outubro 1, 2003

trilhos urbanos

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

a cidade está coberta de trilhos. você não vê, mas eles estão sob teus pés, correndo ao teu lado, atravessando teu caminho, trilhos pra todo lado onde correm vagões de todo tipo, lotados, vazios.

o que existem são os trilhos.

a cidade veio depois, foi se aglutinando em torno deles, crescendo à sua volta, criando espaço e estações e pátios e definhando quando os trilhos mudavam de rumo.

só tem um jeito de enxergá-los: basta perder o bonde.




outubro 2, 2003

crônica

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

um dia trava tudo, dá um nó e não iremos mais para frente nem para trás, nó cego e final, enfarte público a céu aberto, trombose urbana de aço e vidro. um dia o que era insolúvel coagula.

a profecia é velha, gasta, mas a doença é criativa: virou crônica.




outubro 3, 2003

high wire

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

relendo textos antigos, artigos, as coisas que escrevi ao longo de anos, é difícil crer que algo os costure, que sigam uma linha, que haja um fio condutor por trás dos tropeços, textos trôpegos, tontos, de quem mal se equilibrava na montanha russa de uma corda bamba.

em linhas tortas cada passo é um salto.

sem rede.




outubro 6, 2003

caso perdido

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

sol forte, estrada de terra, mato, muitos verdes, marrons e azul e um silêncio danado, quebrado por risos de crianças e conversas esparsas. um sábado raro.

para voltar, improvisei: subi a teodoro (caótica), flanei com gosto pela benedito calixto, me embrenhei pela bela vista, criando passo a passo um sinuoso roteiro afetivo, uma carinhosa reentrada no que eu chamo de lar, naquilo que para mim é caro.

minha natureza é essa.




outubro 7, 2003

mapa astral

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

espalhados por essa selva há clareiras, fontes secretas, frutos raros que me curam, apaziguam, num mapa esparso em que me encontro e junto meus pedaços e volto a acreditar que meus cacos, meus tropeços, minhas coisas pela metade de alguma maneira se completam, que eu, seja em que direção for, avanço.

é o que me salva. volta e meia me perco.




outubro 8, 2003

meio aéreo

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

eu devia fazer isso mais vezes, parar e olhar do alto esse mosaico, esse arquipélago de mensagens em garrafas boiando em torno de mim, o rastro de visões que alastro enquanto avanço, figurinhas à procura de um álbum, mudas de pele deixadas para trás.

vendo assim de cima não há mensagem nenhuma, há gritos de morcego calculando distâncias, avaliando o vazio, descobrindo o tamanho da ilha pelo tempo dos ecos.

e lá vai mais uma garrafa boiando, levando lacrada uma amostra da minha atmosfera, me livrando de um sorvo mínimo do ar que respirei tanto que nem sinto mais o cheiro.

o que vale são as entrelinhas. é por ali que respiro.




outubro 9, 2003

quase cheia

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

algo mudara.

correndo os olhos pela partitura de luzes e lâmpadas, lendo os sinais nessa festa elétrica, demorei a perceber uma nota prolongada, surda, pano de fundo sutil mas massivo.
algo fazia os edifícios, as árvores e as coisas que a noite engole ganharem volume, volume sem cor nem contorno, algo fazia da cidade um corpo extenso e mudo.

era a lua.




outubro 10, 2003

diferenças

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

sutis as mudanças, delicadas, deleite para o olho atento e a memória clara, percepção carinhosa que reservamos para o que é caro, para poucas caras, poucas coisas, coisas que mudam sempre porque vivem, coisas que mudam porque nosso olho muda, nosso tato, nosso afeto muda.

o prazer é meu.




outubro 13, 2003

peeling

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

deu trabalho chegar aqui. dá trabalho andar desarmado, manter os olhos claros, ter sempre a alma lavada.
peito aberto é questão de peito, é questão de medos, é comprar uma briga inglória a cada manhã.

é o mínimo que posso fazer. lá fora é tudo novo sempre.




outubro 14, 2003

nó cego

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

um nó essa vida, essa cidade, esse emaranhado de histórias. um enrosco.

é só puxar um fio e ele não acaba mais, traz outros embolados, e a ponta solta inofensiva trai uma trama profunda, mil histórias escritas com arabescos entrelaçados, areia movediça em que afundo até o pescoço.
com muito gosto, confesso.




outubro 15, 2003

one from the heart

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

"I'm just a scarecrow without you.." sussura tom waits.
ao fundo uma Las Vegas fake, simulação inacreditável da cidade (ir)real, cidade que é cenografia descarada, colagem, álbum completo de figurinhas luminosas, playground gigante para sonhos pequenos, flor elétrica cercada de nada e areia.

"... you are the landscape of my dreams", continua, intenso.

amor é isso.




outubro 16, 2003

barroco

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

fica a dúvida: quem se desdobra, enfim? de perto as coisas tem curvas, dobras, se bifurcam e não há fim, há sempre um caminho novo, uma guinada, e se paramos é por cansaço, preguiça, porque nosso olho perdeu o pé, perdeu o passo e não acompanha a dança de perto.

olho bom é dançarino. o resto passa por cima.




outubro 17, 2003

14244

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

pressiono o botäo.

catorze mil, duzentos e quarenta e quatro dias, diz a calculadora.

pra ela um número, o final de uma conta que ela apresenta sem pompa, sem festa, sem sinos nem fogos, sem uma longa nota de cello ao fundo.

preto no branco. grandeza sem peso.

lá fora céu azul, sol novo em folha. belo presente. é isso que conta.




outubro 20, 2003

do not disturb

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

lugar pra memórias é na memória, lá atrás, lá no fundo. aqui no front não dá, não tem trégua, você se distrai e pronto: não percebe os sinais, não vê as mudanças, não reconhece milagres.

memórias boas te dão força. as ruins forçam a barra.




outubro 21, 2003

lar

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

impessoal coisa nenhuma. tudo o que se vê aqui alguém fez, muitos usaram, todos se lembram. foram tantas mãos, são tantos olhos, há tantos pés que caminhamos sobre o sonho de outros, circulamos absortos pelo passado de quem, com olhos esbugalhados, ainda ensaia seus primeiros passos.

muito humana esta cidade.




outubro 22, 2003

caetano de campos

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

no contorno do pátio, rente ao chão, aberturas pequenas, protegidas por grade, eram os olhos negros do porão. a escola centenária repousava sobre ele, encobria seus desvãos, seu silêncio, e o porão não tinha fim, crescia conversas adentro, se desdobrava medos adentro na cabeça da criança atenta, capaz de ouvir os ecos desertos, fantasmagóricos do subterrâneo que nos espreitava frio a cada recreio.

hoje não há porões. abaixo, acima, pra todos os lados há vidas, mundos, lares. esse mundo não tem mais verso.

sorte minha carregar meu porão comigo.




outubro 23, 2003

queijo suíço

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

rostos eu fotografo pouco. é um pudor meu. rostos dizem muito, e posso traduzi-los mal.

cidade é outra história: ela está sempre de costas. o que ela tem a dizer, diz entre quatro paredes.

de fora você só imagina.





outubro 24, 2003

caminho de casa

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

passo rápido, sigo adiante, outros passam e seguem seus rumos. de quem é esse lugar? deve haver um dono, um documento, um carimbo qualquer, sempre há. mas a vida daqui vem de nós, de mim, de milhares de almas, dos corpos que aqui passaram e nos pariram e que levaram consigo lembranças particulares desses espaços comuns.

gosto daqui.




outubro 27, 2003

dieta

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

mordo aqui e ali mas não arranco pedaços. esses olhos famintos se contentam com o gosto, com a textura, com o arrière-goût das cores, das sombras, dos reflexos que fogem.

sou uma esfinge de araque, nem decifro nem devoro. o que me salva são esses oásis.




outubro 28, 2003

auto-retrato

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

e se juntar meus pedaços todos, as pistas que eu deixo pelo caminho, meus descaminhos? os retratos que faço me retratam?

eu duvido. quem chegar a alguma conclusão, me avise. pago pra ver.




outubro 29, 2003

atalho

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

me perdi de novo. pior: já me perdi aqui antes, muito, nesse mesmo imbroglio de ruelas e becos e gente feliz nas praças, os muros, cães. cá estou eu de novo, pesadelo 3D num cenário de sonho, de onde não aprendo a sair nunca.

eles acham o bairro lindo. eu não acho nada.




outubro 30, 2003

primaveras

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

é outubro e um manto delicado de cores e flores veste a vista, o chão, chuva silenciosa e calma de amarelos e roxos, pinceladas leves na tela cinza, moldura festiva para dias corridos.

dura pouco o luxo. o resto do ano essas árvores sisudas passam preparando o ataque, enquanto eu, você, nós todos espalhamos nossas sementes e searas asfalto afora.




outubro 31, 2003

nosso chão

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

talvez não haja cidade, talvez o que há sejam caminhos e mais caminhos sobrepostos, trilhas que milhões compartilham a cada manhã, trajetos tão colados um ao outro que se adensaram em vias, em asfalto, viadutos, concreto destilado de milhões de sonhos e suores, que se cristalizou nas bordas das nossas vidas.

leve esse povo pra longe, e nasce uma cidade igual.




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