um abismo me separava

um abismo me separava da praia.
os oitenta quilômetros tinham lá seu encanto, os oitocentos metros para baixo no máximo entupiam os ouvidos, mas praquele menino do centro da cidade as férias ao mar eram uma viagem à Marte.
feriado após feriado, verão após verão a sensação persistia: eu estava em outro planeta, onde tudo não acabava. o mar não acabava, a areia não tinha fim, a luz fazia hora extra.
mais móvel que o mar, mais amorfo que a areia, mais incômodo que o sol a pino era algo que só gente pode fazer e eu não sabia.
ao meu redor, com a maior naturalidade do mundo, meus conterrâneos seguiam scripts desconcertantes, assumiam papéis esquisitos, incorporavam personagens estranhos com figurinos sumários. tudo muito natural, para minha desorientação completa.
serra acima, tudo entrava nos eixos sem atrito visível.
a praia era minha twilight zone.


