Palavrão com P maiúsculo

Eu percebo que estou ficando jurássico quando vejo que meus palavrões mais caros, justo aqueles que viraram advérbios (para ****, do **) ou viraram minhas “vírgulas” (****), hoje caem mal como um pum.

O mais interessante dos palavrões é que muitos deles homenageiam o que todo mundo tem, ou o que todo mundo faz. Por que *** será que são “feios”?

Estamos em pleno verão, carnaval, e vou me despir dos meus pudores rotineiros. Tape os seus ouvidos e olhos, porque vou soltar um palavrão aqui: Política.

Repetindo de boca cheia y con mucho gusto: Po-lí-ti-ca. Eu faço, você faz, todos fazemos. Freud que me perdoe, mas ainda acho que política nos move mais que tesão. Ditadores velhotes podem precisar de viagras pra sexo, mas pra política estão sempre a postos.

Você não faz política? Siiiiim, você faz. Se você decidiu não fazer política... essa é uma política também. A maneira como você se veste é política. As gírias que você usa. As tuas comunidades no orkut. Comprar um iPod. Não comprar um iPod. Fechar os olhos, abrir os olhos, dar o braço, apertar o passo, largar a mão. Tudo é política.

Sei que não costumamos pensar assim e que esse parece ser um território da estética, da ética, da moral ou gosto. Mas se isso impacta outras pessoas agora ou no futuro, então é política. Ponto.

Pode ficar tranqüilo: não vou questionar teu corte de cabelo, nem tua vida noturna. Por uma decisão política antiga e teimosa, eu vou bater na mesma tecla de sempre: seu trabalho no digimundo.

Eu trabalhava em TV, antes. Quando você percebe que teu trabalho entra sem pedir licença na sala de uma nação, dá um frio na barriga. Você está fazendo parte da vida, das referências, das memórias de milhões de pessoas.

Ok, não estou mais em mídia de massa. Ou estou/estamos?

Eu, por postura... política, prefiro pensar que sim, com um agravante: mídia INTERATIVA para massas. Estou conferindo a milhões um poder que elas nunca tiveram. Estou dando para meus contemporâneos e descendentes mais controle sobre seu próprio destino. Estamos no mesmo barco de Gutemberg e... Pronto: falei que política dá tesão? Já me empolguei.

Voltando ao que nos une, o nosso ofício: qual tua postura política? Aqui vai um check-up:

* você faz coisas só para privilegiados ou todos podem usar?
* Você compartilha o que você aprende?
* Outros podem usar teu trabalho?
* Teu trabalho está aberto a comentários e participação ou é fechado?
* Teu trabalho tem escalabilidade? O que acontece se milhões o utilizarem?
* Teu trabalho gera riqueza social ou é parasitário?
* Teu trabalho dá crédito para quem colaborou?
* Quem paga as contas do teu trabalho?
* Teu trabalho pode servir como base para um futuro melhor?
* Teu trabalho pode evoluir e se adaptar ou vai virar relíquia?
* O fruto do teu trabalho germina e dá frutos ou “estraga” depois de um tempo?
* Teu trabalho “conversa” com todas as plataformas ou é uma ilha sem pontes?
* Dá pra encaixar teu trabalho em trabalhos maiores ou ele é “stand-alone”?
* Teu trabalho reflete a tua visão de mundo ou a dos teus usuários?
* Quem você escuta antes de criar? Gurus, inspirações ou... gente de verdade?

E por aí vai. Decisões altamente políticas em cada interface que você cria, em cada solução que você propõe, em cada gif, flash, javascript, mapa, tudo.

Claro que você pode achar isso “chato”, e querer ser parâmetro de tudo, ou querer ser genial, engraçadinho, irreverente, enfant-terrible, etc.. Para isso tem outro palavrão da década de 60: inocente útil.

Eu tenho uma bandeira: power to the people. Se quiser fazer parte, o prazer é nosso, pra ***.