O que você acha?

Onde: um belo restaurante. Quando: um belo domingo. Fato: me acharam. O celular tocou. Que hora, pensei. Conferi o identificador de chamadas: um número qualquer. Pedi licença à minha companhia, me afastei e atendi. "René?" "Sim, quem fala?" "Você faz trabalho?" Fazer trabalho? A primeira idéia que me ocorreu foi macumba. Well, não era isso. Era trabalho de faculdade, ou melhor, uma versão on-demand e outsourced de trabalho de faculdade, onde um grupo neo-picareta de estudantes apela para um equivalente estudantil da bruna surfistinha e paga por um trabalho de escola encomendado. Claaaaaaaro, o grupo "briefa" antes. Tudo muito profissional. Fiquei fascinado, e triplamente: - isso existe? - de onde saiu essa balela que eu "faço trabalho"? - onde acharam meu celular? "Onde eu achei o senhor? Ah, numa página da internet, não me lembro" É isso: o grupo entrou num mecanismo de busca, buscou não sei o quê, e me achou nem sabe onde. Despachei a moça e voltei pro meu almoço, tentando esquecer essa intromissão desagradável. Deu vontade de procurar um pai-de-santo para checar se estou com encosto na internet. Terminei meu almoço, tomei um café, mas não engoli essa história. Tinha muita coisa ruim misturada ali. A primeira delas é, pra mim, uma vergonha: alunos "colando" sem nenhuma desculpa decente e, o que é pior, sem vergonha na cara. Com profissionalismo, até. Fazer um bom trabalho antes era uma gincana: tinha que pesquisar em bibliotecas, arquivos, entrevistar pessoas, correr a cidade em busca de fontes de informação. Hoje você tem um mundo sem fim de informação na telinha do seu PC, e mesmo assim tem gente que prefere pagar pra quem faça. A segunda coisa é: tem gente usando internet para emburrecer. Tem gente usando a web como buffet de festinha de criança: pega os doces coloridos e volta correndo a brincar. Listas de discussão? Ler notí­cias e blogs? Compartilhar seu conhecimento? Nem pensar (literalmente). Semanas depois, essas duas aberrações nem me chocam tanto. Se o cara quiser ser tolo, que seja. Mas outro aspecto me perturba até agora: quando alguém faz uma busca por mim, aquela seqí¼ência de links é um retrato fiel de quem eu sou? Aquela página de respostas tem o direito de "falar por mim"? Eu digo: não. E provo: dias atrás recebo um email formalí­ssimo, pedindo desculpas pela intromissão e perguntando por dicas sobre... a vida no Canadá. Detalhe: eu nunca fui ao Canadá. Pior: não me lembro de jamais ter mencionado o Canadá em nenhum "trabalho" (ops) meu. De onde o rapaz tirou isso? Outro email: um grupo de estudantes (outro!) me perguntando que tema deveriam escolher para seu trabalho acadêmico. Eu nem acadêmico sou... fiz Rádio e TV na ECA e olha lá! Depois de muito repensar essa história (sim, meu cérebro tem dois estômagos e rumina), notei que sim, havia esperança, sim, havia uma luz: em todos esses casos, as pessoas não estavam buscando apenas páginas, estavam buscando... pessoas. E por que elas estavam procurando pessoas? Zilhões e zilhões de sites e páginas não bastam? A resposta parece ser... não. Por mais que se publique conteúdo sem parar, existe algo que não está no papel nem na tela, existe algo que a busca não acha: o que cada um de nós acha. Nosso jeito único de pensar e responder, nossa experiência pessoal, nossa maneira de ver o mundo. (Um break para a auto-propaganda: O Yahoo! lançou meses atrás uma busca assim, onde um pergunta, e quem souber responde: é o Yahoo! Answers (http://answers.yahoo.com). Pergunte o que quiser: como fazer um suflê, como entender seu namorado, por que gatos brancos bebem na torneira... sempre vai ter um monte de gente respondendo, e quem escolhe a melhor resposta é você. Uma delí­cia, o Answers, e aposto que aqui no Brasil ser um sucesso.) Eu adoraria perguntar aqui aos estudantes malandros qual vai ser o papel deles num mundo em que a opinião pessoal, o talento individual, a personalidade contam, mas não faz sentido, eles não devem ler uma revista como essa, eles não estão interessados em opiniões alheias. Acho que nunca vou encontrá-los, aliás, não no mercado profissional ao menos. Vão conseguir um rolinho de papel com um diploma mas não vão conseguir enrolar ninguém. Reza a lenda de que perguntaram ao Picasso de onde ele tirava idéias e inspiração. Ele teria respondido: "eu não procuro, eu acho". Well, ele era um gênio de uma outra época. Hoje os verbos são outros: eu produzo, tu opinas, ele comenta e nós achamos... o máximo.

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1 Comment

Rene, você é 10!!!!

Bom artigo, digo, excelente artigo!
Agora paro pra pensar enquanto comecei a me interessar pelo mundo on-line e não sabia por onde começar. Foi ai que suas opiniões em cada artigo causavam uma baita diferença em meu ponto de vista com referência ao nosso mundinho, e com isso passei a ve-lo como espelho. Isso pelo menos eu!
Mas percebi que tudo que começava a aplicar nos business não tinha o efeito que esperava, onde eu comecei a ver o que estava havendo de errado.
Hoje vejo como faz a diferença a cultura e expressão que temos de criar pontes e mostrar nós mesmos o nosso conteúdo e tribo para nossos clientes. E embora possamos ver cases, não vamos fazer disso um espelho, mas um ponto de vista para que comparemos com os nossos.
Parabens René. Continue
Eu Acho 10