quem é vivo

sei lá eu onde ponho o coração. quando menos espero, quando eu nem atinava que ele estava ausente, ei-lo diante de mim, palpitante.
eu deveria perguntar "como vai?", "onde andas?", mas é melhor não. quem anda desgarrado sou eu.

sei lá eu onde ponho o coração. quando menos espero, quando eu nem atinava que ele estava ausente, ei-lo diante de mim, palpitante.
eu deveria perguntar "como vai?", "onde andas?", mas é melhor não. quem anda desgarrado sou eu.

demorou, mas houve avanço. para quem não sabia onde isso ia dar, pra quem hesitou em começar, finalmente uma resposta: não haverá respostas. não tem quem responda, aliás.
as perguntas estão melhorando, e é isso que conta.

virei na rua errada, acho. ou melhor: perco-me.
uma esquina em falso e entro num labirinto só de saídas, guiado por placas que não dizem nada, lado a lado com quem nem sabe, mas sabe aonde vai e de onde veio.
defeito estranho, esse. uma guinada rápida e, em mim, os mapas voam longe, meu norte sai rolando, o código das placas se perde. adeus referências, olá concretude, olá paredes e ruas e gente em estado bruto, absoluto, sílabas soltas de uma língua estranha, notas sem partitura, foto irrequieta sem qualquer legenda.
uma direção errada e pronto, adeus sentido.

o que ouço é a canção.
chuva, motor, outros motores, buzinas e freios esperneiam mas ficam lá fora, são cobertos pela manta aveludada e quente da música alta.
dirijo mecanicamente, automaticamente, a mente vazia boiando solta em marolas mornas de som.
pra corações famintos colos falsos servem bem.

reviro minhas memórias, escancaro as portas do peito, mas o que eu busco, enfim? algo profundo, esquecido, alguma chave mística que explique o que não se entende e que abra todas as portas?
talvez nem haja fundo, talvez a chave seja a procura, talvez a busca me abra outras portas, portas que dão para portas e mil tesouros que eu nem sabia.
pelo sim, pelo não vou arranhando a superfície. não páram de surgir outras.

por isso circo tem graça.
o trapezista se lança, impávido. no meio do nada, mil fôlegos suspensos, saído do nada um trapézio solto o recebe, grácil, e balançam adiante.
aqui fora malabarismos são tensos.

¬ um coração?... agora que você falou, sim.
que bom que falei, então.
que bom que eu passava ali, vi, parei, cliquei, e que essa fatia, esse bocado de manhã de primavera não seja privilégio meu, não tenha escorrido pelos meus dedos e olhos pra sumir na memória.
um coração? agora que falei, talvez.

ele riu, eu ri também. ele ao volante, eu passageiro, no céu lá longe (onde?) nuvens negras, aqui o trânsito até que bom para essa hora da tarde.
"cada um é cada um", acrescentou sorrindo. há trinta anos aqui e ainda sonhava com mato, fazenda, céu com estrela.
há 39 anos aqui e ainda sonho com elevadores e botões e paredes em labirinto, sonhos que quase não mudam desde que me lembro por gente.
eu sonho em alvenaria.
ele achou graça. eu também

algo deve estar acontecendo. hiatos assim, pausas abafadas e longas, esses silêncios de conversa miúda parecem sinais de algo, prenúncios, como se os dias prendessem o fôlego.
devagar sombras se alongam, se entrelaçam, criam corpo.
logo viram noite.
enquanto isso, é lusco-fusco.

nos dias bons os badulaques na memória se encaixam todos e os descaminhos e tombos parecem acasos felizes, pinceladas soltas num quadro aprazível.
bom-humor é retroativo. mau-humor, então, nem se fala.

nos olhos de quem vê, na pele de quem toca, na língua de quem prova é que está o gosto. gozos vêm de dentro.
em nervos frouxos, no peito seco um jorro de vida logo seca. se por dentro é primavera qualquer sopro é sinfonia.
primaveras, invernos, alma paulista pena sintonizando estações.

difícil não colocar semanas na balança, não cobrar de cada dia uma pérola, um ganho, um avanço, algo que dê pra contar nos dedos, algo que pese na palma, para que no fim das contas o tempo que foi não pareça vão.
tesouros tem todo dia, o que complica é que dias não prestam contas.

concreto é duro, asfalto idem, o ar é gasto e o pó não pára, mas o cinza que se lixe: o que é vivo dá um jeito, transparece, e lança pétalas pra todo lado.
alegria salta à vista.

prendo um fio aqui, estico um outro, costuro rombos com laços e quando dou por mim eis uma teia delicada no ar, estendida, teia que vibra ao menor toque, malha que o olho mal vê mas meus nervos sentem, cordas finas e longas que às vezes vibram, às vezes não, imprevisível orquesta de cordas que nem sempre tem conserto.

quero mais tardes assim, quero esse céu e sol e gente na rua, ninguém me esperando, clareira inesperada na selva do dia.
sentei junto à janela, bebi algo, tirei uma foto de mim mesmo para reter de alguma forma esse presente tão caro.

fica a dúvida se o cinza vem de fora ou vem de dentro, se é uma sangria de cinza que cobre os olhos, se é uma infiltração de cinza direto na aorta, nuvens cinzentas que vêm e ficam.
deve vir de dentro. os outros não têm nada a ver com isso.

a orquestra abre, hipnótica, e ela entra:
you go to my head
and you linger
like a haunting refrain
e tudo em volta some em fumo denso, perfumado, incenso da voz forte que te abraça feito cobra imensa, lenta.
you go to my head
with a smile that makes my temperature rise
like a summer with a thousand julies
me enrosca que eu gosto.

olho bandido que vira de costas e me mostra o que está no fundo, o que está longe, o que nunca foi mas parece tanto. olho descarado.
preciso olhar de frente, olhar nos olhos. senão eu perco a trama.
bis? só na tua cabeça.

"escreva desfeitas na areia, escreva nobrezas em pedra".
das minhas leituras de infância - tantas - algumas páginas soltas vêm, olham em volta e então voltam lá pro fundo, felizes por enfim fazerem sentido, por terem contribuído, terem feito seu papel.
repousem em paz, páginas, e me abençoem sempre.

de um galho a outro é um pulo, um cipó, um tombo.
essa selva você conhece, já sabe onde os frutos se escondem, já sabe onde se esconder, e se pendura aqui ali e acolá com mãos, pés e tudo o que puder segurar as frágeis pontes aéreas que são teu mundo longe do chão.
andar a pé é andar pra trás. eu nasci meio aéreo.