O gênio da página

Memórias brasileiras têm um gosto indefinível, misto de doçura e de absurdo, de picante e suculento, gostos de dar água na boca e que te trazem palavras fortes na ponta da língua, mas antes que você as enquadre as palavras te driblam o verbo e lá se foi o discurso, a história, a prosa.

Não somos um país sem memória. Memória não falta, o que falta é colocá-las na linha, em linhas, em blocos comportados longe do carnaval das entrelinhas e da folia do não-dito. Haja jogo-de-cintura para se fazer um balanço nesta terra sem perder o rebolado.

A repórter perguntou: “General, o senhor poderia fazer um balanço do seu governo?”.

Figueiredo não hesitou. Diante das câmeras e dos olhos da nação balançou pra cá, pra lá e disse: “Está bom assim?”

(Creio que foi assim mesmo, creio ainda que absurdo, creio com fé vacilante na minha memória idem).

Há balanços mais tentadores do que o de um general irreverente -Vinicius que o diga - mas a tentação de se fazer balanços numa hora como essa é quase irresistível, ainda mais quando um ano se encerra e pede um epitáfio, um rótulo, uma elegia.

Balanços têm sempre um eixo, e girando em torno do título desta revista eu proclamo: esse foi um excelente ano para o webdesign, sobretudo porque foi um péssimo ano para o webdesign ou, ao menos, para o que se costumava encarar como webdesign.

(Well, quem sou eu para falar em webdesign se nem designer eu sou... mas é que esse ano me fez perguntar: o que eu sou mesmo? O que eu deveria ter feito e pelo visto ainda não sei fazer? O que eu vou ser no ano que vem?)

Acabei esse ano deliciosamente desnorteado, abençoado por experiências que jogaram pro alto toda minha experiência, e que me forçaram a perceber que esse nosso ofício tem que se reinventar de cabo a rabo.

Reveja 2004 e veja o Google. Veja os filhotes do Google: Google Desktop, Google Adsense, Google Gmail, Google Picasa. Google via SMS, via WAP. Que webdesign é esse, que fez um logo, uma caixa de texto e um botão de submit virarem a chave para o inumerável?

Veja o Yahoo. Veja as facetas do Yahoo: messenger, chat por voz, webmail, grupos, mobile, porta-arquivos, agenda online, bookmarks online. Veja o Skype.

Veja o Orkut. Veja os blogs. Veja o SMS. Veja a integração do iPod com o iTunes e com a loja online da Apple.

Há algo maior tomando corpo, se infiltrando nas nossas vidas, redefinindo a maneira como trabalhamos, vivemos e vemos o mundo. Algo que não se restringe a interfaces instigantes, criatividade gratuita ou interatividade de araque. Algo que não espera pela benção da academia, nem pelo champagne de publicitários. Algo que não é privilégio de descolados ou de gente com cabelo esquisito. Coisas com siglas anônimas que nos tornam mais humanos, mais dignos, naturais, letras mudas que nos dão mais voz. Um mundo inteiro de integração, de transparência, de agilidade, um universo inédito que parece com tudo o que eu sempre sonhei mas com nada que eu soubesse fazer ou criar.

Reveja tudo isso que te é tão caro no digimundo e me responda: que webdesign é esse, que nos faz mais completos, mais humanos, mais criativos? Usaram Flash, applets, DHTML? Usaram a cabeça, e pensaram... com a cabeça dos usuários. Pensaram naquilo que os usuários pensam, e pensaram em como fazer coisas fáceis de usar, páginas que fossem como o gênio da lâmpada: você pede, ela faz.

Gênios de historinha concedem três desejos sempre, e se vocês me concederem essa honra, coloco aqui meus 3 desejos para o nosso ofício:

* Desejo que aprendamos a satisfazer desejos reais, e não a inventar desejos vazios
* Desejo que desejos possam ser atendidos a qualquer momento e em qualquer lugar, não só na frente de um desktop de 30 quilos.
* Desejo que milhões desejem milhões de desejos, e que não precisem de gênios para realizá-los

Nós, brasileiros, já demos os primeiros passos.Veja o case mundial de e-governo que é o Brasil. Veja os telecentros da prefeitura de SP.

Estamos num momento mágico, e que pede novos gênios que não cruzem os braços como a Jeannie e fechem os olhinhos, mas que saiam dos oásis e arregacem as mangas.

Mãos à obra.