janeiro 30, 2004

mano a mano

não havia muita luz, que eu me lembre. não havia janelas, apenas luz uniforme, fluorescente, luz aquosa sem volumes preenchendo o corredor e as celas.

pata presa a uma corrente de ferro, ele balançava distraído de um lado para outro. um corpo de toneladas, escuro, massivo, balançava de lá para cá, como se a cela não fosse minúscula, como se a corrente não fosse bruta, como se ali fosse a áfrica e não um cubículo perdido no meio da europa.

o que o separava de mim era um fosso raso, estreito, uma mureta baixa, um corrimão gelado, nada mais. nenhuma grade, sem vidro, apenas alguns metros entre os dois mamíferos desmamados, entre duas criaturas muito longe de casa.

debrucei-me na mureta, estiquei-me como pude, e lhe estendi a mão. num equilíbrio precário, chamei-lhe baixinho.

o gigante levantou a tromba e enlaçou meu pulso. minha mão sumiu, envolta e presa pela tromba úmida, suja de terra. eu, ligado ao chão por um só pé, a vida nas mãos de um colosso gentil e mudo.

foi isso. ele soltou minha mão, eu a limpei no casaco, e guardei essa memória cara no fundo do meu baú, com medo que desbotasse, com medo que se diluisse. esqueci-a para não esquecê-la.

bobagem minha. vamos cortar as correntes, escancarar a cela e ver onde minha memória de elefante me leva.

Posted by renedepaula at janeiro 30, 2004 12:42 PM
link para a usina
Comments

não tem uma foto minha.....que pena adorei te ver
voce continua maravilhoso parabens meu querido Rene abraços do seu Antonio

Posted by: antonio berto do vale at março 30, 2004 10:30 PM
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