Pensando sem meus botões

Estou preocupado. Estou mesmo. Meu sonho de liberdade está saindo pela culatra.
O que tenho agora no meu colo é um sonho: um laptop de última geração navegando sem fio enquanto tomo meu Chai Frapé num cybercafé elegante. O que tenho no bolso é um sonho: um smartphone com meus emails e agenda sincronizados capaz de navegar na web onde e quando eu bem entender.
Sonho de consumo? Não, sonho de liberdade, de acesso, de conhecimento, de expressão, de expansão das minhas fronteiras. Foi por isso que eu embarquei nesse ofício, por sonhar com uma humanidade mais livre, mais autônoma, mais criativa. É isso o que eu chamo de sonho, não os aparelhinhos em si. Meu negócio é fazer, não é ter nem ser. Fazer.
E por quê eu estou preocupado? Porque vejo que as mesmas ferramentas que nos libertam estão nos aprisionando. Aquilo que deveria ser apenas um meio está se tornando um fim em si.
Vou ilustrar: suponhamos que compartilhassem contigo uma idéia. Digamos que um amigo teu tenha bolado um projeto cultural onde ele vai redescobrir o Brasil em lombo de mula. Como você é um webdesigner experiente e apaixonado por aventuras (e com amigos esquisitos), você se propõe a fazer o site do projeto. Como você ficou realmente entusiasmado vai abrir o teu software predileto, esboçar um layout e mandar um screenshot por email. Vai ser uma boa chance, inclusive, de demonstrar teu conhecimento das tecnologias X, Y e Z em que você investiu tanto.
Como teu amigo entende mais de mulas do que de web, ele vai te dar carta branca e você vai mergulhar nos softwares e aprofundar cada vez mais o esboço original. Mão na massa, você diria. Ou mãos à obra! E... iria meter os pés pelas mãos. Ponto.
Aí é que está minha preocupação: é muito fácil pular direto pros softwares e sair fazendo. Fácil demais. Software não quer nem saber. Software sobe à cabeça, sobretudo quando a cabeça não tem muita coisa dentro.
O que poderia ter dentro da cabeça além de software software software? Que tal conceito? Visão? Estratégia? Entendimento? Antes de sair desenhando interfaces e motion, vem uma etapa fundamental: entender a história toda, pensar em como é possível alavancar e mobilizar e potencializar e fomentar e fazer acontecer e multiplicar e expandir a idéia original.
Quem disse que a tal aventura precisava de um site? E se a grande sacada fosse um programa de rádio? Ou um podcast? Ou um livro? Ou um documentário? Ou uma minissérie? Ou tudo isso junto? E como usar a internet nessa zona toda?
E se o site tivesse cinco fases, tipo:
1. Divulgação do projeto buscando patrocínio
2. Uma etapa teaser pra cativar audiência e participação dos usuários
3. Uma etapa “ao vivo”, acompanhando passo a passo a expedição, complementada por podcasts, newsletters, twitter e blog?
4. Uma etapa documental mostrando tudo o que foi registrado e abrindo espaço para comentários
5. Uma etapa pré-próxima aventura, onde os usuários sugerem novos caminhos
E se o teu amigo usasse um smartphone bacana com GPS e 3G e fosse publicando fotos e vídeos e textos em serviços diversos que poderiam ser usados num mash-up bacana que virasse um gadget na sidebar da máquina dos usuários? E esses vídeos pudessem ser baixados via podcast e...
Sabe do que estou sentindo falta nesse exato momento, entre um gole e outro de Chai? De lápis e papel. Da minha lousa branca e canetas. Fiquei empolgado com a história e já quero rabiscar essa coisa toda e ir amarrando esses conceitos todos em algo que faça sentido, algo que dê asas ao teu amigo no lombo da mula. A hora em que o conceito e a estratégia toda estiverem mais claras eu vou pensar em que tecnologia usar, em qual software usar, de que modo e por quê. Se eu começar pelo software, vou ficar prisioneiro do que aquele software faz, vou confinar minhas idéias àquilo que eu imagino ser possível. Fica pequeno.
Quer inovar? Largue esse teclado. Vá pra lousa. Explique tua idéia rabiscando no guardanapo. Se a idéia for inovadora de verdade, o guardanapo basta pra vender teu peixe. Meu sonho é que você bole algo que te jogue muito além da tua zona de conforto, que te faça pesquisar outros paradigmas, outras plataformas, outros softwares.
Só vá pra máquina na hora em que o software for um meio com um fim, e não mais o começo ou o fim em si. Senão é o fim.