Como se pega um beija-flor?

OK, isso não é coisa pra se perguntar assim do nada, mas a questão quase me acerta na testa mal eu abro a porta, e voilá a dita ave em pânico se debatendo contra o teto, paredes, um furacão azulado sem freios nem juízo.

Rapidamente notei que alguém já estava se dedicando a esse problema filosófico de maneira bastante atlética, e antes que ele literalmente matasse a charada, tirei meu gato de cena. O pobre passarinho não tinha sete vidas, enfim.

Como se pega um beija-flor?, pensava eu quebrando a cabeça enquanto o pobre bicho quase quebrava a própria. De sopetão? De tocaia? Com as mãos? Com uma rede? Perto de uma criatura tão delicada eu me senti um godzilla tosco. E pensar que ele descendia de dinossauros, e não eu.

O que tem essa história a ver com nosso métier, afinal? Well, pra mim tem. Se você já teve que cativar corações e mentes e fazer com que um projeto online fluísse, sabe do que estou falando. Colaboração é avis rara, ave... do paraíso, quase.

Desenhar uma arquitetura, definir um fluxo de trabalho não é bicho de sete cabeças. Difícil é fazer sete bichos humanos não baterem cabeças ao trabalhar em conjunto.

Muitos idéias “interativas” brilhantes nunca decolam porque dependem de uma integração, de uma colaboração, de uma espontaneidade impensáveis em condições normais de temperatura (baixa) e pressão (alta). As pessoas se entocam, viram porco-espinho e os projetos atrofiam.

Gente é um bicho estranho mesmo: um mero boato faz com que cordeiros virem lobos, e o que era uma alegre colméia vira ninho de vespas. A mera suspeita de uma mudança de organograma é capaz de deixar gente sênior tão atarantada quanto meu beija-flor na cozinha. É só passar o perigo, porém... que todos somos golfinhos brincalhões de novo.

Projetos de internet não escapam dessa selva. Qualquer projeto online, qualquer mesmo, sacode estruturas. O mundo não é empresas de um lado, pessoas de outro, com a internet servindo de ponte. O mundo real é feito de feudos, tribos, tramas, times rivais e outras encrencas numa cartografia intrincada e, pior de tudo, invisível. Você só percebe que existia uma fronteira depois que pisou no campo minado.

Information highway? Eu só vejo buraqueira, semáforos quebrados e gente em fila dupla.

Mas... qual a saída? Engrenar a tração nas 4 rodas e forçar o motor? Acredite: a menos que você queira fundir motores e cérebros, não.

A primeira medida é... medir o terreno. Avalie muito bem quais são os interesses em jogo, que resultados são realmente críticos e quais os fatores que podem levar o projeto à ruína. Falta de verbas? Custo crescente? Estouro de prazo? Refaça a tua rota para não ficar no mato sem cachorro.

Segunda medida: casting. Como numa peça de teatro ou filme, um projeto online precisa de atores, gente que reme, fique no timão, gente que ice as velas. Investigue com carinho se as pessoas são aptas a tocar esse barco.

OK, a essa altura teu projeto já tem motor, airbags, piloto, navegador e o tanque cheio de combu$tível. Mas que o impede essa turma de desencanar e ir para o litoral norte ser feliz? Simples: envolvimento. Eis aí nossa ave fugidia, nosso beija-flor assustado.

Todo começo de projeto online parece sala de aula: sempre um ou dois levantam a mão ansiosos por responder, enquanto uma turma enorme faz cara de paisagem. Teu projeto também vai ter um ou dois entusiastas, mas ainda falta cativar o resto das tribos.

Aí está o segredo: as malditas tribos.

Mas por mais que a gente se feche em tribos (atendimento x criação, comercial x desenvolvimento, TI x marketing), tribos são feitas de pessoas, e pessoas são muito mais ricas e complexas e interessantes do que um mero rótulo. Veja teus amigos no orkut: você sempre se surpreende por descobrir que um conhecido teu, de outra tribo completamente distinta, também está na comunidade “eu adoro pizza amanhecida”. Quem diria... Outro colega teu de departamento, tímido e fechado, é popularíssimo numa comunidade forrada de conhecidos do outro andar. Ora vejam...

Se você criar oportunidades e propiciar o clima adequado, as pessoas saem da toca e criam novos laços, novas afinidades, e perdem a vergonha de levantar a mão e vir à lousa.

Não é fácil não, mas compensa. É um processo delicado, que requer sensibilidade, justiça e alguém que transite livremente. Mais importante ainda: alguém que saiba reconhecer, valorizar e incentivar as atitudes pró-ativas, generosas. Em pouco tempo surge algo definitivamente maior que a soma das partes: colaboração, sinergia, fecundidade.

Vale a pena. Eu juro que vale. Digo isso com uma gata rajada se espreguiçando ao meu lado, gata sem dono que inexplicavelmente confiou em mim, entrou conosco no chalé e passou boas horas no meu colo diante da lareira. Um dengo. Que diferença do meu gato maldoso que quase enfartou um beija-flor desnorteado.

Falando nele... como eu peguei o beija-flor? Nem sei. Sentei por uns bons trinta minutos ali, tranqüilo, esperando que em algum momento ele se acalmasse e aceitasse minha mão. Uma bela hora eu lhe estendi com calma um apoio, ele pousou ali e eu lentamente o levei até a janela. Lá se foi ele.

Deve haver outras maneiras, imagino. Mas isso é o que eu soube fazer: me desarmar e estender a mão.

Os dinossauros acabaram virando pássaros. Se você facilitar, pessoas também criam asas.