Cativar e Cativeiros

Se me apresentarem uma top model nesse exato momento eu vou ficar sem palavras. Calma, calma, não é que eu não saiba o que dizer diante de uma mulher bonita, até sei (venho praticando faz décadas). O problema é que eu sou de outra época, do tempo das misses, e todas as misses tinham algo em comum: liam O Pequeno Príncipe, do Saint Exupéry.
Palavra! Era uma unanimidade!
“Qual seu livro predileto?”
“O Pequeno Príncipe”, dizia a Pequena Princesa com um Grande Sorriso, Pequeno Biquini e Grandes... Atributos.
De duas uma: ou ler aquele livrinho transformava garotinhas em mulheres monumentais ou... aqueles monumentos ainda eram mentalmente garotinhas (o que não parecia incomodar quase ninguém).
Uma coisa, porém, havia de incomodar rapazes galantes mais cedo ou mais tarde: a letal e inelutável frase “tu te tornas eternamente responsável por quem cativas”. Argh. Argh argh. Maldito príncipe.
O principezinho loiro, entretanto, tinha lá sua razão. Crie um projeto “web 2.0”pra você ver.
Eu conto a historinha: o site do seu cliente era um planeta isolado e frio perdido nos confins da internet brasileira. Aí você, lindo e loiro e com uma casaca azul-cobalto, propõe a ele: plante no seu planetinha uma semente do baobá da web 2.0. A semente vai vingar rápido e crescer crescer crescer...
Well, melhor que pé-de-feijão mágico, esse baobá. E, para sua alegria, o baobá 2.0 cresce que é uma beleza. Cresce tanto que... well, você lembra no que dá, confesse!!! O baobá fica descomunal e quase engole o planetinha.
Opa, me empolguei, não era essa a historinha não, era a de cativar e tal. Mas tudo bem, a do baobá também ajuda.
Falemos de cativar: antenadíssimo com todo o papo de web 2.0 você cria um espaço social colaborativo etc etc etc. Como você é um cara talentoso e tal, o espaço social “bomba”: um monte de gente se envolve, participa, publica, convida amigos e tal. Vamos bem! Mas... vamos para onde?
Pois é: você cativou pessoas. Agora, quer você queira (o que eu duvido) quer não (o que eu aposto), você é responsável por elas. Melhor dizendo: elas acham que você é responsável e isso basta. Basta para um desastre iminente.
Exagerado, eu? Deixe rolar, então, e espere para ver que gracinhas de feedbacks você vai ter no dia em que o baobá 2.0 ficar maior do que teu tempo, tua grana ou tua capacidade de lidar com, literalmente, tantos galhos. Eu posso dizer por experiência própria: a hora que teu espaço social começar a derrapar e você não conseguir desacelerar nem segurar o volante, você vai perceber (tarde demais) que valeria a pena ter investido em air bags, suspensão, bons pneus e, sobretudo, seguro. Mas agora é tarde. Você vai ter que gastar com gerenciamento de crises, PR e, provavelmente, terapia.
Analogias e parábolas à parte, a questão é: qual teu plano a médio e longo prazo para tua aposta em mídia social? Lembre-se que pessoas vão investir seu tempo e afeto, lembre-se que vão se apegar ao serviço, leve em conta (e isso é absolutamente crítico) que as pessoas vão projetar seus anseios, fantasias e desejos sobre você. Lembre-se que esse voto de confiança é incondicional e muitas vezes cego, e que em muito pouco tempo ninguém mais vai se lembrar de como era a vida antes, como era a vida sem o teu serviço, e logo logo vai parecer que aquilo que para você representa um custo danado de manutenção é tão natural e gratuito quanto o sol nascer e se por.
Usuários não querem saber se teus servidores não deram conta, se teu modelo de receita era capenga ou se tua aplicação não escala. Eles não querem saber se a única maneira de manter o serviço é mudar o serviço. Você os cativou, e este é teu cativeiro.
Há saída para isso? Well, lembrando de personagens, dá para ser um pouco menos “Don Juan”, o rei da conquista, e ser mais maduro e pensar no “futuro da relação”. Eu te garanto que uma postura dessas há de fazer o maior sucesso com mulheres de verdade. E com clientes também.
E, afinal... Who misses the Misses?