Que estória é essa?

“Você não toma notas, René?”

Eu já esperava essa pergunta. Esperava faz uns 30 anos. Trinta anos sem usar cadernos direito, trinta anos admirando quem conseguia anotar direitinho aulas, reuniões, pensamentos. Trinta anos.

“Ahn… veja bem”.

Tive que contar a história toda. Resumi, claro. Comecei pelo fim, aliás, e contei que hoje tento anotar reuniões no OneNote do meu celular. Nem sempre, confessei. Conference calls chatos, por outro lado, eu anoto prolixamente no Journal, nem tanto para registrar tintim por tintim mas para… me manter acordado.

Eu poderia usar o Word. Ou o genial OneNote do laptop. Ou o notepad. Ou um dos inúmeros caderninhos que ganho de brinde toda hora. Ou… algo na web. Ou num gadgetzinho da Sidebar que imita post-it. Ou… no MindManager que eu adoro. Ou… gravar no meu pocketpc. Ou…

Em suma: não é por falta de opção. Talvez seja (e estou tentando achar um jeito de não me sentir culpado) culpa do excesso de opções. Bons tempos em que eu tinha um software singelinho só pra tudo isso, o bom e velho DayNotes no meu PDA.

O DayNotes servia pra isso, anotar. Era levezinho, simples e sincronizava com o PC. Usei muito. Foi um breve período de notas arrumadinhas. Passou.

Fiquei aqui matutando porque parei, parei por quê (e já quase parei de pensar porque pensei na musiquinha) e me ocorreu algo básico: ou uma solução me veste como uma luva, ou eu não uso. Features demais? Não me serve. Não se integra com nada? Não me serve. É esquisito? Não me serve. E como eu já tenho birra com anotar, aí é que eu não adoto mesmo.

Sou só eu? Duvido. Hoje fiquei sabendo que, em média, algo como uns 20% dos clientes de um banco usam web banking. E os outros 80%, por que não usam?

A pergunta não é só curiosidade acadêmica. Se te pedissem para redesenhar uma interface de web banking, você pensaria nos 20% que já usam ou... pensaria em como cativar uma parte dos 80% refratários?

Well, suponhamos que você, como eu, prefira territórios inexplorados e fora do mapa a bater na mesma tecla que todo mundo. Se for esse o caso, eu tenho uma boa notícia: você vai aprender muito.

Vamos fazer um exercício aqui: para quem ainda não navega na internet, como é a experiência com telas? Temos a televisão, temos games, temos caixas automáticos, temos as telinhas dos celulares moderninhos também. Todas elas visualmente ricas, atraentes, rápidas de se entender.

Pense agora em como ela se sente quando se depara com uma página web, sobretudo com uma página de banco. Deve ser um choque, imagino. Textinhos, botõezinhos, formulários, menus, toda aquela fauna e flora que para nós são familiares mas para o leigo são beeeem estranhas. Mesmo com toda a riqueza de opções e recursos e possibilidades, aposto que a impressão deve ser “credo, que coisa pobrinha e antipática”. E, a menos que seja obrigado a usar, não vai adotar espontaneamente não.

Adotar é uma palavra-chave. Por mais hi-tech e impressionante que seja uma solução técnica, quem garante que vão adotá-la? E por que será que algumas coisas feias e instáveis e nem tão inovadoras (adivinhe o que estou pensando) são adotadas festivamente por milhões de pessoas leigas?

Eu não tenho a resposta, mas tenho um bom teste: conte a estória e veja se ela cola.

Vou dar um exemplo real: um aplicativo online personalizado e customizável onde você pode controlar o consumo e a quilometragem e a manutenção e os gastos do seu carro. Genial, não? Não. Não colou.

Pense na estória: você passa num posto de gasolina, abastece, troca óleo, etc, volta para casa, estaciona, sobe pro apartamento, liga o computador, se conecta, digita a url, se loga e, finalmente, preenche os formulários com a quilometragem, litros de gasolina, reais, etc, salva e fecha o computador. Toda semana, mês após mês.

Na boa, essa estória não cola. Ninguém em sã consciência se daria a esse trabalho. E o projeto micou mesmo. Teria sido mais útil o cara poder imprimir da web uns bloquinhos de notas pra ele deixar no carro e anotar na hora. Papel mesmo. Aposto que a adoção seria melhor.

Em suma: estórias que não fazem sentido não ficam pra história

Entrevistei outro dia Maurício Mota, cujo cargo (pasme e babe) é Chief Storytelling Officer. Ele me contou de técnicas de storytelling usadas na criação de experiências ricas de usuário. Vou publicar no meu blog logo-logo. Aproveite a dica e pesquise a respeito.

Se você pesquisar bastante,inclusive, vai ver que Aristóteles já dizia: uma estória pode ser fantástica, sobrenatural e... continuar sendo deliciosa. O risco letal é... a inconsistência: essa estória ninguém compra. Anota aí.