Todo Santo Dia

Um velho amigo dizia: antes das onze o mundo não tem consistência. Figura divertidí­ssima, ele, e saudosa também. Faz tempo que não o vejo, talvez por conta de ser, ao contrário dele, tão diurno, de levantar tão cedo, de não ser um habitué da noite paulistana. Nem de noite nenhuma, aliás: passou da meia-noite, eu passo um vale :) Quando o dia nasce bonito como hoje fica mais fácil: você vai até a janela você o céu colorido sobre uma cidade ainda opaca, cinzenta, a brisa ainda fresca e sorri. Eu sorrio, ao menos. Lá embaixo vi um pedestre e me perguntei: o que será que ele está fazendo? Para estar ali tão cedo o cidadão deve ter acordado de madrugada, tomado não sei quantas conduções, e devia ter ainda um bom chão para percorrer até o trabalho. O que será que o move a repetir esse périplo todo santo dia? Essa reflexão profunda durou uns 18,3 segundos e fui cuidar da vida. Dirigindo para o trabalho, ouço uma entrevista sobre... o sentido da vida. O cara era um acadêmico que tinha lançado um livro associando Sartre... a Charlie Brown, o Peanuts do Schulz. Uau... existencialismo e quadrinhos: ouvi com atenção. E lembrei de novo do pedestre matutino, do cara que acordava ainda mais cedo do que eu. Num exemplo divertido o autor cita uma historinha onde a menina está toda feliz pulando corda e, sem mais nem menos, pára e começa a chorar. Peanuts pergunta: o que houve? Ela responde: de repente tudo parece tão fútil. (Depois dessa lembrei por quê eu nunca gostei de Peanuts... coisa mais pesada, bá). Sacudi esse fardo kierkegaardiano dos ombros mas ficou uma sementinha na cabeça: o que raios eu estou fazendo da vida? Pensei várias coisas que não cabem aqui, mas uma delas se referia ao nosso ofí­cio, e então compartilho com vocês. O que estou produzindo, gerando, fazendo através do meu trabalho? Nos primórdios a resposta era mais fácil: o trabalho era basicamente empurrar pra alguém do outro lado alguma coisa que o browser enxergasse. Publicar pro mundo inteiro ver já era um belo tento. Alguns até ganhavam prêmios por isso. Váááários cabelos brancos depois o que eu faço mudou tanto... O desafio agora é criar ambientes onde pessoas criem seus próprios mundos, construam suas próprias relações, compartilhem o que fazem com quem bem entenderem. O usuário, antes um nômade anônimo caçador-coletor, agora tem nome e sobrenome e colhe feliz aquilo que planta na internet. (OK, eu adoro metáforas) E o que metáforas e filosofices têm a ver com o teu, o nosso trabalho? Isso tem muito a ver com o trabalho de muita gente, aliás, como descobri outro dia num evento ligado à Educação: uma professora apresentou um belí­ssimo caso onde ela estimulava crianças a produzirem conhecimento sobre sua comunidade, e depois apresentá-lo, discuti-lo e compartilhá-lo. Lindo, isso: a idéia não era só ensinar a buscar e consumir informação, mas sim a gerar conhecimento, a colaborar, e construir coletivamente informação relevante para o seu universo. (Detalhe: esse projeto não era online, nem era no eixo Rio - São Paulo, nem era em escolas privilegiadas. Privilegiadas eram as crianças por terem uma educadora com uma visão tão... visionária.) Pensar dessa maneira nos abre duas questões: até que ponto eu, como profissional, gero conhecimento útil e o compartilho de maneira fecunda e, sobretudo, até que ponto o que eu crio cria condições para que as pessoas criem seus próprios mundos? (OK, eu tendo ao barroco. Melhor eu trocar em miúdos.) O que eu faço: - compartilho ao máximo o que descubro e aprendo: publico nos meus blogs, publico na usina, envio para grupos de discussão - colaboro ao máximo com quem precisa - utilizo ferramentas online que permitem armazenar e compartilhar minhas buscas e favoritos - publico meu trabalho autoral em ambientes online que permitam colaboração e criação de comunidades - estimulo ao máximo a colaboração, a documentação e a multi-disciplinaridade no ambiente de trabalho. - faço o que posso em favor da transparência e generosidade O que me leva a fazer isso tudo? Difí­cil dizer. Talvez o brilho que me vem aos olhos quando vejo não um, mas milhares, milhões de cidadãos que eu não conheço transitando, trabalhando e crescendo nessa paisagem que construí­mos todo santo dia.

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2 Comments

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Bem... acabei de me registrar aqui porque é impossí­vel ler o que você escreve e não comentar nada, não dizer nada... embora qualquer coisa que eu diga depois de ler esse post seja sem importância.

Gosto dessa idéia de "mão dupla". Uma Internet onde o sujeito que "navega" também participa e colabora e cresce.

Sou adepta do software livre e de todas as formas de compartilhar - na Internet e no dia-a-dia.

No Rio, nos anos 80, um sujeito escrevia nos pilares dos viadutos: "Gentileza gera Gentileza". Que máximo, né? Andei lendo umas coisas sobre a gentileza de compartilhar... Quero ler mais, aprender mais, trocar mais.

Gostei muito da "nova" USINA. Muito mesmo. Obrigada pelos textos, pelas imagens, por toda a usina.

:)

Beijos

bela gentileza

obrigadissimo pelo carinho :)

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