setembro 1, 2003

signo

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

devagar você descobre o que pode um coração, o que cabe, o que transborda, até onde ele vai.
trancos, barrancos, um tombo, outro, noves fora você reconhece o que fica, o que te arranca do chão e o que te traz de volta, o teu centro.

a dois é melhor.




setembro 2, 2003

cada minuto

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

a voz é doce, espessa, risonha, você se lembra dela direitinho e cantarola, hesitando aqui e ali onde a memória falha:

meu amor
por que que todo o tempo
voce toma conta do meu pensamento?
até nos lugares que ando
e freqüento
o teu cheiro chega
vindo pelo vento
(..)
o teu nome sobre os muros
deixo escrito
fica ardendo, me comendo lá no fundo
cada segundo, cada minuto, cada momento

itamar se foi. difícil de engolir, essa.




química orgânica

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

luas cheias amareladas, baixas. a beira do mar na noite calma. meu primeiro céu estrelado pra valer. mergulhos solitários na piscina iluminada. milhões de vagalumes no vale escuro lá embaixo. chuva na mata densa. marolas mornas que te embalam no mar calmo.
coleção de lembranças musical e muda, terna e indiferente, abismos para todos os lados.

na jaula imensa me penduro na grade e estendo a mão. o elefante não hesita e a enlaça com a tromba num gesto delicado e lento. segundos táteis, úmidos, frágeis. dois mamíferos longe de casa, duas memórias de elefante que nunca esquecerão o que alguma câmera de segurança, algum vigia deixou de ver.

essa coisa de estar vivo é um milagre.




setembro 3, 2003

interior

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

comer manga no pé, catar jabuticaba, romãs... uma delícia, ouvi dizer, ouvi a minha infância afora, ouvi de minha mãe, embevecida ela, encantado eu, eu que voltava do parque com as mãos cheirando a aço, com areia nos sapatos, com joelhos arranhados no concreto, eu que dormia tranqüilo a quatro andares dos carros, ambulâncias e motores.

meus pais são do interior. algo em mim, lá no meu interior, também é, com muito gosto.




setembro 4, 2003

la règle du jeu

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

ele tinha acabado de voltar. viagem longa, meses. empolgado, contava do fascínio pela cidade ainda nova, desconhecida, por descobrir.

somos tão diferentes. novas cidades, corpos, tribos, amores...enquanto eu não mapear , não cartografar, não intuir os comos, os quantos, os ondes, os passos da dança eu não sossego, eu não me rendo, nada rende. depois sim, eu nado de braçadas.

todo jogo se aprende. tendo jogo de cintura, bien entendu.




setembro 5, 2003

bela vista

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

aqui no bairro as casas saem pra rua à-vontade, de bermuda e chinelos, algumas com roupas surradas, e se reúnem indolentes vendo a vida passar, os vivos passarem.

aquela ali me viu menino, e só não diz carinhosa "como cresceu rápido!" porque já viu outros crescerem, se curvarem, sumirem do mapa.

elas também têm os dias contados. um dia viram pó, de uma só vez.




setembro 8, 2003

caligrafia

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

tantos descaminhos, tantos desvios e tombos e trechos nebulosos e mesmo assim me pergunto por onde andei nesses anos todos, anos que eu reviro e sopeso e não pesam, anos escritos nos cabelos grisalhos e marcas mas escritos em língua muda, língua sem frases, língua de suspiros e reticências e gritos abafados que se amontoam debaixo dos tapetes, debaixo da pele espessa e assomam sonhos adentro noites afora.

ruas retas, ruas curvas, meus caminhos eu traço miúdo, elíptico, ilegível.




setembro 9, 2003

popular

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

queria mesmo era escrever canções, canções ligeiras que você lembra sem mais nem menos e sai cantarolando sob o sol, canções doídas que se alojam no peito e ninguém arranca, canções tórridas que te levassem de volta, no ato, ao ato mais louco de amor.

canções voam por aí, não ficam marcando passo.




setembro 10, 2003

all-type

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

são quantas letras? duas dúzias? é isso que temos na mão, na ponta dos dedos, é com isso que costuramos nossas tramas, nossos laços, é com vinte e poucas minhoquinhas que cobrimos a terra, entendemos as coisas, driblamos a morte, o tempo, o nada? é com isso que me inscrevo no mundo, na vida dos homens, com um punhado de riscos sem rosto?

se quatro letras fazem todos os DNA's do mundo, um alfabeto deve dar.




setembro 11, 2003

denominador comum

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

some todas as esperas, junte todos os silêncios, as pausas, os trechos de nada entre as coisas que contam, olhares perdidos, as expressões sem expressão e você tem a música de fundo, a trilha básica, o pulso surdo de uma cidade imensa, cidade que não tem fim, que não tem saídas, que se abre para todo lado e se dobra sobre si mesma.

estamos todos no mesmo barco.




setembro 12, 2003

mensagem para você

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

deixei de ir, fui, me esqueci... cada escolha, cada falta de escolhas, cada esquina bifurcou meus destinos, e lá se vai meu coração pra todo lado, um pedaço pra longe, o outro comigo, alguns nem sei onde, todos tomando mil rumos, tocando mil vidas.

às vezes algum coração meu desgarrado dá notícias. os que foram pra longe contam maravilhas, sempre.

devem estar me iludindo. conheço esse coração de longe.




setembro 15, 2003

quando crescer

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

o ano 2000 era um brilho forte a uma distância imensa, brilho imerso na bruma das décadas que faltavam, em promessas da ciência e foguetes e robôs e eletrodomésticos assépticos pneumáticos.

eu fazia uma força danada para me imaginar homem feito, homem de inconcebíveis 36 anos, homem de feitos espantosos? messiânicos? heróicos?

o futuro era futurista, na época. coisa de ficção.




setembro 16, 2003

bastidores

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

o cenário é esse.

uma coisa ou outra mudou, é mais nova, mas de resto é esse o palco. entra peça, sai peça, entra drama, sai tragédia, nascem comédias, morrem palhaços, e o teatro continua mais ou menos no mesmo lugar, aberto sempre, entrada franca e saída gratuita.

é um belo espetáculo. só não tem bis.




setembro 17, 2003

parto

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

as histórias que meus pais me trouxeram de presente da sua infância, da sua juventude no interior, têm recheio de frutas: mangas, jacas, romãs, jaboticabas, coisas doces de se ouvir mas cuja doçura absurda só me encheu a boca décadas depois. décadas.

jacas nascem no alto. melancias nascem no chão. jaboticabas - pasme! -brotam direto do tronco, como se a madeira dura, no esforço doloroso de parir sabores, suasse gotas negras, úmidas, doces.

quem mora em UTI nem desconfia dos milagres na maternidade.




setembro 18, 2003

sólidos

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

- Ciao!

um beijo, um abraço ligeiro na multidão, cercados por carros motos e gente, de pé sobre a calçada no alto do morro, colados ao planeta imenso, girando com o planeta imenso, levados pelo planeta imenso vácuo afora, momento breve e doce em que os zilhões de toneladas avançaram alguns quilômetros no nada, no nada gelado onde coisas imensas rodam ensandecidas.

eu sou muito físico.




setembro 19, 2003

vizinhança

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

sol leve, dia ameno, a rua acorda sem pressa, uma rua com um dia inteiro pela frente, semanas, décadas pela frente, milhares de pedestres pela frente, pedestres com milhares de histórias, pisando em passos alheios e alheios a rua já costumeira, com a cabeça em outro lugar, absortos no que a vida lhes reserva em segredo.

a gente nem sabe onde pisa.




setembro 22, 2003

nem precisa

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

espelho mais inútil esse que insiste em mostrar o mesmo marmanjo, a mesma cara, faça sol faça chuva, esteja eu inteiro ou em frangalhos. não me serve de nada.

de reflexo assim já me bastam os meus: reflexos condicionados, reflexos descoordenados, reflexos irrefletidos.

que eu fico com cara de tacho eu já sei, oras.




setembro 23, 2003

a uma passante

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

sobre a mesinha de centro, diante do sofá, Baudelaire.

apanhei o livro, curioso, e o sopesei, tateei, folheei com gosto, até perceber um marcador de páginas. fechei então o livro e o devolvi ao seu lugar, com o respeito que se deve ao que é sagrado, ao que é alheio, ao que é de alguém que se quer bem.

pena não ter sido presente meu, para poder acrescentar à mão

À UNE PASSANTE
Charles Baudelaire

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d’une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l’ourlet ;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l’ouragan,
La douleur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair...puis la nuit! – Fugitive beauté
Dont le regard m’a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l’éternité?

Ailleurs, bien loin d’ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais!

vale a intenção? espero.




setembro 24, 2003

pelo sim pelo não

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

diante das janelas o consenso é claro: um uníssono de cores e flores cantarola "é primavera" sob o sol de verão que nem se abalou com o inverno.

como ficaram sabendo não sei. minhas estações andam embaralhadas, imprevisíveis, extemporâneas. na dúvida, semeio sempre.




setembro 25, 2003

brancas nuvens

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

logo pela manhã fios invisíveis vibram e me trazem afetos de longe, pulsos de corações ligados ao meu, ligações fortes, mais fortes que distâncias.
ao longo do dia alimento essa malha nervosa com voz, escrita, visões.

nossas raízes são aéreas, etéreas, elétricas, são nossas asas.




setembro 26, 2003

terapia

foto:  rene de paula jr, rene@usina.com

¬ está bem doce, prove!

declinei a oferta. tinha que atravessar a cidade, era tarde.

deixei para trás o ambulante gentil, sua fatia suculenta no gume da faca. eu tinha outros abacaxis pra descascar, ia expor meu cerne ao corte afiado e preciso, ia descobrir o que ainda está verde e o que caiu de maduro.

se é doce? sim e não. mas me faz bem.




setembro 29, 2003

coração dois-tempos

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

brasa boa é assim, basta um sopro, um mero abano e ela arde de novo, se inflama, a caldeira se aquece e lá vamos nós de novo a todo vapor.

quem vê de fora vê suspiros, só.




setembro 30, 2003

out of the blue

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

entre o parque verde e o salão imenso o que há é vidro, couro transparente esticado sobre o esqueleto de aço, pele fina que deixa fora o vento, dentro a vista, e vista daqui a vida é quadro, é tela, a vida é paisagem.

parque e prédio, paredes e janelas, o piso acima do chão, alguém sonhou antes, virou rabisco no papel, virou traço, cálculo, obra.

arquitetos tiram coisas do nada.




Tag Cloud

Powered by Movable Type 4.01