janeiro 30, 2004
mano a mano
não havia muita luz, que eu me lembre. não havia janelas, apenas luz uniforme, fluorescente, luz aquosa sem volumes preenchendo o corredor e as celas.
pata presa a uma corrente de ferro, ele balançava distraído de um lado para outro. um corpo de toneladas, escuro, massivo, balançava de lá para cá, como se a cela não fosse minúscula, como se a corrente não fosse bruta, como se ali fosse a áfrica e não um cubículo perdido no meio da europa.
o que o separava de mim era um fosso raso, estreito, uma mureta baixa, um corrimão gelado, nada mais. nenhuma grade, sem vidro, apenas alguns metros entre os dois mamíferos desmamados, entre duas criaturas muito longe de casa.
debrucei-me na mureta, estiquei-me como pude, e lhe estendi a mão. num equilíbrio precário, chamei-lhe baixinho.
o gigante levantou a tromba e enlaçou meu pulso. minha mão sumiu, envolta e presa pela tromba úmida, suja de terra. eu, ligado ao chão por um só pé, a vida nas mãos de um colosso gentil e mudo.
foi isso. ele soltou minha mão, eu a limpei no casaco, e guardei essa memória cara no fundo do meu baú, com medo que desbotasse, com medo que se diluisse. esqueci-a para não esquecê-la.
bobagem minha. vamos cortar as correntes, escancarar a cela e ver onde minha memória de elefante me leva.
louro
zoológicos tornaram-se meu refúgio.
meses de museus, quilômetros de galerias, para enfim encontrar prazer estético, emoção contemplativa não em naturezas mortas, mas nas vivas, vivas e fora de contexto como eu, papagaios e antas e tucanos desentendidos, focas ilhadas, serpentes e grilos.
houve um papagaio brasileirissimo, nos fundos de um brechó em amsterdam, mais um companheiro de exílio, ele mascote de holandeses, eu de uma européia. ele verde e amarelo por fora, eu por dentro, sob quilos de lã.
ele dava o pé. eu tinha perdido o pé faz tempo.
nice to meet you
precisei ir longe para encontrar meus labirintos, a areia movediça que hoje sei estar a um tropeço de distância. precisei matar o coração de fome para descobrir meu alimento, o que me estanca a hemorragia.
isso eu digo agora, acostumado a estranheza. naquele momento não sabia nem resposta nem pergunta, e fiquei feliz que alguém, mesmo paquiderme, entendesse sem palavras.
fevereiro 2, 2004
cicatriz
parece tão fácil, mera questão de empacotar o básico, encher o peito e sair pro mundo.
o desafio é o que te espera, aquilo que o mundo novo tem de novo.
você nunca espera que o ataque venha pelas costas, por dentro, que comece nas vísceras, que um buraco cresça no peito, que tuas mãos passem fome, teu nariz queira cheiros.
a ferida não mata, mas não fecha fácil. a menos que você seque.
fevereiro 13, 2004
derme
a pele da tromba é quase casca, casca que se abre em mucosa morna e babada, casca e mucosa prendendo minha mão inteira, duas peles cada uma de um lado do atlântico, carnes quentes no frio sem cores, carnes vermelhas de mamíferos mansos, extremos unidos com uma naturalidade impensável em um aperto denso.
casacos, botas, gorros... em pleno inverno germano meu coração vivia do avesso. preciso entender por quê.
fevereiro 17, 2004
impropriedades
o que é teu, enfim, numa terra estranha quando o estranho é você, quando te faltam palavras nessa língua alheia, quando te faltam palavras na tua própria língua que dêem nome a essa voragem, a essa sangria? nada é teu.
teu mesmo é esse nada que veio de contrabando, veio ilegal, produto interno bruto roncando na economia das trocas tão pobres, na escassez de toques que esse toque elefantino veio mitigar e acarinhar com a tromba que arranca troncos.
o que é meu aqui é só meu, desde sempre. e isso é problema meu.
fevereiro 18, 2004
parênteses
por que escolher esse episódio, e não outros?
o fio da meada passa por ali ou vou me emaranhar todo e embaralhar alhos e bugalhos? estou dando corda pra me enforcar?
eu devia ter perguntado antes: elefante acorrentado desata nó? não perguntei nada, estendi a mão e chamei baixinho, e o que veio foi um enlace, um quase abraço, um laço.
história besta, sem pé nem cabeça, peça solta de um quebra-cabeça que talvez não monte nunca.
talvez a chave não esteja aí, não esteja em lugar algum, não esteja no toque mágico de um Ganesh reencarnado. talvez não haja chave nem fechaduras nem portas a abrir, e tudo não passe de um falso mistério, de teorias soltas esperando um problema, coroa à procura de um rei, coceira em busca de uma boa sarna.
as peças continuam sem encaixe, com elefante ou não, lá ou em qualquer lugar. qualquer história teria o mesmo labirinto nas entrelinhas. qualquer episódio teria um minotauro dentro.
eu estava assim, turbilhonando, quando ele me segurou a mão.
março 16, 2004
pelo contrário
eu que estendi a mão.
ele que estava em correntes, ele que estava na jaula, e eu lhe pedi carinho. fui eu quem pediu arrego, eu quem pediu calor. eu queria colo, ele se ninava sozinho. eu libérrimo lhe pedi refúgio.
vai ver elefante não precisa de áfricas para ser elefante. ser elefante, quem sabe, é saga para heróis altaneiros, filósofos, sábios estóicos de três toneladas. vai ver o cárcere é sacrifício menor, coisa miúda.
eu me queixando em berço esplêndido, e topo com um impávido colosso.
março 18, 2004
franciscano
havia um tigre, também, esplêndido, tigre desmesurado, muito maior do que tudo, cabeçorra gigante me olhando nos olhos, olhos duros a um metro dos meus, tigre que me dedicou um rosnado medonho, um bafo medonho, bocarra e dentes devoradores de homens, tigre blasé e de poucos amigos.
tinha me esquecido da fera. minha memória malandra filtrou esse demônio e deixou na cena só criaturas mansas, um gigante gentil e um turista maltrapilho, são francisco de araque falando a linguagem muda dos mamíferos carentes.
minha memória me enganou. ela tem garras retráteis.
maio 28, 2004
sustenido
memória é um piano estranho, maniento, trambolho desafinado em que algumas teclas morrem e não fazem som por mais que você martele, enquanto outras basta relar e elas repetem repetem repetem para sempre e não se calam nem a tiros, nem com álcool, nem aos berros.
cá estou eu, tentando tirar desse velho episódio alguma melodia, algum som antigo, e o máximo que ouço é o impacto oco dos meus dedos em um teclado plástico.
junho 19, 2004
entre nós
diante de mim dois elefantes distraídos, na outra jaula um tigre muito sério.
lá fora, em cercados, animais de todos os cantos, cantos de todas as aves, coleção heteróclita de criaturas roubadas de casa, tratadas a pão-de-ló para que humanos se sentissem mais perto da casa que nunca tiveram, mais perto do paraíso perdido antes da queda.
não era meu caso. eu queria estar entre exilados, entre desnorteados, entre outros bichos sem pé nem cabeça.
abril 4, 2005
engano
com um couro daqueles não há muito o que abale, morte só a bala, só a tiros. sobre ombros assim o tempo não pesa, distâncias tampouco.
pairando sobre meu redemoinho, o paquiderme sereno estendeu a tromba como quem resgata náufragos.
engano meu: para quem perdia o chão, qualquer coisa ao alcance era mão amiga.
precisei de uma década para ver isso. aposto que ele não.
fevereiro 21, 2006
ferro e fogo
Ao lado do volume assombroso do paquiderme tranqüilo a argola de ferro, os elos negros, a corrente sinistra eram asterisco discreto, nota de rodapé sem poesia, rima pobre para o som frio do metal grosseiro.
Diante da tranqüilidade volumosa do paquiderme assombroso um rapaz desnorteado se perguntava para onde se vai tropeçando nas próprias pernas.


