que remédio

preciso disso, dessas tréguas e paz que só o front me traz, o caos, a turba.
preciso ser mais um no inumerável, preciso da avenida para ouvir meu peito.
para mim caos é preciso.

preciso disso, dessas tréguas e paz que só o front me traz, o caos, a turba.
preciso ser mais um no inumerável, preciso da avenida para ouvir meu peito.
para mim caos é preciso.

dois caminhos se cruzam, os caminhos viram trilhas, viram ruas, e de tanto cruzarem nasce uma esquina.
placas são postas, criam-se regras, sinais, a esquina aparece nos mapas.
caminhos mudam de rumo, e não se cruzam mais.
placas e mapas ficam completamente perdidos.

sol nulo dos dias vãos
cheios de lida e de calma
aquece ao menos as mãos
a quem não entras na alma
(...)
de qual Pessoa é mesmo? não me recordo.
sei que sei de cor, by heart, par coeur, está gravado nesse coração sujeito a instabilidades no decorrer do período.

cães marcam postes, formigas marcam o chão, lesmas deixam um rastro, e eu me pergunto aonde chega quem segue minhas pistas, os meus sinais.
tomara que se percam. sinal de que entenderam bem.

mais um dia em branco para eu rabiscar sem pressa, prolongar esboços e repassar a mesma linha torta na esperança de que tudo endireite, que eu mude de página, mas minha letra é miúda, elíptica, apressada, coisa de quem escreve sem pauta num tempo de poucos floreios.

divisores de águas são assim, mal dividem e as águas apagam o corte. olhando para trás nem se vê onde começou e acabou o talho.
dói, claro. ficam marcas, tateando você acha. mas vamos nadar que a correnteza é forte.

eu devia tatuar isso no peito, nos ombros, na palma da mão para carregá-la comigo, para tê-la diante dos olhos e mantê-los límpidos, claros, lúcidos.
eu devia pendurar no pescoço de uma vez, para não esquecer nunca.
eu a carrego na memória, tatuada nos nervos, vívida nas narinas, na ponta da língua.
mesmo assim ela me falta.

um circo inteiro de malabarismos e saltos, a mágica de se serrar em dois, cortinas de fumaça coloridas, tantos truques.
mas há de haver quem veja fundo, quem veja a pele, carne, nervos, quem enxergue o coração do homem-bala, dando tiros pra todo lado.

aqui e ali, num táxi, cortando o cabelo, é só puxar o fio que vêm histórias vividas, vívidas, pintadas em cores de outros tempos, cores de um tempo mágico, tempo em que havia tempo, espaço, e onde o mundo acabava ali.
como diria millôr, haja hoje pra tanto ontem.

minha rua sobe sem pressa e desemboca na Paulista, e é aí que sinto: estou na rua. só na esquina é que tenho horizonte, perspectiva, que vejo ao longe e do alto. é aí que eu penso pra onde ir.
eis-me na esquina, parado. diante de mim a parada do mundo .
quando o sinal abrir vou ter que me virar.

desço a ladeira, absorto, pés e pernas momentaneamente mais importantes que o resto, o mundo inteiro momentaneamente leve.
sobre os ombros peso nenhum, apenas músculos elásticos dando conta da descida forte, do calçamento irregular. gravidade e equilíbrio.
mais alguns metros e haveria a rua a atravessar, voltar a ser eu entre meus, logo mil implicações e desdobramentos se ligariam de novo numa teia intrincada.
no peito, porém, uma clareira com sol.

um pássaro canta, distante. outro - diferente - gorgeia. silêncio. agora vários.
silêncio é modo de dizer. mesmo aqui no alto sussuram motores, pneus, mas isso nem conta.
já esses passarinhos, invisíveis e distantes, contam tanto.
devo estar sorrindo levemente.

de fora vêm ruídos, ventos, alguma correspondência por baixo da porta. mais cedo ou mais tarde eu ponho o pé na rua de novo.
por horas a fio correm entre meus dedos dezenas de emails, amigos, telefones, mensagens.
salvo por um fio. de cobre.

não tem saída. o tráfego não transita, coalhou, aglutinou carros e ruas num cabo-de-guerra empatado, um zero-a-zero resignado de motores e lata.
não tenho pressa. desço, tomo um café, flaneio. não estava indo a lugar nenhum mesmo.

vendo de longe deve fazer sentido. de longe ou do alto, ou daqui a décadas.
deve haver um ponto ideal de onde se enxerga o contorno, o desenho, uma linha que seja.
aqui embaixo até o vento perde o rumo.

cores lavem meus olhos, cores me lavem a alma, cores me lembrem que é novo em folha o que tolos sabem de cor.

não, não está na cara. na cara tem outras coisas, marcas rasas, rasuras, rabiscos que o tempo fez.
dá pra ver sim, mas por tabela, pelas pistas encobertas, nos tiques que me traem, pelo jeito que manco para não pisar nos calos.
dá pra ver no instante breve antes da cortina de fumaça, pela engolida em seco antes do chá de sumiço.
um dia eu consigo e me pego no pulo.

nas pedras da rua (cada pedra de um jeito, cada rua uma rua) o pé se firma como pode. parati é peripécia pé ante pé.
os ouvidos se aninham logo entre pássaros e chuva, o nariz volta a ter sentido, o tempo passa a não passar.
já os olhos... esses perdem o pé, mal sabem onde pisam, diante de tantos séculos só sabem engatinhar.
o que eu aprender posso levar de volta?

há dias que não contam, dias-trégua. há dias que tanto faz.
e se esses dias estiverem grávidos, incubando segredos? um dia desses descubro.

aí está. nem empacotei esse ano e o novo já me vem assim, desembrulhado, desenxabido, suculento.
os detalhes não são claros, mas isso é detalhe: as sementes andaram debaixo do meu nariz esse tempo todo, já sei no que vão dar.