tudo dá certo.
A cada vez que ouço no final dá certo, minha resposta sempre é: defina final. Você se livrar de uma etapa não é final nenhum, é na verdade o começo da etapa seguinte, e coitado do infeliz para quem você passou uma bola quadrada: vai ter que adivinhar, tapar buracos, prender com fita crepe e dar forward do mico. No final das contas, o resultado é beeeem diferente da idéia, com qualidades de menos e defeitos a mais.
Se a gente pusesse na balança esse jeito gostoso de trabalhar versus a ressaca inevitável, o stress, o desperdício gerado, o resultado mambembe... mas não fazemos isso nunca, porque achamos que tudo sai de graça, que faz parte, e que no final risadas gostosas resolvem tudo.
Resultado: estamos sempre reinventando a roda, estamos sempre começando do zero, não deixamos nunca um legado, uma herança, algo que nossos sucessores possam tomar como base e avançar. Eles têm que se virar.
Nosso usuário acha gostoso ter uma experiência tranqí¼ila, fluida, encantadora, assim como o rebolar despreocupado da garota de Ipanema. Projetos mal gerados e mal geridos podem até se sacudir, mas como diria minha avó: por fora bela viola, por dentro pão bolorento.
"É uma porta."
Tomara que ele não ouça isso, tomara que seja surdo como uma porta. Eu, no seu lugar, ficaria ofendidíssimo. Afinal, quem gosta de se sentir burro?
Ele ouviu. Era um professor peculiaríssimo, um ponto fora da curva sob qualquer aspecto: esquisito, mal proporcionado, hostil... mas parecia feliz consigo mesmo. Nunca se abalou com as piadas e apelidos e a rapaziada imitando.
Imperturbável, o senhor bizarro, até que um dia...
Numa prova, um aluno irritado deixou escapar algo como o cara é uma porta. Para espanto geral, o professor subiu nas tamancas, perdeu as estribeiras. Bradava, transtornado: podem me chamar de palhaço, do que for, mas de incompetente, JAMAIS!. Saia justa.
Agora fica a questão: por que uma porta é burra? Um burro parece burro, uma anta idem, mas uma porta... Eu convivo com portas de todo tipo, algumas educadíssimas que se abrem mal eu apareço, outras discretíssimas que se fecham com polidez, mas portas burras, não me ocorre nenhuma. Teimosas, talvez? Feiinhas? Mas de burras, não me lembro.
Algumas portas lindas, nobres e elegantes te fazem sentir burro, isso sim, e isso é imperdoável.
Portas anti-pânico, aquelas de saída de cinema, devem ser ótimas se você estiver em pânico, com uma turba descontrolada te prensando contra a dita cuja. Mas se você estiver calminho, querendo comprar pipocas, a porta é um porre. Cadê a maçaneta? Puxo ou empurro? Sorte que está escuro, porque ao menos ninguém testemunha você sendo burro... como uma porta.
Falar em portas é uma boa maneira de abrir as portas para uma questão fundamental em qualquer projeto interativo: o cenário de uso.
Ilustremos: o cliente te pede põe uma porta aí. Que tipo de porta?, você pergunta. O cliente, que tem mais o que fazer, diz delicadamente uma porta, sua porta!. Pronto, abram-se as Portas da Desesperança. Vai começar uma novela de desentendimentos.
Você escolhe uma porta esplêndida, de titânio, com maçanetas italianas, e com um originalíssimo funcionamento articulado. Desastre total: ali é a saída de um aeroporto, e nesse cenário de uso:
Metáforas à parte, um dos aspectos mais importantes no mundo interativo é o cenário de uso. Usuários usam, usuários querem usar tua interface para alguma coisa, não só para ficar olhando. Como ele quer usá-la? Qual o contexto?
Pensemos num exemplo concreto: uma loja online. Enquanto ele está passeando pela loja, conferindo produtos e ofertas, sua atitude é uma. A hora em que ele opta por colocar um produto no carrinho, a atitude é outra.
Na primeira os atributos do produto, as ofertas são o foco, e o usuário vai se sentir mais à vontade se puder fuçar por conta própria, sem compromisso, sem consequência.
Na hora do carrinho as coisas mudam. Agora qualquer besteira que ele fizer pode ter consequências, agora é tudo mais sério, e embora seja um cenário muito mais racional, pode ser um excelente momento para segurar na mão do usuário e transmitir-lhe segurança e apoio. É uma hora de decisão, de ação, e ele pode não estar familiarizado com o processo. Ele pode ter medo de errar.
No primeiro cenário o que conta é a sedução, a liberdade, o descompromisso. No segundo cenário a confiança, a privacidade e a facilidade são as tônicas. Quando você desenhar as interfaces, a comunicação, o processo todo, você deve levar em conta essa diferença de ambientes. Na cabeça do usuário, ele abriu uma porta e passou para um outro espaço, um espaço com outras regras. Se você for designer ou arquiteto de informação, não tenha pudores em mudar a cara da interface.
Numa mudança de cenário desse tipo, o usuário não vai ficar desorientado se alguns elementos sumirem, pelo contrário: vai ter certeza de que abriu a porta certa e passou para outra sala.
Comprei um guarda-chuva de um camelô outro dia. Cinco reau. Valeu cada centavo: eu precisava andar três quarteirões na Paulista debaixo de um pé d’água, e o tal guarda-chuva plin-plan-plum, se abriu automaticamente. Cheguei onde queria, e o fechei sem maiores dramas. Claro que eu o esqueci nem sei onde, mas não fiquei triste. Ele cumpriu sua missão, e se eu precisar de novo, sei que vai ser fácil achar.
Mas porém contudo todavia se o cenário fosse outro, se fosse um evento no Jockey, se fosse um presente de dia dos pais, se eu fosse aparecer na Caras, meu guarda-chuva chingling... não passaria da porta.
Mas se eu estou na chuva, é para não me molhar.
(...) estamos sempre tropeçando da mesma maneira, vamos sempre ter os mesmos problemas. E, se tudo no mundo tem uma causa, problemas repetidos só podem ser... efeito de causas crônicas.
E como algo que causa problemas pode ser crônico? Simples: porque não se fala dela. Não pega bem. Não é "legal". Nesse assunto ninguém toca. (...)
Eu estava prestes a começar este artigo dizendo "você que gosta de idiomas...", mas me toquei a tempo que pouca gente tem apreço por línguas. Deletei tudo, e recomecei com "você que lida muito com estrangeiros...". Deleta deleta deleta. De volta ao cursor piscando no início de uma página branca.
É raro eu travar. Normalmente eu saio escrevendo/palestrando/gravando sem o menor embaraço, e as idéias vão se concatenando naturalmente, haja vista/ouvido o improviso do podcast Roda e Avisa (http://www.usina.com/rodaeavisa ) .
Um tema, porém, quebra essa regra. Se eu não esvaziasse a lixeirinha do meu desktop ela pareceria hoje um cesto de papéis de escritor empacado, coberta por folhas amassadas atiradas com fúria.
Que tema é esse? Simples: o que não se diz. Ponto. Complicadíssimo, o tema.
Falemos de fotografia, então, pra facilitar. Todo mundo tem câmera, e todo mundo gosta de uma boa foto, não? Pois bem, comecemos por aí.
Câmeras retratam a realidade, certo? Câmeras não mentem.
Olhemos então aquele teu álbum de viagem. Monumentos, belas paisagens, momentos dignos de uma foto, pessoas posando. Álbum é sempre assim. Agora reveja as fotos e me diga: o que não aparece?
Enquanto você digere a pergunta, eu dou uma pista: câmeras têm lentes, e com lentes você enquadra. Quando você enquadra algo, seleciona o que vai aparecer... e o que não vai aparecer. A menos que você ande fazendo fotos em 360 pelo mundo... o que aparece é uma fração bem pequenina comparado com o mundão que não aparece.
Você fotografou o mendigo? O prédio feio? As pessoas infelizes? O céu chuvoso? A sua mala bagunçada? Provavelmente não. Isso não é coisa que se mostra normalmente, e a gente nem registra na memória.
(Paulistanos como eu são PHD nisso: conseguem não-ver o caos e enxergar só o que é bacana na cidade, vide http://www.flickr.com/photos/renedepaula)
Deve fazer parte da nossa natureza "maquiar" a realidade e deixar de lado coisas que "não ornam". Isso é sinal de urbanidade e educação, inclusive, e cada cultura ou língua (lá venho eu com idiomas e gringos de novo) lidam de maneiras diferentes com isso. Em alguns países é inadmissível se falar da vida íntima, em outros ninguém tem pudor em dizer que teu cabelo está horrível.
Varia muito, mas uma coisa é certa: algumas coisas nunca são ditas. Outra coisa é certa: isso tem um preço, um preço que pagamos a prazo porque não enfrentamos as coisas à vista.
Nosso ofício interativo não escapa dessa sina, e a prova é: estamos sempre tropeçando da mesma maneira, vamos sempre ter os mesmos problemas. E, se tudo no mundo tem uma causa, problemas repetidos só podem ser... efeito de causas crônicas.
E como algo que causa problemas pode ser crônico? Simples: porque não se fala dela. Não pega bem. Não é "legal". Nesse assunto ninguém toca.
Tem gente que (sobre)vive disso: você já deve ter visto um "intocável", uma daquelas figuras que orbitam em torno desse área fortificada. Sempre tem: por vezes os criativos são intocáveis, por vezes os engenheiros, por vezes os "chegados" do chefe.
Nem tudo que é intocável, porém, tem que ser eterno. Muitas vezes os nossos monstros sagrados são tigres de papel, basta um assoprão e eles somem da nossa vida. E é pensando nisso, nesse exorcismo dos nossos fantasmas crônicos é que eu sugiro um remédio importado: o post-mortem.
Post-mortem é um apelido dado a uma avaliação do que foi bom ou ruim durante um projeto. Acabou o projeto? Post-mortem nele.
Quer tentar fazer? Acabo de fazer um bem simples: cada um dos envolvidos listou ao menos três coisas que foram ótimas, três que foram boas e três que foram ruins. Um coordenador vai juntar tudo isso, consolidar e compartilhar com todos. De um post-mortem simples assim pode nascer um plano para que os erros não mais se repitam e também para que inovações positivas sejam incorporadas ao processo.
Simples. Transparente. Mas levemente arriscado, também: um brasileiro pode se magoar porque o estrangeiro não teve papas na língua, ou um outro latino pode ter sido mais passional do que devia, ou... Ok, lá venho eu de novo com línguas e culturas :) Que mania.
Aponte minhas manias por favor, não tem problema. Aponte-as ou... vou repetir a dose nas próximas edições :)
Eu percebo que estou ficando jurássico quando vejo que meus palavrões mais caros, justo aqueles que viraram advérbios (para ****, do **) ou viraram minhas “vírgulas” (****), hoje caem mal como um pum.
O mais interessante dos palavrões é que muitos deles homenageiam o que todo mundo tem, ou o que todo mundo faz. Por que *** será que são “feios”?
Estamos em pleno verão, carnaval, e vou me despir dos meus pudores rotineiros. Tape os seus ouvidos e olhos, porque vou soltar um palavrão aqui: Política.
Repetindo de boca cheia y con mucho gusto: Po-lí-ti-ca. Eu faço, você faz, todos fazemos. Freud que me perdoe, mas ainda acho que política nos move mais que tesão. Ditadores velhotes podem precisar de viagras pra sexo, mas pra política estão sempre a postos.
Você não faz política? Siiiiim, você faz. Se você decidiu não fazer política... essa é uma política também. A maneira como você se veste é política. As gírias que você usa. As tuas comunidades no orkut. Comprar um iPod. Não comprar um iPod. Fechar os olhos, abrir os olhos, dar o braço, apertar o passo, largar a mão. Tudo é política.
Sei que não costumamos pensar assim e que esse parece ser um território da estética, da ética, da moral ou gosto. Mas se isso impacta outras pessoas agora ou no futuro, então é política. Ponto.
Pode ficar tranqüilo: não vou questionar teu corte de cabelo, nem tua vida noturna. Por uma decisão política antiga e teimosa, eu vou bater na mesma tecla de sempre: seu trabalho no digimundo.
Eu trabalhava em TV, antes. Quando você percebe que teu trabalho entra sem pedir licença na sala de uma nação, dá um frio na barriga. Você está fazendo parte da vida, das referências, das memórias de milhões de pessoas.
Ok, não estou mais em mídia de massa. Ou estou/estamos?
Eu, por postura... política, prefiro pensar que sim, com um agravante: mídia INTERATIVA para massas. Estou conferindo a milhões um poder que elas nunca tiveram. Estou dando para meus contemporâneos e descendentes mais controle sobre seu próprio destino. Estamos no mesmo barco de Gutemberg e... Pronto: falei que política dá tesão? Já me empolguei.
Voltando ao que nos une, o nosso ofício: qual tua postura política? Aqui vai um check-up:
* você faz coisas só para privilegiados ou todos podem usar?
* Você compartilha o que você aprende?
* Outros podem usar teu trabalho?
* Teu trabalho está aberto a comentários e participação ou é fechado?
* Teu trabalho tem escalabilidade? O que acontece se milhões o utilizarem?
* Teu trabalho gera riqueza social ou é parasitário?
* Teu trabalho dá crédito para quem colaborou?
* Quem paga as contas do teu trabalho?
* Teu trabalho pode servir como base para um futuro melhor?
* Teu trabalho pode evoluir e se adaptar ou vai virar relíquia?
* O fruto do teu trabalho germina e dá frutos ou “estraga” depois de um tempo?
* Teu trabalho “conversa” com todas as plataformas ou é uma ilha sem pontes?
* Dá pra encaixar teu trabalho em trabalhos maiores ou ele é “stand-alone”?
* Teu trabalho reflete a tua visão de mundo ou a dos teus usuários?
* Quem você escuta antes de criar? Gurus, inspirações ou... gente de verdade?
E por aí vai. Decisões altamente políticas em cada interface que você cria, em cada solução que você propõe, em cada gif, flash, javascript, mapa, tudo.
Claro que você pode achar isso “chato”, e querer ser parâmetro de tudo, ou querer ser genial, engraçadinho, irreverente, enfant-terrible, etc.. Para isso tem outro palavrão da década de 60: inocente útil.
Eu tenho uma bandeira: power to the people. Se quiser fazer parte, o prazer é nosso, pra ***.
Desculpe, mas desta vez não tem conversa.
Não tem acordo agora: ou você conversa... ou fim de papo. Ponto.
Ok, eu não costumo ser tão incisivo, eu sei. Mas o assunto é sério: ou você tem assunto, ou já era.
Para começar a conversa, então: qual foi a última vez que você leu algo que não tinha a ver com a tua especialidade? Se você for desenvolvedor, por exemplo, qual foi o último livro/artigo/blog de design que você leu? Se você for designer, quais sites de e-business você acompanha? E quem aí sabe me dizer o que é CRM?
Well, a sorte e que isso aqui e um artigo impresso e eu não preciso ver a cara de paisagem de ninguém, e todo mundo pode gaguejar sem medo de pagar mico. Outra vantagem de você estar me lendo ao invés de estarmos conversando é que você tem tempo de sair correndo e começar a fazer a lição de casa atrasada :)
Muita gente há de dizer: eu não tenho tempo pra isso! E é aí que mora o problema: é muita gente. O mercado tem muita gente parecida, muita gente com formação similar e, o que é pior, muita gente mais barata que você. Isso se chama comoditização do mercado: profissionais de web se tornaram commodity (corra pra Wikipédia, ainda dá tempo).
Se tem tanta gente como você aí fora (e com a história de trabalho remoto "fora" quer dizer o planeta inteiro), por que um cliente ou empresa vai escolher você? Minha dica: invista no seu papo.
Outro dia reencontrei um velho colega de ofício, não o via fazia uns cinco ou seis anos. Ele estava bem diferente, e pra melhor: tinha abandonado o look "não-olhe-pra-mim-sou-um-técnico" por um visual mais moderno, estiloso. Conversa vai, conversa vem ele me contou de uns projetos em andamento, de umas idéias, e fiquei fascinado: grandes sacadas de CRM (corra pra Wikipédia!), consumer engagement (voa!), brand experience (Google já!)...
Eu o cumprimentei pela sofisticação e abrangência das idéias, e ele me disse: não tem jeito, ou você fala a língua do cliente e vive antenado com todas as tendências, ou você caí na vala comum dos fornecedores arroz-com-feijão.
Quod eram demonstratum... (dictionary.com já!)
Tem outra boníssima razão para você expandir teus horizontes: foi-se o tempo em que empresas podiam bancar full-time um planejador, um arquiteto de informação, um gerente de projetos, um designer, um redator, um programador front-end e um desenvolvedor back-end. Foi-se o tempo.
Em qualquer lugar (e isso vale para o não-digimundo também) a palavra de ordem é enxugar, enxugar, e de tanto enxugar os que sobram têm que suar em dobro a camisa, absorvendo funções que não eram suas. Nesse cenário difícil, polivalência e versatilidade fazem toda a diferença.
Se você acha, porém, que ninguém vai trocar você por um outro mais barato, tenho uma noticia boa e uma ruim. A boa primeiro: não vão contratar seu concorrente mais baratinho. A ruim: não vão contratar você tampouco, e a vaga vai ficar em aberto por séculos esperando alguém a altura.
Digo isso por experiência própria: inúmeras vezes abri oportunidades de trabalho bacanas, mas tive muita dificuldade em encontrar gente acima da média. Quando por fim encontrei candidatos bem preparados, fiz questão de elogiá-los pelo esforço e garra e pelo investimento na sua competência.
E aí eu me pergunto: qual a dificuldade em dar um passo além da média? Se fosse há vinte anos daria pra dizer: nem todos têm acesso a livros, revistas, bibliotecas. Hoje não dá mais não: todo mundo passa o dia todo diante de uma janelinha miraculosa que vai do MIT ao Louvre passando pela revista Wired em... Um clique.
Falta de tempo? C'mon... Quanto tempo e gasto a cada semana nos orkuts da vida, ou jogando Playstation? Quantas madrugadas são passadas teclando no Messenger? Nem dá mais pra por a culpa na TV e nos couch potatoes preguicentos: hoje desperdiçamos tempo de maneira sistemática e bastante ativa, tempo que poderia ser aproveitado de uma maneira mais... proveitosa.
Se pra você tempo ainda não parece uma mercadoria escassa, pense em dinheiro: a grana que sobra depois de pagar as contas... O que você faz com ela? Torra sistematicamente na lanchonete da esquina? Duvido. Espero que não, aliás. Dez reais por dia são R$ 3650,00 em um ano, o que dá pra comprar um belo laptop. Ou 365 milk-shakes, se você preferir.
Pense agora na tua semana: não daria pra dedicar meia hora de manha à leitura de coisas novas? Ou aproveitar o trânsito para ouvir podcasts? Ou participar de listas de discussão diferentes? Eu acho que dá. Algum concorrente teu certamente concorda comigo ?
Você já deu um bom passo, alias: está lendo esta revista :)
Como diria nosso ministro Gil, se oriente, rapaz, pela constatação de que a aranha vive do que tece (corra pro Google, a canção se chama "Oriente").
E estamos conversados.
este foi meu artigo de estréia para a revista Webdesign, que também estreava nas bancas.
O carro dos ovos chegou!
Ovos? Sim, uma dúzia de ovos agora cairia bem, sobretudo se caíssem na cabeça desse chato movido a diesel, desse entrepreneur da mídia de interrupção, interrompendo minha soneca de sábado com uma gravação que já sei de cor.
Ovos? Quando eu precisar de ovos eu vou ao mercado, não preciso que a montanha de ovos venha a Maomé se anunciando no megafone como se fosse a Boa Nova. Ovos são ovos, oras.
Eu nem como ovos. Devo estar perdendo algo fabuloso, a julgar pelo entusiasmo da gravação. Deveria dar vivas pela chegada dessa benção dos céus à minha modesta rua da Bela Vista, mas não estou nem aí para ovos, ainda mais se eles estão bem aqui, no meio do meu ex-sossego.
Esse ovo-man é meu SPAM auditivo.
Comunicar é pisar em ovos, e na internet isso é pior ainda. Claro que ainda há gente vendendo internet como se fosse ovo de colombo, ou como a galinha de ovos de ouro. O próximo que te disser isso, siga meu conselho: ovo nele. Internet não é mole não, e você sabe por quê? Internet envolve gente, e tudo que envolve gente é delicado, trabalhoso, intenso. Gente é um bicho esquivo, difícil de agradar, que não cai em qualquer armadilha.
Claro, você conhece muito bem seu negócio, você sabe tudo de internet, tecnologia e webdesign, mas se não entender de gente, você está frito: quem está segurando o mouse está com o dedo no gatilho, pronto para fechar sua pop-up, detonar teu email, e sobretudo para passar ao largo do teu banner. Ele não pensa como você, e não tem nenhuma razão para te dar uma chance, quanto mais uma segunda chance.
Esqueça por um momento que você é um profissional da área, e me responda como consumidor, como pessoa física-química-biológica: você tem tempo para mais alguma coisa na sua vida? Você quer ficar íntimo de todas as marcas de xampu ou automóvel ou biscoito do país? Você vai dar conta de mais uma newsletter no seu inbox?
Vou adivinhar: não. Acertei? Tomara que sim.
Se acertei é porque estou começando a adivinhar o que passa pela cabeça dos nossos usuários, e devagarinho vou descobrindo como funciona o sistema operacional mental de quem nos compra e paga. Eu já tenho algumas pistas, na verdade seis delas, e vou compartilhá-las contigo uma a uma.
Por uma questão de, digamos, conveniência, vou começar pelo fator mais básico: conveniência.
Conveniência, para mim, é algo simples: eu quero, eu consigo. E ponto. Eu quero agora, do meu jeito, e pronto. Se não for assim, não brinco mais. Vou até a loja comprar, ou passo a mão no telefone e ligo. Ou empresto o jornal do vizinho. Não estou aqui para perder tempo. Internet é bom quando ajuda.
Simples, não? Deveria ser, mas uma parte enorme dos micos da internet vem exatamente daí, de colocar pelos em casca de ovo.
Quer exemplos? Pop-ups intrometidas. Animações em flash num site de serviços. Login e senha a troco de nada. Buscas que não trazem resultados decentes. Sites que demoram a carregar. Informações triviais escondidas. Menus bizarros. Fale-conosco que não responde nunca.
Você quer algo tão simples... e complicam tudo.
Se simplicidade é tão... óbvio, por que esses erros continuam sendo tão comuns? Fácil: porque, assim como o ovo-man, ficamos tão apaixonados, fissurados, entusiasmados com nosso próprio ovo, dedicamos tanto da nossa vida a ele que esquecemos que, para o cara que nos compra, ovos são ovos. Ele pode muito bem preferir nosso ovo, mas não vai tatuar um ovo no peito, baixar screensaver de ovo, assinar nossa eggs-letter ou raspar o cabelo pra pintar a cabeça de branco.
O que ele espera de nós é que, quando ele precisar de ovos, consiga achar os nossos, e que eles estejam tão bons quanto sempre. E que, caso ele precise falar conosco, a gente o ouça, sobretudo se for pra reclamar do ovo-man aparecendo em pleno sábado a tarde.
As tentações são muitas, eu admito. Não custa quase nada pendurar um fórum aqui, um chat ali, uma senha acolá, e de quebra uma newsletter ligada a um banco de dados de clientes e prospects . Mas o que esperamos com isso? Uma ovomania contagiosa, um surto de ovo-lovers lotando nossos cadastros? Sim, talvez esperemos algo assim, mas aí vem a grande pergunta: é isso o que nossos clientes esperam de nós? Qual é, enfim, a sua expectativa quando nos procura na internet? Uma experiência imersiva no mundo dos ovos, um portal customizável segmentado com cross-sellings personalizados ovo-to-ovo? Ou o que ele espera é simplesmente entrar, resolver seu problema e só aparecer de novo quando precisar de nós?
Fidelidade, no frigir dos ovos, é isso: quando precisarem de ovos, é a você que eles virão. Contar com mais do que isso é contar com ovos dentro da galinha.
Há algo que possamos oferecer nesse meio-tempo para fazê-lo mais feliz? Talvez haja algo relevante... mas relevância fica para o próximo artigo.
O papo dos ovos chegou.... ao fim ;)
Vocês conhecem Lagos, Nigéria? Eu conhecia de ouvido: ouvi a respeito num podcast semanas atrás. Ontem conheci um pouco mais lendo um artigo na revista Piauí, e descobri então que não quero conhecer Lagos tão cedo. Ao menos... não a pé :)
Eu explico: o podcast bacana falava sobre urbanismo e sobre o quanto o mundo estava se favelizando. As maiores cidades do mundo (Lagos, por exemplo), hoje, não são mais cidades, são outra coisa, são mega-favelas fervilhantes. O urbanista falava disso com um certo fascínio, dizia que estavam surgindo ali novos paradigmas, novas formas de convívio humano, de empreendedorismo informal e de poder político. Ou seja, o cara não estava horrorizado, estava encantado.
Como o urbanista falava com paixão eu me empolguei também, embora "cum grano salis", com uma pitada saudável de desconfiança. Quando li ontem o artigo na Piauí, a pitada de sal ganhou outros sabores: a descrição da miséria era tão vívida, tão pungente que a fumaça das serrarias, o cheiro de óleo diesel, o lixo e o fedor quase saltavam do texto.
Eu fiquei desconcertado. Quem tinha razão, afinal? O urbanista idealista ou o jornalista pé-no-chão? Well, é tudo uma questão de ponto de vista... literalmente :)
No artigo estava a pista: muitos especialistas e urbanistas vão conhecer Lagos, mas ficam tão apavorados que passam direto dos carros blindados para helicópteros e, de lá de cima, o favelão parece fascinante mesmo, fervilhando de atividade humana, improviso e vontade de sobreviver e vencer.
Vista de longe, qualquer coisa é inspiradora. De perto, porém, é outra história. Rio, São Paulo, vocês sabem como é.
Ok, ok, mas por que estou eu aqui falando de românticos e realistas? Porque na nossa área não é diferente: o que não falta são gurus sobrevoando o digimundo de helicóptero e dizendo maravilhas. Sai um novo gadget? Lindo! Maravilhoso! Web 2.0? Sensacional! Milagroso! Conteúdo gerado pelo usuário? E-commerce? Comunidades? Lindo, lindo, lindo!
Ok, eu também acho lindo e batalho diariamente por tudo isso. Mas como meu lugar é no front sempre, sei que nem tudo são flores e que para a mágica acontecer é preciso de um monte de ingredientes raros.
É por isso que estou sempre aqui, nesta revista e nos meus podcasts na internet batendo na mesma tecla: tecnologia por si só não garante nada. Nosso trabalho não são bits e bytes, nosso trabalho é tornar a vida das pessoas mais plena, mais rica, mais fecunda. Nossa grande questão é COMO ser relevante, COMO ser útil, COMO conquistar a confiança e COMO trazer à tona o melhor de cada um de nós.
Nós não estamos desenhando interfaces, apenas. Nem estamos programando aplicativos. Estamos abrindo novos horizontes para a experiência humana.
E como tornar a vida humana mais digna através do nosso trabalho diário? Eu respondo: fazendo as perguntas corretas. E o melhor começo, como já disse em outras ocasiàµes, é perguntar... COMO.
Ao invés de perguntar:
- Que funcionalidades, conteúdos e serviços eu devo entuchar nesse site?
Pergunte:
- Como o usuário resolve seus problemas?
- Como podemos ajudar o usuário a resolver seus problemas?
- Como mostrar para o usuário que podemos ajudá-lo?
- Como facilitar a adoção do que estamos oferecendo?
- Como podemos ajudar o usuário a se sentir mais autà´nomo, mais seguro, mais pleno?
- Como vamos saber se o usuário está ou não satisfeito?
- Como podemos transformar o usuário em um advogado da nossa marca?
E por aí vai.
Querem ver um bom exemplo? Gracenote. Quando você coloca um CD e o iTunes reconhece o álbum, faixas e letra é porque ele consultou o serviço da Gracenote, que tem um banco de dados de dezenas de milhàµes de músicas, e apresentou para você a informação necessária. A Gracenote é quase invisível, discretíssima, mas é fantástica.
Ouvi uma entrevista com eles num podcast. Os planos são bárbaros: no futuro você vai ter dezenas de milhares de músicas no aparelho do teu carro, mas para escolher o que ouvir (sem atropelar ninguém) vai bastar dizer "quero ouvir Rolling Stones". Essa instrução vai gerar uma busca na Gracenote que vai gerar uma playlist para você. Ou você dirá: quero mais músicas desse tipo aí, e a Gracenote vai gerar uma playlist bacana.
Lembrou de um trecho de uma canção? Diga o refrão e a Gracenote te dirá que música é. Está tocando uma canção no rádio e você gostou? Coloque o seu celular próximo do alto-falante, aperte um botão e a Gracenote vai reconhecer que música é e te dar a ficha completa.
A Gracenote é um site? Não necessariamente. Um software? Mais do que isso. Mas uma coisa a Gracenote faz: ela torna nossa relação com a música muito mais rica, mais fecunda, mais humana.
Eles fizeram as perguntas certas. E a resposta só pode ser um mundo melhor.
“Você não toma notas, René?”
Eu já esperava essa pergunta. Esperava faz uns 30 anos. Trinta anos sem usar cadernos direito, trinta anos admirando quem conseguia anotar direitinho aulas, reuniões, pensamentos. Trinta anos.
“Ahn… veja bem”.
Tive que contar a história toda. Resumi, claro. Comecei pelo fim, aliás, e contei que hoje tento anotar reuniões no OneNote do meu celular. Nem sempre, confessei. Conference calls chatos, por outro lado, eu anoto prolixamente no Journal, nem tanto para registrar tintim por tintim mas para… me manter acordado.
Eu poderia usar o Word. Ou o genial OneNote do laptop. Ou o notepad. Ou um dos inúmeros caderninhos que ganho de brinde toda hora. Ou… algo na web. Ou num gadgetzinho da Sidebar que imita post-it. Ou… no MindManager que eu adoro. Ou… gravar no meu pocketpc. Ou…
Em suma: não é por falta de opção. Talvez seja (e estou tentando achar um jeito de não me sentir culpado) culpa do excesso de opções. Bons tempos em que eu tinha um software singelinho só pra tudo isso, o bom e velho DayNotes no meu PDA.
O DayNotes servia pra isso, anotar. Era levezinho, simples e sincronizava com o PC. Usei muito. Foi um breve período de notas arrumadinhas. Passou.
Fiquei aqui matutando porque parei, parei por quê (e já quase parei de pensar porque pensei na musiquinha) e me ocorreu algo básico: ou uma solução me veste como uma luva, ou eu não uso. Features demais? Não me serve. Não se integra com nada? Não me serve. É esquisito? Não me serve. E como eu já tenho birra com anotar, aí é que eu não adoto mesmo.
Sou só eu? Duvido. Hoje fiquei sabendo que, em média, algo como uns 20% dos clientes de um banco usam web banking. E os outros 80%, por que não usam?
A pergunta não é só curiosidade acadêmica. Se te pedissem para redesenhar uma interface de web banking, você pensaria nos 20% que já usam ou... pensaria em como cativar uma parte dos 80% refratários?
Well, suponhamos que você, como eu, prefira territórios inexplorados e fora do mapa a bater na mesma tecla que todo mundo. Se for esse o caso, eu tenho uma boa notícia: você vai aprender muito.
Vamos fazer um exercício aqui: para quem ainda não navega na internet, como é a experiência com telas? Temos a televisão, temos games, temos caixas automáticos, temos as telinhas dos celulares moderninhos também. Todas elas visualmente ricas, atraentes, rápidas de se entender.
Pense agora em como ela se sente quando se depara com uma página web, sobretudo com uma página de banco. Deve ser um choque, imagino. Textinhos, botõezinhos, formulários, menus, toda aquela fauna e flora que para nós são familiares mas para o leigo são beeeem estranhas. Mesmo com toda a riqueza de opções e recursos e possibilidades, aposto que a impressão deve ser “credo, que coisa pobrinha e antipática”. E, a menos que seja obrigado a usar, não vai adotar espontaneamente não.
Adotar é uma palavra-chave. Por mais hi-tech e impressionante que seja uma solução técnica, quem garante que vão adotá-la? E por que será que algumas coisas feias e instáveis e nem tão inovadoras (adivinhe o que estou pensando) são adotadas festivamente por milhões de pessoas leigas?
Eu não tenho a resposta, mas tenho um bom teste: conte