março 2003 Archives

aqui e ali, vez

aqui e ali, vez por outra você vê as fagulhas.   mesmo com a confusão toda se ouve o zumbido.

há algo inumano, elétrico, movendo a cidade.   por baixo do asfalto, sob as calçadas deve correr um magma novo, que se infiltra pelos pés espinha acima e acende os olhos, e teus nervos viram fios desencapados.

você pode se isolar, claro.   só que não adianta.

anos atrás tirei uma

anos atrás tirei uma foto do gil e do caetano juntos.   eu trabalhava em tv ainda, e fiquei esperando pelos dois na saída do estúdio, coração disparado.   num bololô todo de gente e alegria, os dois passaram diante de mim e clique, eu fotografei.

eu tenho essa foto em algum lugar, um dia eu encontro.

não vai servir pra nada, contudo.   caetano e gil, que passaram rapidamente, são dois borrões indistintos, duas manchas escorridas contra um fundo besta.   eu não tinha flash, e o jeito foi usar velocidade baixa.

os dois estão ali na foto, isso é fato.   entre o "começo" e o "fim" do clique cada milissegundo deles, cada trejeito, cada risada deixou sua marca no filme.   naquela foto borrada tem muita coisa dos dois, tem coisa até demais.

imagens são ledo engano.   tudo passa, imagens não.   tudo nos escorre entre os dedos, imagens ficam.   tudo é maior que o entendimento, imagens se enquadram.

à la caetano: imagens são uma bela droga.

o processo é esse:

o processo é esse: jogo uma moeda no poço da minha memória e presto atenção nos sons e ecos à medida que ela ricocheteia ao despencar silêncio adentro. é assim, ou pelo menos era pra ser.

posso estar enganado. posso estar sendo enganado. pode ser o inverso: meu avesso se lança aqui fora e engole as moedas, as rumina, saboreia, e cospe de volta sons de deleite.

é do leminski, acho,

é do leminski, acho, o

      haja hoje
     pra tanto ontem

e deve ser do millôr o

      no brasil o passado não passa

e dos futuros sempre futuros, ninguém fala?

começou cedo. a doideira

começou cedo. a doideira aqui sempre começa cedo. mal o sol nasce milhões saltam do leito e retomam seus lugares, seus afazeres, suas histórias. milhões dão mais um dia de crédito ao que essa cidade promete.

fés movem montanhas, mas não se demovem tão fácil.

e, é claro, o

e, é claro, o timing não colabora. você pode até acelerar nove de julho acima, deslizando pela noite asfáltica de tão escura com o receio de que a docilidade do carro, os verdes e vermelhos que a lataria surrada dos ônibus te reflete esparramados, o túnel e suas fiadas de luzes e tudo aquilo que te afeta a cada segundo venham a te distrair desse pensamento promissor, dessa semente de profundidade que cismou de aflorar em algum ponto entre a brasil e sei lá qual rua.

pra completar o complô dispersivo, Aimée Mann repete fatídica:

it´s not going to stop
´till you wise up
no, it´s not going to stop

nem me fale. nada pára mesmo.

três passos fora do

três passos fora do teu caminho de sempre e você envereda por um outro mundo. simple as that

fica a questão se você muda quando se aventura, se você se aventurou porque algo mudou ou se ao invés de pensar nisso não era melhor meter os peitos mesmo.

tapumes são tábuas toscas

tapumes são tábuas toscas de cores estranhas que, alinhadas de uma certa maneira, fazem prédios sumir.

para fazer um prédio surgir do nada, acrescentam-se placas com siglas e signos, pinta-se o tapume de uma cor só e pronto. depois de nuvens de pó e ruídos diversos, surge um colosso habitável.

detalhe inevitável: a mágica apaga a memória.

cantarolei a música para

cantarolei a música para lhe refrescar a memória. mais recitei a letra do que cantarolei, enfim, pra que meu desafino não roubasse a cena:

   onde queres revólver sou coqueiro
   e onde queres dinheiro sou paixão
   onde queres descanso sou desejo
   e onde eu sou desejo queres não
   (...)
   ah bruta flor do querer
   ah bruta flor bruta flor

"você lembra a letra toda?"
"sim."

lembro-me vagamente de quando

lembro-me vagamente de quando vi o mar. vi do alto de um prédio, e prédios eu conhecia bem. o que era novo era ver algo sem fim, sem fins, despropositado. fiquei desentendido.

até hoje é assim: a exuberância me engolfa, me carrega do chão, me tira o fôlego e me nina no seu colo líquido. a beleza me escorre entre os dedos, e as mãos não agarram nada, só acariciam a intimidade aquosa.

lá fora um vacilo

lá fora um vacilo e é aço veloz contra carne tenra, pele nua no chão áspero, perigos concretos e sem perdão.

cá dentro faz de conta que tudo são flores.

tenho que abrir uma

tenho que abrir uma brecha, uma trégua. essa corrida perversa de veloz não tem nada.

a cabeça só viaja a pé. passou disso, é piloto automático.

e há as centenas,

e há as centenas, milhares de coisas que deixamos de fora, que deixamos de lado, que nem incluímos mais no que chamamos mundo, coisas que esperneiam como podem, enviam sinais cifrados, agonizam sem socorro, murcham à míngua.

deve haver, quero dizer.

nem sei ao que

nem sei ao que agradecer. algo além do entendimento fez desse final do dia uma parada soturna de carros aglutinados. ao redor de nós - pobres motoristas em slow motion - pedestres aos milhares abrem seu caminho sem pressa. acima da geléia de trânsito e gente, uma constelação esverdeada de escritórios ainda ativos.

algo parece ter distraído o tempo esta noite.

não sei ao que agradecer. cercado assim por todos os lados por inúmeros homens em todos os desvãos desse cenário anguloso, sinto-me humano, demasiadamente humano.

acordo bruscamente. algo teve

acordo bruscamente. algo teve força pra me arrancar de um sono tumultuado, de sonhos confusos.

atordoado, tento adormecer de novo, mas um trecho de canção ocupa minha memória e me mantém desperto: Caetano canta

   sou tímido espalhafatoso
   torre traçada por Gaudi
   São Paulo é como o mundo todo
   no mundo um grande amor perdi

noite estranha. pelo visto alguma coisa acontece no meu coração.

tudo o que eu

tudo o que eu nao fui. mil vidas que, quem sabe. a vontade súbita de ter vivido ali, ou amado aquela, ou ter chamado esta praça de minha praça uma vida inteira. não ser, mesmo depois desse tempo todo, aquilo tudo.

essa cidade é à prova de egotrip. que remédio.

uma trombada aqui outra

uma trombada aqui outra ali, uma derrapagem, um erro de trajeto e você percebe que há encontros que te alimentam e outros que não, que há venenos e remédios, que há co-pilotos e pedaços de mau caminho.

complicado é que a toda velocidade nem todo mundo te acompanha.

e que idéia essa

e que idéia essa a de nudez, da pele exposta, pele fina, pele intocada? que besteira a minha. como se fosse possível arrancar anos e anos de toques e cortes e calores e arrepios como se descasca uma fruta, e eu fosse te oferecer uma polpa intocada, crua, tua.

se eu tenho algum gosto, ele tem história, tem estofo, tem camadas. se eu me dispo, é esse meu traje de gala.

tenho muito o que desaprender ainda.

de tanto pisar nas

de tanto pisar nas mesmas trilhas e repetir os mesmos passos nem sei mais onde eles acabam e eu começo.

esquinas e avenidas e pontes, corredores. parece que ando em círculos.

bruxos devem entender disso,

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bruxos devem entender disso, dos momentos exatos para se estar no lugar correto com o coração desarmado para que uma primavera abrupta te acerte em cheio, te abrace inteiro e faça teu sangue ser seiva de novo. reles mortais contam com o acaso, só.

quisera eu saber a palavra mágica.

quantas cidades cabem no

quantas cidades cabem no coração? quantas mordidas se precisa para descobrir o gosto único de cada uma? que venenos e drogas ela reserva para os íntimos? quantas cidades se sobrepõe em uma cidade? em quantas partes a cidade te destrincha e despedaça? a cidade te multiplica por três, quatro, quanto?

quem começou essa história toda, afinal? eu queria dar os parabéns e não sei pra quem.

não escrevo mais. preencho

não escrevo mais. preencho um cheque aqui, outro ali, e só. uso uma letra espúria, ainda por cima, artificialmente clara, inequívoca.

minha caligrafia, que de "cali" não tem nada, está condenada a prisão domiciliar, enclausurada em gavetas e envelopes até que um dia alguém as resgate e tente desatar o nó daquelas linhas exíguas, das letras minúsculas, do traço quase árabe, miniatura.

se alguém tirar alguma conclusão dali, por favor me avise. o teclado me trouxe pouca luz até agora.

nada de novo sob

nada de novo sob o sol? que nada.

até a chuva fina que parece a garoa de sempre é nova, nova em folha, caindo nos meus óculos logo depois de se acumular nas alturas vinda de águas sabe deus onde, água que estava correndo pra algum lugar mas que achou por bem virar vapor e se enturmar em nuvem e assim por diante, e que no meio de sua aventura fluida planeta afora molhou meus óculos e precipitou na quizomba do meu cérebro pensamentos heraclitianos.

olhos verdes fixos nos

olhos verdes fixos nos meus, meu gato é quase estátua. quase. suas orelhas mexem-se rapidamente, pescando sem cessar ruídos mínimos, triangulando sons que eu nem desconfio.

mesmo quando me encara assim ele está em outro mundo, um mundo denso de odores e vibrações e nuances que ele monitora em tempo integral.

o gato é uma parabólica do invisível.

meus olhos fixos nos dele, estou em outro mundo também, um mundo de elétrons nervosos, de modulações de ondas, de zeros e uns em discos invisíveis. minha atenção varre a cada minuto um território impalpável, meu coração espalha pela rede afetos assíncronos.

não tenho sete vidas, bien entendu.

rodei essa cidade hoje

rodei essa cidade hoje como cão vadio, feliz e sem destino. becos, bairros, bares, gente de todo jeito, ruas que o tempo esqueceu e que eu - sei lá por quê - não esqueço. quando eu menos espero, me salta à lembrança uma esquina sem nome, uma vitrine, um elevador, cacos soltos de andanças vagabundas.

minha memória é vira-lata, acho.

preciso circular mais. sair

preciso circular mais. sair daqui.

quem sabe eu topo de novo com algum pedaço meu que esqueci por aí, que não trouxe de volta. algum eu que se extraviou e que nem dei falta nesses anos todos, um lado meu que fugiu no mundo e me deixou sutilmente manco, discretamente sem eixo.

meu medo é encontrar o tal e ele não querer voltar.

dentro do meu útero

dentro do meu útero de vidro e aço, cercado de outros carros fechados em si mesmos, elis regina canta "águas de março" numa doçura e limpidez inacreditáveis, impossíveis, desconcertantes.

volto a canção, toco de novo e de novo.

hora do rush, e chove. sobre o tráfego gelatinoso chove forte, contraponto inevitável do calor recente, águas duras que ainda não tiveram seu tom jobim.

se há telepatas nesse


se há telepatas nesse mundo, fugiram todos. os poucos que sobraram estão longe daqui, isolados, traumatizados com a multidão das ruas, ensurdecidos com as histórias escabrosas que cada porta esconde, assombrados para sempre com memórias cruas, enlouquecidos pelo quebra-cabeça insolúvel das lembranças alheias.

paredes têm ouvidos, mas são de pedra.

tiro o meu chapéu

tiro o meu chapéu pra contadores de causos. são tão raros. ou eu ando sem sorte, talvez.

bons tempos em que nos finais de tarde adriano stuart vinha para a nossa sala, puxava uma cadeira e desfiava um causo saboroso, inesquecível, impagável.

de tirar o chapéu, o stuart, mestre na arte ancestral de servir o mundo em bocados suculentos.

naquelas tardes memoráveis, histórias embrulhadas para presente eram degustadas em comunhão.

me engana que eu gosto.

"Como você se chama?"

"Como você se chama?"

"Dinho."

"Prazer, rené". apertei sua mão, sorrimos, e fui vadiar mais um pouco pela vila mariana.

no balcão do Dinho, perto das águas de coco, há revistas pra folhear. entre elas, uma pérola: uma STATUS HUMOR de 77, recheada de charges sacanas, de lembranças nem tanto, gatilho de risos nostálgicos.

pedaços saborosos de memória, daqueles de encher a boca, numa tarde sem pretensões.

a revista ficou lá, isca brilhante para pescar memórias.

para onde se olha,

para onde se olha, aquilo que se toca, tudo por aqui alguém fez. o belo, o erro, o abuso, o sublime, tudo.

o que havia antes? o que soterramos sob mil camadas de obras encavaladas? história? raízes?

desorientados, sem reconhecer mais nada, divindades antigas perambulam no asfalto, se escondem nas sombras. deuses agora sem-teto, surtados, se misturam aos párias esmolando um pouco de fé.

aqui se faz, aqui se paga.

alguém invente rápido algo

alguém invente rápido algo que registre o que não sai em fotos, uma máquina que apreenda e prenda pra sempre o que escapa às lentes, um aparelho onde caiba um arco-íris inteiro, o charme invisível de algumas cidades, os encantos fora de esquadro, a lua nova.

alguém invente isso logo, pois as palavras me faltam.

vermelho. eu páro. em

vermelho. eu páro. em volta, em todas as direções, nada, ninguém. na madrugada vazia, um carro parou ao sinal vermelho. sou eu.

parei porque um mecanismo no interior do semáforo acionou circuitos, com um estalido apagou a lâmpada da lente verde, acendeu outra e por fim decretou vermelho.

eu parei, o mecanismo não. noite ou rush, feriado ou corre-corre, ele segue implacável a sua partitura de três cores.

enquanto durmo, um concerto de sinais para uma platéia ausente. amanhã, pára rios de aço.

faz calor, faz silêncio.

faz calor, faz silêncio. a cidade desmaiou.

a cidade perdeu o pulso. seu sangue se esvaiu pra todo lado em busca do mar, do suor, da nudez, dos risos e ela desfaleceu. está inerte, entregue ao sol, sonhando.

todos se foram. enquanto seu sangue e sua alma se renovam por aí, ela aguarda em coma, despreocupada.

sem esses desmaios, sem sangrias anuais e transfusões de sangue a cidade teria morrido há muito.

coisas de quem renasce, re-natos, re-nés

o suicídio foi um

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o suicídio foi um susto.

eu, garoto, encontrei o corpo morto sobre a máquina de escrever, frio como sempre mas muito menos dourado do que devia. peguei o peixe falecido e o apresentei desconcertado ao adulto de plantão.

não tenho idéia do que fazia uma máquina de escrever ao lado do aquário, mas o peixe dourado resolveu se matar assim, literariamente. talvez agonizante, estrebuchando sobre as teclas tenha deixado algumas palavras, mas não havia papel. o peixinho morreu tão mudo quanto viveu.

viveu pouco aliás. nem nos deu chance de aprendermos como se faz feliz um nadador inexpressivo, ou como alegrar a vida confinada a um mundo globulizado. morreu, e nós continuamos crus em termos de peixe.


este é um exercício autoral de rené de paula jr, com textos improvisados a partir de fotos escolhidas da sua galeria.
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