abril 2003 Archives

eu acredito em placas.

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eu acredito em placas. preciso acreditar em algo, enfim.

algo tem que dar liga, fazer a costura, indicar os encaixes das pecinhas do quebra-cabeça, completar as figuras que faltam nesse álbum policromo e gritante que o destino me deu como berço e palco.

sem placas sou um erro errante, sem elas eu giro em falso. de verdade.

as placas (poucas) me

as placas (poucas) me garantem: o caminho é esse. o GPS, meu companheiro fiel, aponta adiante. meus olhos ardidos de tanto calor e diesel nessas paragens cada vez mais inacabadas, meus olhos vêem as mensagens mas continuam perdidos.

isso é mesmo um caminho de volta?

passei por três municípios sem perceber diferença, sem notar fronteiras.
vi nódulos de moradias, novelos de vidas, tramas de asfalto e fios, vi o que não tinha fim nem contorno.

voltei pra casa. mas me confesso meio perdido.

ignore a parede de

ignore a parede de prédios, abstraia a lycra dos maiôs, e ei-nos nus na Terra Nova.

antes fosse. já tentei isso tanto. vestir um paraíso não te despe da cidade.

entre uma buzina ou

entre uma buzina ou outra, raras nessa hora da manhã (é sábado), as maritacas gritam alto. agora mesmo um bem-te-vi anunciou ter visto bem. olha ele aí de novo.

isso agora deve ter sido um canário. mas parou.

se eu for à janela talvez localize a passarada nos telhados dos prédios, no peitoril de janelas, o que não é muito fácil. nessa montoeira de prédios, os cantos de pássaros se quebram em cantos de prédios, ecoam em surround e você só descobre o bichinho a hora em que ele avoa pra outro pouso.

mas hoje não vou à janela não. vou ficar onde estou, quieto, enquanto imagino que bandos de aves extraordinárias, de todo tipo e tamanho, estão ocupadíssimos tramando algo, tomando posições, gritando ordens em código, se preparando para algo que nós nem desconfiamos.

asas à imaginação, então.

cheguei antes. ela vem

cheguei antes.

ela vem de Goiás. ela sabe comer pequi, me explicou até. lá, quando alguém morre, passa um carro com alto-falante e anuncia, e o cortejo é a pé.

o pai da lu faz arte. o pai e a mãe da lu fizeram a lu e a tainá lá em Goiás.

nesse dia de sol goiano, calor idem, céu ibidem, um paulistano tranqüilo espera essa emissária de terras ignotas, portadora de outros ares.

o prazer é meu.

aqui embaixo, ou melhor,

aqui embaixo, ou melhor, aqui em cima da crosta esfarelenta a luz bate duro e a matéria rebate em curvas, se abre em raízes, em folhas delicadas que vão se enroscando e subindo como podem para fugir da sombra.

lá em cima, ou melhor, lá dentro do sol a pino, a confusão é tamanha, os redemoinhos são tantos que labaredas imensas jorram em fúria, e dá-lhe fótons. a luz nasce de um parto doido, doído.

a luz só é direita no caminho curto entre a fusão e a confusão.

outro dia. belo dia,

outro dia. belo dia, solar, azul. mas foi um dia a mais.

o tempo tem dois pesos, duas medidas. hoje, por exemplo, pesa como um casaco encharcado.

girando pratos no ar

girando pratos no ar enquanto avanço em pernas de pau, com um olho no trapézio que não chega nunca e outro no bumbo enloquecido do palhaço, fica difícil manter a pose no balanço da corda bamba.

sorte do homem-bala. no ventre escuro do canhão dá pra ver pra onde o cano aponta.

olhos têm fome. há

olhos têm fome. há que alimentá-los bem, ensiná-los o que comer, a saborear o gritante e o sutil. há que ensiná-los onde achar banquetes.

olho educado dá gosto.

estranho. que corredor era

estranho. que corredor era aquele?

tudo ali dentro foi sinalizado, iluminado, pensado. aquele estreito e curto corredor, escondido, levava diretamente para a noite. no fim dele, uma porta aberta para o que não se via.

fui.

aqueles poucos metros foram trampolim para um salto imortal. até a soleira, o brilho amarelo e fraco da lâmpada. depois, a noite dos trópicos, a exuberância nativa num jardim interno, sem luz.
dentro, um útero de ruídos familiares e abafados na ressonância das paredes brancas. fora, chovia leve sobre milhões de folhas e plantas, gotas tamborilavam em calhas e seixos e envolviam os ouvidos numa festa cristalina e sonora entre vultos de árvores gigantes.

lá dentro é que eu estava fora. aqui estou no brasil de novo. e os céus me livrem de não ouvir.

devo ter passado por

devo ter passado por aqui antes. não imagino quando, mas desconfio que sim.
essas paredes, o asfalto, as janelas não vão confirmar, por mais que eu perscrute. eu as indago, e encontro frieza. nem me escutam.
para quem dura séculos, milênios, o que cada vivente apronta passa batido.

ok, a cidade não tem respostas pra ninguém. não é nada pessoal.

assim não vale. uma

assim não vale.

uma lua dessas, amarela e imensa, baixa e baça, não pode aparecer assim do nada, comigo aqui em pleno nada. isso não se faz. algo especial assim, embrulhado em ouro e prata, merece um colo amoroso, dedos deslizando pelos cabelos, perfumes vindos de nem sei onde. é o mínimo.

alguém tem que estar vendo isso, alguém tem que estar suspirando docemente, enquanto eu e meia cidade disputamos corpo-a-corpo algum avanço na marginal escura. é o mínimo.

ou então essa lua não está nem aí.

um abismo me separava

um abismo me separava da praia.
os oitenta quilômetros tinham lá seu encanto, os oitocentos metros para baixo no máximo entupiam os ouvidos, mas praquele menino do centro da cidade as férias ao mar eram uma viagem à Marte.

feriado após feriado, verão após verão a sensação persistia: eu estava em outro planeta, onde tudo não acabava. o mar não acabava, a areia não tinha fim, a luz fazia hora extra.

mais móvel que o mar, mais amorfo que a areia, mais incômodo que o sol a pino era algo que só gente pode fazer e eu não sabia.
ao meu redor, com a maior naturalidade do mundo, meus conterrâneos seguiam scripts desconcertantes, assumiam papéis esquisitos, incorporavam personagens estranhos com figurinos sumários. tudo muito natural, para minha desorientação completa.

serra acima, tudo entrava nos eixos sem atrito visível.

a praia era minha twilight zone.

volto pra casa direto.

volto pra casa direto. preciso me recompor, preciso me conceder uma trégua, preciso que meu corpo se livre dessa gripe canalha.

é febre minha ou as ruas empelotaram, encaroçaram, coalharam? não escoam...

semáforo.
outro semáforo.
e outro.

avanço arrastado ao largo de muros bonitos, heras impecáveis, portões solenes.

- como vai, cidade, tudo bem?
- sim, tudo bem, as fachadas educadíssimas respondem.

preciso me recompor. estou um caco.

era um conto de

era um conto de fadas? uma lenda? walt disney? não me lembro. o futuro rei, ainda menino, arranca da pedra a espada encravada, a mesma espada que nenhum homem feito conseguia mover um milímetro. o rei menino, no meio da floresta, a desembainha da rocha como se fosse brinquedo. coisas de rei.

ex-menino e rei de coisa nenhuma, encontro por milagre uma doçura escondida, condenada para sempre a jamais ver o dia. por encanto ela se abre para mim, eu a sorvo com reverência, a incorporo ao meu corpo, e presto reverências a este momento coroado.

quando o sol se

quando o sol se for e esse azul miraculoso no céu passar, a história é entre quatro paredes, nos inumeráveis e recônditos palcos caseiros, em números anônimos que se repetem noite após noite sob uma lâmpada ou duas, com falas mecânicas e mutismos prenhes, tendo por fundo um mix de histórias em mil línguas, todas muito parecidas, cada uma em um capítulo diferente.

ao sol é como manda o figurino.

os utensílios mais tolos,

os utensílios mais tolos, as máquinas mais estranhas, os sabores mais químicos são todos tão deliciosamente humanos.

um alfinete sozinho responde por todos nós, por tudo o que sabemos, pelo que prezamos, pelas avós, pelas fraldas, pelas barras de calças, pelos alfaiates, pelo inferno metalúrgico, pelos armarinhos, pela extração de minérios, por gerações gritando ui ao furar o dedo, pelas fotos na cortiça, tudo tudo resumido num tantinho de ferro surrupiado das rochas, depurado, surrado, amolado e empacotado aos bilhões para bilhões de mães e mãos e panos.

é tudo muito natural.

carregue um martelo por

carregue um martelo por tempo demais e tudo vai ter cara de prego. carrego uma câmera o tempo todo e quase entro em parafuso. tantos truques pra enquadrar o mundo, tanta ginástica para trapacear com o tempo, tantos chips e lentes e leds e bips... todo esse arsenal e ainda assim o mundo se ri de você. tanta beleza roubada e o mundo ainda te abençoa com pérolas de acaso que você nem merece.

essa é uma sina cheia de graça.

dizem que no mar

dizem que no mar é assim, que no seio daquela massa inquieta correm rios, uns mais quentes, outros frios, águas com rumos certos no meio do que parece uma água só.

aqui fora nas ruas tem rebentação, tem vagalhões. isso é fácil de ver. se você tiver fôlego, se você for fundo vai encontrar águas plácidas com gosto doce, fluindo discretas ao largo dos rodamoinhos.

e dá pra respirar sim. melhor, até.

pra isso que inventaram

pra isso que inventaram relógio, para que acertássemos o passo. tal hora é tal hora, e não se discute. taí o relógio que não deixa mentir.

mentira mesmo é que isso acertaria os ponteiros. as horas que me ardem te passam como brisa.

belo uma pinóia. poupe

belo uma pinóia.
poupe o enlevo e suspiros românticos. a conversa aqui é outra.
isso aqui é uma operação de guerra, essa é uma armadura completa, não um traje de gala. isso são armas químicas, não perfumes adocicados.
como você acha que isso chegou até aqui sem sucumbir no caminho? foi uma luta. e ela vai longe.

em homeopatia há doenças

em homeopatia há doenças verdadeiras e doenças falsas.  as falsas melhoram com uma boa noite de sono. se a doença é verdadeira, dormir piora.

critério simples, bom.  só que para problemas não serve: quando você enfim acorda, nem sempre há remédio.

quando acorda.

estórias, as sem H

estórias, as sem H mesmo, começam num salto, dão piruetas, fazem caretas, tiram coelhos da cartola e acabam num salamaleque, sob aplausos e rosas e apulpos da audiência. estórias são delícias.

histórias com H são coisa pra especialistas sisudos, pra figurões em retratos, pra fulano IV, sicrano III, pra livros de capa dura que ficam lindos na estante.

entre o esqueleto da história e o rosto pintado das estórias eu fico com as carnes tenras, as dobras perfumadas, os músculos firmes da vida diária, a poesia sem rima e sem metro das horas mortas.

há fachadas. eu prefiro o verso.

risos límpidos, gritos agudos,

risos límpidos, gritos agudos, o tropel de passos deve ressoar ainda pelos corredores altos.
gerações passaram ali, se apoiando com pressa nos corrimãos escuros, saltando os degraus de mármore, buscando pela porta vetusta da sua aula.  gerações de pezinhos leves e mãos macias tanto roçaram pelos cantos do prédio que nem a pedra resistiu. arredondou-se: os degraus brancos eram suavemente côncavos, lisos, quase macios, símile frio do colo das mães que ali deixaram seus paulistanos toda manhã por todo um século.

sinetas, o hino nacional em coro, o ruído de uma sala inteira que se levanta ao entrar o mestre.  sons extintos, exceto no peito.

longa vida aos arquitetos, que criam as mãos de pedra que nos aninham vida afora.

cravo as presas em

cravo as presas em mim mesmo a cada dia.  dói, às vezes.  às vezes parece que encontrei, enfim, a artéria escondida, o rio onde corre o que é vivo, o que é rico.

parece, só.  até agora tudo o que consegui foi uma gota ou outra.

o gosto é bom.

o sol está lá,

o sol está lá, ocupadíssimo em ser sol e tudo o que isso implica.  pode chover canivetes que o sol está lá, em tempo integral.

a gente está cá, ocupadíssimo em ser ocupado e preocupado com quem implica.   chove, aliás.

millor escreveu:

sabe o que me comove?
pro sol
não chove

ei-la. em torno do

ei-la.

em torno do meu corpo, na palma da minha mão, no cerne da minha espinha dorsal, ei-la.
a chama poderosa fulgura e dança volátil, colada à minha pele.

quase a vejo, quase a ouço. ei-la.

bem-vindo, milagre dos milagres. bem-vinda, dádiva maior do que eu mesmo.

bem-vinda, e que eu honre esta benção.

tudo parece tão sólido,

tudo parece tão sólido, tão certo. a máquina do mundo avança implacável, bufando e rugindo, cada vez mais veloz.

tudo é tão frágil. fios delicados mantém o circo em pé. o trapezista tem sempre o vazio à espreita. se a gasolina acabar, a luz falhar, o coração engasgar, o dinheiro sumir... pequenos lapsos descarrilham um trem.

não olhe para baixo agora, só pise fundo.

levo comigo essa cidade

levo comigo essa cidade e me é leve. ao menos parece. quem leva quem, afinal?

não sou só eu a trazê-la no peito.  cada um de nós a carrega no jeito, na fala, nos olhos.

se juntar esses fardos todos, o que dá? dá nisso. e que o diabo nos carregue


este é um exercício autoral de rené de paula jr, com textos improvisados a partir de fotos escolhidas da sua galeria.
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