Questão de Destino

Escrever de boca cheia é muito feio? Espero que não. Só não ofereço, aliás, porque não vai dar tempo: vou matar esse de ovo de páscoa em um piscar de olhos de coelho. De qualquer maneira fica a dica: marzipan e chocolate amargo nasceram um para o outro. Coisa de destino

Ovos de páscoa são, aliás, categoria-destino. Juro! Eu ouvi isso do rapaz responsável pela área de ovos de páscoa de uma grande empresa de chocolates. Ouvi e não entendi, claro, mas ao invés de fazer cara de paisagem, perguntei:

- Ahn?

O rapaz me explicou: categoria-destino são aqueles produtos que fazem com que você saia de casa e vá ao supermercado só para comprá-los. Ovo de Páscoa é assim: ou você sai esbaforido para comprar os ditos cujos na véspera do dia D e volta com o que encontrou, ou vai ter que pagar terapia pros pirralhos o resto da vida.

Balinhas? Pilhas alcalinas? Revistas de celebridades? Típica compra por impulso, daquelas que você só leva porque (e isso não é acaso) estavam ali te sorrindo na fila do caixa.

Ok, acabei o restinho do chocolate. O mundo parece mais doce, não sei por quê.

Mas falemos um pouco mais de Destino. Por voltas e reviravoltas do Destino, estou há uns bons sete meses sem banda larga em casa. Aliás, defina casa. O que me salva é o laptop do trabalho , o acesso discado gratuito e hot-spots por aí.

Melhor dizendo: salvava, já que, por ironia do Destino, tive que devolver o notebook faz um mês e tanto. O náufrago digital aqui teve que navegar remando em um pocketpc e um smartphonezinho. Sem nenhuma vocação para santo, eis-me um legítimo faquir 2.0.

Ok, ok, não se preocupem, sobrevivi. Meu laptop novo chegou, e logo-logo encontro alguma solução de conectividade decente. Passei na prova de apnéia e abstinência.

Passei na prova, mas não passei incólume. Não dá para passar fome digital assim em brancas nuvens, alguma coisa a gente aprende. E eu quero compartilhar com vocês o que aprendi, sem que vocês tenham que comer o megabyte que o dial-up amassou.

O primeiro aprendizado é: sem querer nós nos tornamos sedentários digitais. Ficamos sentados com a boca escancarada cheia de dentes esperando a... Ops, isso é Raul Seixas! O chocolate está dando barato, minha nossa.

Voltando à questão do sedentarismo: muito do que achamos genial na web parece genial porque estamos inertes diante de uma máquina hiperdimensionada conectada sem limites. Algo como os humanos no filme Matrix, sonhando acordados e alimentados por tubos. (Chocolate alucinógeno, esse!).

Nesse estado de paxá catatônico a gente acaba esquecendo que, para pessoas normais, internet é algo onde se entra e depois se sai, internet é o lugar das categorias-destino. Entra-se para ler emails, entra-se para checar o scrapbook, entra-se para pagar uma conta... e depois tchau. As pessoas têm mais o que fazer.

Nessas minhas semanas espartanas/franciscanas/masoquistas, do que eu senti falta? Quais foram as minhas categorias-destino? Eu digo: checar meu webmail (celular resolve), acompanhar a comunidade que eu administro (PDA em hotspot resolve), ler meus feeds de notícias (dá-lhe PDA e hotspots) e eventualmente honrar meus compromissos bancários (se bem que bankphone resolve muita coisa).

Youtube? Joost? Instant messenger? Blogar? Fazer podcasts e videocasts? Deu pra viver (quase) sem. Na boa.

Second Life? Come on, get a life.

E já que a life é bastante short e na internet a gente só entra quando quer e precisa, que tal fazermos um exercício sem se mexer da cadeira? O exercício é simples: ponha-se no lugar do usuário. O que ele quer? Por que ele ligou um trambolho lerdo, entrou numa conexão sofrível e cara e se deu ao trabalho de entrar no teu site? O que ele quer?

Descobriu? Lindo, agora desenhe todo o site em torno disso, daquilo que o usuário precisa. O resto é cama de pregos, palavra de quem já foi faquir.

Eu sei o que eu quero, e acho que é esse meu Destino: tornar a vida alheia mais doce. E digo isso de boca cheia.

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