Boca, Pé, Mão, Bola

Boca, Pé, Mão, Bola

Tempos atrás, um amigo me indicou um podcast genial, ou melhor, rrrreniaL: o Desde El Baño (http://desdeelbano.blogspot.com).

Digo rrrreniaL porque foi a maneira mais inusitada e gostosa de me aprofundar nos nuances e peculiaridades do portenho, o espanhol falado na Argentina (adoro o sotaque portenho). Achei genial também porque... de genial não tem nada, é um ovo de colombo: a dona do blog, a Sofia, simplesmente abre o microfone e... fala. Fala e conversa sem afetação alguma sobre - por exemplo - todos os palavrões do filme Hijo de La Novia (viram? rrrrenial) ou sobre... gírias baseadas em nomes de animais, ou nomes de jogos infantis, ou... maneiras de se dizer que alguém é louco ou... as inúmeras acepções do termo fiaca. Acompanhem, é bárbaro. Deu até vontade de fazer algo parecido para a língua brasileira. Não seria uma má idéia, não?

Por exemplo... um programete sobre as diversas aplicações do pé, ou melhor, da palavra pé :)

Pé de vento. Pé-direito. Sem pé nem cabeça. Tiro no pé. Não dá pé.

Ou boca: boca-miúda, boca-a-boca, bocudo, boca-mole, água na boca, arrumar uma boquinha.

Bola: bola-da-vez, não dar bola, tratos à bola, comer bola.

E mão? Mão na roda, dar uma mão, mão-francesa, contra-mão. Poxa, já tenho assunto pra váááários podcasts ;)

Dá até pra construir um exemplo: esse podcast, que descobri por boca-a-boca, é uma mão na roda, e dá uma bela mãozinha para quem nunca pôs os pés em Buenos Aires. Esse é um exemplo não só de gírias brasileiras, mas também de... mídia social: quem me anunciou esse serviço foi um amigo, não um comercial de tv, e a Sofia não gastou nada com mídia alguma.

Mídia social nem sempre é um bom exemplo: boca-a-boca, se você erra a mão ou come bola, pode ser um tremendo tiro no pé. Mesmo que o boca-a-boca (o tal do WOM, word-of-mouth) seja a bola da vez.

Esse nosso ofício tem disso: volta-e-meia surge alguma bola da vez que cai na boca do povo. Quem está com o pé nessa história faz tempo já viu de tudo: ascensão e queda do email marketing, a glória e o ocaso do one-to-one, e agora a panacéia universal do "tudo pelo social". Alguém do Maranhão já dizia isso... mas acho que ninguém quer lembrar :D

Mídia social, virais, comunidades, conteúdo gerado pelo usuário funcionam sim, e movimentam a custo baixíssimo as engrenagens de muita coisa bacana que temos hoje no digimundo. É como se alguém tivesse inventado uma maneira de termos Ferraris zunindo pelas pistas... sem gastar gasolina. É o sonho digital/social do moto contínuo. Tudo funcionando e crescendo... por conta própria. Lindo, não?

Well, gripes também são assim: se espalham facinho, dominam e duram um montão. Tudo grátis. Mas gripe não é lindo não :)

Não é pra menos que muitas dessas estratégias sociais são chamadas de "virais". Mas nem todo viral é um santo remédio. Existe uma diferença entre "contagiante" e "contagioso". E essa diferença sutil pode matar um bom projeto no berço.

Vou dar um exemplo hipotético: pense num site social gringo que você acha legal. Pensou? Ok, então vamos fazer uma versão brazuca. Para "economizar tempo" (coff, coff, desculpe) você "se baseia" em exemplos concretos bem-sucedidos. Para não dizer que você está fazendo uma cópia descarada do trabalho alheio, pense que você está fazendo, como Duchamp, uma assemblage de ready-mades numa collage aggiornata no Zeitgeist dos mash-ups. Ou apele para outro ex-presidente nosso que escreveu "A Originalidade da Cópia" :D

Ok, tudo funcionando. Falta agora trazer gente, falta "popular" esse teu micro-cosmo. Aí você, inspirado pelo "tudo pelo social" faz um esquema member-get-member viral (soa bem, não?) onde cada inscrito pode convidar seu address book inteiro e ainda ganhar pontos por isso. Matematicamente parece lindo, mas você caiu em tentação antes mesmo de entrar no paraíso. Pecado capital. Teu paraíso não vai ter mais só anjinhos.

Explico: a graça e a graxa da mídia social é a confiança. Eu fui ouvir o podcast da Sofia porque confio no meu amigo. Mais do que isso: fiquei feliz pelo seu gesto generoso e desinteressado. Mais, até: fiquei lisonjeado por ele ter achado que algo tão bacana combinava comigo. Em suma: em termos de user experience foi redondo.

Se um mecanismo viral erra a mão e "toma liberdades" com a questão da confiança, é um tiro no pé. Uma comida de bola. Um pé no... well, você sabe. Não dá pé.

Pior do que isso: a manobra vai cair na boca do povo. As pessoas nem vão por os pés lá dentro, por mais que seja tudo genial.

A lição é clara: user experience só é redonda quando, do momento zero até o final, tudo é consistente, tudo é coerente, quando nada quebra a confiança, quando não se frustram expectativas.

Meter os pés pelas mãos e pisar na bola, afinal, é coisa de perro (que, segundo a Sofia, é um perna-de-pau). Mas não é nosso caso, por supuesto.

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