Onde: um belo restaurante. Quando: um belo domingo.
Fato: me acharam.
O celular tocou. Que hora, pensei. Conferi o identificador de
chamadas: um número qualquer. Pedi licença à minha companhia, me afastei e atendi.
"René?"
"Sim, quem fala?"
"Você faz trabalho?"
Fazer trabalho? A primeira idéia que me ocorreu foi macumba.
Well, não era isso. Era trabalho de faculdade, ou melhor, uma versão on-demand e outsourced de trabalho de faculdade, onde um grupo neo-picareta de estudantes apela para um equivalente estudantil da bruna surfistinha e paga por um trabalho de escola encomendado. Claaaaaaaro, o grupo "briefa" antes. Tudo muito profissional.
este foi meu artigo de estréia para a revista Webdesign, que também estreava nas bancas.
O carro dos ovos chegou!
Ovos? Sim, uma dúzia de ovos agora cairia bem, sobretudo se caíssem na cabeça desse chato movido a diesel, desse entrepreneur da mídia de interrupção, interrompendo minha soneca de sábado com uma gravação que já sei de cor.
Ovos? Quando eu precisar de ovos eu vou ao mercado, não preciso que a montanha de ovos venha a Maomé se anunciando no megafone como se fosse a Boa Nova. Ovos são ovos, oras.
Eu nem como ovos. Devo estar perdendo algo fabuloso, a julgar pelo entusiasmo da gravação. Deveria dar vivas pela chegada dessa benção dos céus à minha modesta rua da Bela Vista, mas não estou nem aí para ovos, ainda mais se eles estão bem aqui, no meio do meu ex-sossego.
artigo escrito para a revista Webdesign n. 2
É uma ironia eu confessar isso por escrito, mas... anda difícil escrever. Não que palavras me faltem, isso não. Sou tão verbal que meu cérebro funciona em DOS, sem interface gráfica. Sou um candidato a Cyrano de Bergerac com nariz e tudo. Nem é o caso de falta de idéias, tampouco: elas ainda me assediam o dia todo e mal dou conta delas, o equivalente cerebral de um Don Juan que passou Italian Pine.
Meu problema é outro. Meu problema é relevância.
Dramática, a questão. É só me ocorrer uma idéia nova e logo vem a asa negra da dúvida, perguntando com voz funesta (em alemão, claro): Und? Pronto, broxei.
- Sou contra.
Contra? A entrevistadora ficou tão desconcertada que repetiu a pergunta:
- Você é contra liberar as drogas???
O rock star era contra mesmo.
- Primeiro porque quem é chato, com droga fica mais chato ainda. Segundo porque se liberar, não vai ter pra todo mundo.
Adoro essa estorinha, ainda mais pelo fato de ter acontecido mesmo, mutatis mutandi, anos atrás. Adoro também por ter na prateleira As portas da Percepção e A Ilha do Huxley, e outras pérolas do tempo em que drogas prometiam expansão de consciência e tal.
Por uma questão de timing (tenho 39) perdi essa grande balada, e só vim a conhecer a grande ressaca que sobreveio à farra.
Mas teve um bonde que eu peguei andando e tive chance de sentar na janelinha: o tal do digimundo. Não dava barato, mas que expandia a consciência, expandia. E era barato, liberado, e tem pra todo mundo (ou quase).
É simples: dê a mão, logo vão querer o braço. Simple as that. Quer ver?
Você criou um site? Ótimo! Posso ir lá então e fazer o que eu preciso sozinho? Mais ou menos??? Como assim?
Que bom que tem um fale conosco! Vocês me respondem logo? Como assim mais ou menos???
Usuários são tão cruéis. Se eles soubessem o trabalho que deu, as guerras políticas, o dinheiro que se gastou, as noites em claro... Eles pensam que é fácil?
Agora respondo eu: pensam. E têm toda razão em pensar.
Basta ele digitar o endereço do teu concorrente e pronto, ali está, no site do outro ele pode, no teu site não. Por quê?
Nem tente explicar. Eu conheço os bastidores, sei como é. Os usuários também não querem saber, de problemas já estão bem servidos, e contam com teu site para resolvê-los.
"É uma porta."
Tomara que ele não ouça isso, tomara que seja surdo como uma porta. Eu, no seu lugar, ficaria ofendidíssimo. Afinal, quem gosta de se sentir burro?
Ele ouviu. Era um professor peculiaríssimo, um ponto fora da curva sob qualquer aspecto: esquisito, mal proporcionado, hostil... mas parecia feliz consigo mesmo. Nunca se abalou com as piadas e apelidos e a rapaziada imitando.
Imperturbável, o senhor bizarro, até que um dia...
Numa prova, um aluno irritado deixou escapar algo como o cara é uma porta. Para espanto geral, o professor subiu nas tamancas, perdeu as estribeiras. Bradava, transtornado: podem me chamar de palhaço, do que for, mas de incompetente, JAMAIS!. Saia justa.
artigo publicado na revista WebDesign
Dei uma volta pelo shopping, ontem. Numa vitrine vi um modelo de palm que eu não conhecia. Entrei, o vendedor me mostrou o aparelho, fui embora satisfeito por ter visto de perto aquele palm, por ter manipulado uma máquina que eu só conhecia superficialmente.
Este episódio tão prosaico, se o olharmos de perto, pode também
mostrar como funciona outra maquininha, a maquininha humana. Os
senhores teriam interesse? Sigam-me, por favor.
Em primeiro lugar, por que escolhi um shopping? Resposta: eu não
estava procurando nada específico, estava querendo olhar vitrines
só, e shoppings concentram vitrines de todo tipo. Mais: estava
chovendo muito, e shoppings são cobertos. Por fim, eu queria
circular entre gente bacana sem me preocupar com segurança e
violência.
artigo para a revista Webdesign
No aeroporto em Amsterdam, no elevador em Nova York, num táxi decrépito, em botequins vazios... Encontrar com ela é sempre mágico, inexplicável, e lá fica você de coração mole, cantarolando junto: a beleza que não é só minha.... Essa canção é cidadã do mundo.
A moça do corpo dourado do sol de Ipanema arranca suspiros até de quem não tem idéia do que seja Ipanema, Vinícius, Tom, e seu mundo se enche de graça e fica mais lindo mesmo em línguas estranhas e arranjos idem.
Graça é uma palavra interessante. Há coisas que você não quer nem de graça, outras te deixam sem graça e, sim, ela é uma graça por graça dos céus. Sempre coisa boa, graça, mas a Graça mesmo é cruel: ou se tem ou não se tem.
artigo para webinsider, abril de 2004
Curso de língua é assim, você acaba tendo que ler livros que não leria espontaneamente ou que talvez nem descobrisse sozinho, e foi assim que li uma historia estranhíssima, passada numa estação de rádio. O título era algo como Das gesammelte Schweigen des Doktors...", nem me lembro mais.
Um dos personagens da história produzia um programa de entrevistas, e guardava escondido numa caixinha inúmeros tecos de fita magnética, daquelas de rolo, todas elas organizadas, etiquetadinhas, coisa de alemão mesmo.
artigo publicado no webinsider
Meses de silêncio, eu disse? Menti: nunca falei tanto. Se somar o que eu tagarelei nos últimos meses dava um compêndio ou, no mínimo, um dossiê psiquiátrico. Falei muito.
Você não ouviu? Não faz mal, eram delírios mesmo, idéias soltas que não tiveram força para mover meus dedos. Se fosse alguns séculos atrás valeria o verba volent, scripta manent, e as palavras voariam enquanto textos ficam.
As minhas palavras, porém, ficaram, voaram e se multiplicam nas asas do MP3, pousadas tranqí¼ilamente no Roda&Avisa, audioblog que foi minha válvula de escape nesses meses todos de abstinência articulística.
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