fevereiro 18, 2004

parênteses

por que escolher esse episódio, e não outros?

o fio da meada passa por ali ou vou me emaranhar todo e embaralhar alhos e bugalhos? estou dando corda pra me enforcar?

eu devia ter perguntado antes: elefante acorrentado desata nó? não perguntei nada, estendi a mão e chamei baixinho, e o que veio foi um enlace, um quase abraço, um laço.

história besta, sem pé nem cabeça, peça solta de um quebra-cabeça que talvez não monte nunca.

talvez a chave não esteja aí, não esteja em lugar algum, não esteja no toque mágico de um Ganesh reencarnado. talvez não haja chave nem fechaduras nem portas a abrir, e tudo não passe de um falso mistério, de teorias soltas esperando um problema, coroa à procura de um rei, coceira em busca de uma boa sarna.

as peças continuam sem encaixe, com elefante ou não, lá ou em qualquer lugar. qualquer história teria o mesmo labirinto nas entrelinhas. qualquer episódio teria um minotauro dentro.

eu estava assim, turbilhonando, quando ele me segurou a mão.

Posted by renedepaula at 4:36 PM | Comments (1)

fevereiro 17, 2004

impropriedades

o que é teu, enfim, numa terra estranha quando o estranho é você, quando te faltam palavras nessa língua alheia, quando te faltam palavras na tua própria língua que dêem nome a essa voragem, a essa sangria? nada é teu.

teu mesmo é esse nada que veio de contrabando, veio ilegal, produto interno bruto roncando na economia das trocas tão pobres, na escassez de toques que esse toque elefantino veio mitigar e acarinhar com a tromba que arranca troncos.

o que é meu aqui é só meu, desde sempre. e isso é problema meu.

Posted by renedepaula at 7:53 PM | Comments (0)

fevereiro 13, 2004

derme

a pele da tromba é quase casca, casca que se abre em mucosa morna e babada, casca e mucosa prendendo minha mão inteira, duas peles cada uma de um lado do atlântico, carnes quentes no frio sem cores, carnes vermelhas de mamíferos mansos, extremos unidos com uma naturalidade impensável em um aperto denso.

casacos, botas, gorros... em pleno inverno germano meu coração vivia do avesso. preciso entender por quê.

Posted by renedepaula at 1:36 PM | Comments (0)

fevereiro 2, 2004

cicatriz

parece tão fácil, mera questão de empacotar o básico, encher o peito e sair pro mundo.

o desafio é o que te espera, aquilo que o mundo novo tem de novo.

você nunca espera que o ataque venha pelas costas, por dentro, que comece nas vísceras, que um buraco cresça no peito, que tuas mãos passem fome, teu nariz queira cheiros.

a ferida não mata, mas não fecha fácil. a menos que você seque.

Posted by renedepaula at 1:22 PM | Comments (0)