e-business, e-mail, e-commerce, e-daí­? (a questão da relevância)

artigo escrito para a revista Webdesign n. 2

É uma ironia eu confessar isso por escrito, mas... anda difí­cil escrever. Não que palavras me faltem, isso não. Sou tão verbal que meu cérebro funciona em DOS, sem interface gráfica. Sou um candidato a Cyrano de Bergerac com nariz e tudo. Nem é o caso de falta de idéias, tampouco: elas ainda me assediam o dia todo e mal dou conta delas, o equivalente cerebral de um Don Juan que passou Italian Pine.

Meu problema é outro. Meu problema é relevância.

Dramática, a questão. É só me ocorrer uma idéia nova e logo vem a asa negra da dúvida, perguntando com voz funesta (em alemão, claro): Und? Pronto, broxei.

Essas três letrinhas querem dizer e em alemão, e colocadas como pergunta equivalem ao nosso e daí­?, ao inglês so what?, ao francês et alors?. A diferença é que em alemão dói mais.

Und? E aí­, o que essa idéia tããão bacana acrescenta ao quadro geral das coisas? Qual a sua (argh) relevância? Pergunta cruel.

Ok, se minha vaidade fosse maior que o juí­zo, eu poderia dizer eu acho relevante, e basta, mas eu sei que não basta. Se a idéia (ou ação, ou projeto) não for relevante para os outros, que fique na gaveta, nos meus blogs e olha lá. De irrelevâncias o mundo já está cheio.

Faça um exercí­cio rápido: dos emails que você recebe, quantos são realmente relevantes pra você? Quantos sites são relevantes no teu dia-a-dia? Em cada site desses, quais são as coisas realmente relevantes ali? Peneirando, peneirando, sobra pouco, e o resto é uma avalanche de desperdí­cio que custou dinheiro, não trouxe resultados para quem fez e, sobretudo, sacrificou seu bem mais importante: tempo.

E aí­ vem a pergunta que não quer calar (em português mesmo): se algo é irrelevante, por que existe/persiste/insiste? Custa dinheiro para fazer, não custa? Custa. Toma espaço, não toma? Toma. Toma tempo, não toma? Toma. Então, por quê?

Eu me pergunto essas questões sempre que aparece futebol na minha frente. Ou polí­tica. Ou esportes de maneira geral. E aí­ que cai a ficha de novo: não importa que esses temas sejam irrelevantes pra mim. O que conta é que para zilhões de pessoas eles são relevantes sim, vitais até, e muito dinheiro gira em torno disso. Ou seja: relevância é relativa, muito relativa, e umbigo não serve de parâmetro pra muita coisa.

Mas voltemos ao nosso tema central, o digimundo. Se você está elaborando um projeto interativo qualquer, seja um banner ou uma loja online ou um portal de notí­cias, questione a relevância dos menores detalhes:

- Esse texto imenso é relevante?
- Essa animação é relevante?
- Saber o CIC e RG do usuário é relevante?
- Essa interatividade XYZ, esse fórum, esse login, essa enquete, esse cadastro, esse chat, esse game são relevantes?

E por aí­ vai, a sabatina não tem fim. Mas para responder a essas questões todas sem bancar o Rei Levância absoluto e incontestável, você tem que descer do trono e conhecer:

- O público-alvo e suas necessidades (eles querem realmente saber seu saldo bancário por email toooodo santo dia?)
- As tais necessidades (quem disse que o melhor jeito de resolver essa necessidade é a internet? E se o telefone for mais prático? E quem disse que eu quero que um banco me dê dicas de culinária?)
- O business do cliente e seus processos (sim sim, pedir o tal do CIC tem razões jurí­dicas que você nem desconfiava, e é importante sim a tal da press area)
- O cliente (que pode achar relevantí­ssimo a vista aérea da fábrica, a foto do fundador, etc., mas como ele é quem paga a conta, paciência)

Conhecendo melhor os envolvidos, é muuuito mais garantido dizer o que é relevante... para as pessoas relevantes. Você pode descobrir, inclusive, que algumas aparentes irrelevâncias são super relevantes, insubstituí­veis, vitais quase (pense em novelas, por exemplo, ou horóscopo).

E aí­ você me pergunta: Und? Qual a relevância da relevância? O que ganhamos com esse processo todo de depuração? Pontos no Karma?

Não sou um expert em Karma e infinitudes, mas dá pra responder a isso com base em coisas bem materialistas.

A primeira resposta é: grana é recurso escasso. Grana não se joga fora. Se você quiser que seu cliente invista seu rico dinheirinho em alguma coisa online, que ele invista então em algo realmente relevante.

A segunda resposta é: se tem algo mais escasso do que grana, mais irreversivelmente irrecuperável do que dinheiro, é tempo. Seja rico ou pobre, teu usuário tem 24 horas por dia, sete dias por semana, e nenhum dinheiro do mundo faz relógio andar devagar. Pra poupar seu tempo: é muito provável que seu cliente tenha mais o que fazer do que se enroscar em mais irrelevâncias.

A terceira resposta é: o mundo mudou. O consumidor mudou. Essa história de ter um mouse na mão, de ter um endereço de email, isso é histórico, e não tem volta não. Ou você mostra ao que veio, ou um clique te manda pro trash. A seleção natural agora é movida a mouse-power.

Mas esse é o tema do próximo artigo, empowerment. Até lá.

E se fui irreverente demais, por favor... releve :)

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