Pecado muito pouco original

Onde quer que você olhe, a mensagem é uma só: você está frito. Melhor nem ouvir a caixa postal. A caixa de entrada, então... pior ainda. E só de pensar na gritaria que te aguarda nem dá vontade de sair da cama, isto é, se é que você ainda consegue pregar o olho e dormir. Bem-vindo à InFernet, onde demônios sem piedade te assam em fogo e enxofre. Com o tempo você acostuma. Teu pai te pergunta: como vai o trabalho, meu filho? Você responde: uma correria danada. E ambos sorriem, porque sofrer é bom sinal. Será que é? Eu acho que não. Eu tenho duas notí­cias, uma boa e outra dolorida: Comecemos pela dolorosa: se você foi pro inferno, a culpa é sua e o pecado é grave. Doeu? Lamento. Onde foi que você pecou? Well, posso arriscar? O pecado mais vergonhoso é a Preguiça. Você sabe que um bom briefing é importante, que documentar o que o cliente quer e espera é fundamental, que você deve validar ponto por ponto o que foi combinado, que deveria ter aprovado todos os detalhes do layout antes de por a mão na massa, que deveria testar tudo antes de colocar no ar... mas aí­ bateu a preguiça. "Para que perder tempo com essas chatices?" "Eu sou um profissional de talento, não um burocrata..." "Vamos queimar etapas!" E aí­ você se queima. Você que teve preguiça de fazer a lição de casa vai arder por semanas nas chamas da refação. Posso arriscar outra vez? Orgulho. Você que sabe tuuuudo de internet, um cara antenado, descolado, geek, vai dar ouvidos a esse cliente sem glamour? Quem é ele, afinal, para dizer se ficou bom ou não? Resposta: ele é o cara que paga as tuas contas. Ele é o cara é o dono do negócio e entende disso como ninguém. Se alguém deveria enfiar o rabo no meio das pernas e aprender com humildade... é você. Ou então sua conta bancária vai atravessar desertos tórridos implorando por uma gota salobra de dinheiro. Gula é outra desgraça. Confesse: você não resistiu e aceitou três frilas ao mesmo tempo. A grana era tão boa! O cliente tão amigável! "Eu me viro", você imaginou, e acabou virando num espeto sobre as lí­nguas de fogo dos clientes que você deixou na mão. Avareza engana. Você faz as contas e parece lógico: por que perder dinheiro com isso? "Eu faço isso sair de graça". Faltou um S aí­: sai deSgraça. Você não quis contratar um auxiliar, você não quis licenciar um software, você não quis contratar um hosting decente? O dinheiro que você economizou não paga o festival de dores de cabeça que te espera: noites mal dormidas e o medo perpétuo de que alguém descubra que o pecado maior foi a economia porca que você fez. Ok, tudo bem, você não é um mão-de-vaca mesquinho. Você é generoso, grandioso. Luxúria tem seu encanto, convenhamos. É charmoso viver à larga. Até a hora em que o cliente te larga porque você estourou o orçamento no meio do projeto. Como já dizia João Bosco, dinheiro na mão é vendaval na vida de um sonhador, sobretudo se ele achar que fazer contas é coisa de pobre. Faltam dois pecados ainda, a inveja e a ira, mas vamos deixar isso de lado, já estamos bem-servidos de tentações nesse jardim de delí­cias do digimundo, onde tudo parece fácil, onde tudo dá para resolver com um bom CTRL+Z. Dá mesmo? Não, não dá. Perder a confiança de um cliente é quase irreversí­vel. O estrago que você provoca nos negócios alheios não tem volta. A mancha na tua reputação não sai tão fácil. E aquela precaução que você não tomou não tem remédio. Lamento, mas no mundo do trabalho não há perdão. Perguntei a uma colega gringa como andava o trabalho. "Acabamos o projeto e estamos fazendo o post-mortem", disse ela. Post-mortem é um jargão para uma análise de tudo o que deu errado em um projeto e poderia ter sido evitado. Um bom post-mortem traz à luz um monte de descuidos, ví­cios, acidentes, distorções. Dói, mas fica clarí­ssimo onde não errar da próxima vez. Eu recomendo. Eu prometi uma boa notí­cia, não? Lá vai: existe uma saí­da do Inferno. Não entrar nele.

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