Que Beethoven não nos ouça, mas talvez
ele não tenha sido tão genial assim. Ao menos foi o que aprendi escutando
uma entrevista bárbara outro dia com um professor de música.
Beethoven se dava ao luxo de escrever,
reescrever, rabiscar, rascunhar e ir lapidando suas partituras até
o ponto em que estivessem redondas, perfeitas, insuperáveis.
Eu estava prestes a começar este artigo dizendo "você que gosta de idiomas...", mas me toquei a tempo que pouca gente tem apreço por línguas. Deletei tudo, e recomecei com "você que lida muito com estrangeiros...". Deleta deleta deleta. De volta ao cursor piscando no início de uma página branca.
É raro eu travar. Normalmente eu saio escrevendo/palestrando/gravando sem o menor embaraço, e as idéias vão se concatenando naturalmente, haja vista/ouvido o improviso do podcast Roda e Avisa (http://www.usina.com/rodaeavisa ) .
Um tema, porém, quebra essa regra. Se eu não esvaziasse a lixeirinha do meu desktop ela pareceria hoje um cesto de papéis de escritor empacado, coberta por folhas amassadas atiradas com fúria.
É simples: dê a mão, logo vão querer o braço. Simple as that. Quer ver?
Você criou um site? Ótimo! Posso ir lá então e fazer o que eu preciso sozinho? Mais ou menos??? Como assim?
Que bom que tem um fale conosco! Vocês me respondem logo? Como assim mais ou menos???
Usuários são tão cruéis. Se eles soubessem o trabalho que deu, as guerras políticas, o dinheiro que se gastou, as noites em claro... Eles pensam que é fácil?
Agora respondo eu: pensam. E têm toda razão em pensar.
Basta ele digitar o endereço do teu concorrente e pronto, ali está, no site do outro ele pode, no teu site não. Por quê?
Nem tente explicar. Eu conheço os bastidores, sei como é. Os usuários também não querem saber, de problemas já estão bem servidos, e contam com teu site para resolvê-los.
artigo publicado na revista WebDesign
Dei uma volta pelo shopping, ontem. Numa vitrine vi um modelo de palm que eu não conhecia. Entrei, o vendedor me mostrou o aparelho, fui embora satisfeito por ter visto de perto aquele palm, por ter manipulado uma máquina que eu só conhecia superficialmente.
Este episódio tão prosaico, se o olharmos de perto, pode também
mostrar como funciona outra maquininha, a maquininha humana. Os
senhores teriam interesse? Sigam-me, por favor.
Em primeiro lugar, por que escolhi um shopping? Resposta: eu não
estava procurando nada específico, estava querendo olhar vitrines
só, e shoppings concentram vitrines de todo tipo. Mais: estava
chovendo muito, e shoppings são cobertos. Por fim, eu queria
circular entre gente bacana sem me preocupar com segurança e
violência.
artigo para webinsider, abril de 2004
Curso de língua é assim, você acaba tendo que ler livros que não leria espontaneamente ou que talvez nem descobrisse sozinho, e foi assim que li uma historia estranhíssima, passada numa estação de rádio. O título era algo como Das gesammelte Schweigen des Doktors...", nem me lembro mais.
Um dos personagens da história produzia um programa de entrevistas, e guardava escondido numa caixinha inúmeros tecos de fita magnética, daquelas de rolo, todas elas organizadas, etiquetadinhas, coisa de alemão mesmo.
artigo publicado no webinsider
Meses de silêncio, eu disse? Menti: nunca falei tanto. Se somar o que eu tagarelei nos últimos meses dava um compêndio ou, no mínimo, um dossiê psiquiátrico. Falei muito.
Você não ouviu? Não faz mal, eram delírios mesmo, idéias soltas que não tiveram força para mover meus dedos. Se fosse alguns séculos atrás valeria o verba volent, scripta manent, e as palavras voariam enquanto textos ficam.
As minhas palavras, porém, ficaram, voaram e se multiplicam nas asas do MP3, pousadas tranqí¼ilamente no Roda&Avisa, audioblog que foi minha válvula de escape nesses meses todos de abstinência articulística.
(artigo pra revista webdesign)
Não se deixe enganar. A revista está linda, o papel é muito bom, a impressão ficou ótima... mas o articulista está nu.
Eu poderia disfarçar, te distrair, mas prefiro ser franco: você me pegou no pulo.
Eu sei, eu sei... você comprou a revista porque procura respostas, quer certezas, quer algo que te ilumine o caminho. Se você quisesse colunistas desprevenidos, teria pedido algo diferente na banca. Mas essa minha posição desconfortável pode ser instrutiva, acredite, a menos que você seja daqueles que acredita que aquele corpão pelado na capa daquela revista realmente exista, que ali não tem silicone nem photoshop, que aquela top model está realmente sorrindo pra você.
(artigo para a revista webdesign)
O site era bárbaro, ficamos todos boquiabertos. Nos idos de 98 não havia muitos sites como aquele. Hoje hot-sites de produto em flash e tal são carne de vaca, mas na época nem se falava em hot-site e as coisas eram feitas em shockwave mesmo.
Bacana mesmo é que o site era a cara do produto, um carro originalíssimo, bem-humorado, cool. Site legal, carro legal, tudo super promissor não fosse por um... alce.
Alce é um bicho descomunal, enorme, que faz vaca parecer pônei. Parece que tem muito nos países nórdicos, tem tantos que um dos testes de segurança para um carro é o "teste do alce".
Sugeriram-me conduzir um curso sobre comunidades online, e relutei. Aceitei só depois de muita hesitação e incerteza, e enfim compilei alguns princípios básicos e me pus a estruturá- los de maneira didática, a preparar exercícios, referências...
Nasceu um curso breve, com mais perguntas do que respostas, como um bom curso deve ser.
Chegar a alguma conclusão sobre como gerenciar algo tão vivo e intenso quanto uma comunidade online pareceu-me sempre uma quimera.
Jamais tentei sistematizar ou registrar ou compartilhar o que descobri nesses anos todos. Mas acho que agora sim tenho algo "compartilhável".
artigo para revista webdesign
OK, isso não é coisa pra se perguntar assim do nada, mas a questão quase me acerta na testa mal eu abro a porta, e voilá a dita ave em pânico se debatendo contra o teto, paredes, um furacão azulado sem freios nem juízo.
Rapidamente notei que alguém já estava se dedicando a esse problema filosófico de maneira bastante atlética, e antes que ele literalmente matasse a charada, tirei meu gato de cena. O pobre passarinho não tinha sete vidas, enfim.
Como se pega um beija-flor?, pensava eu quebrando a cabeça enquanto o pobre bicho quase quebrava a própria. De sopetão? De tocaia? Com as mãos? Com uma rede? Perto de uma criatura tão delicada eu me senti um godzilla tosco. E pensar que ele descendia de dinossauros, e não eu.
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