passando hoje e tantos outros

passando hoje e tantos outros dias pela Paulista na redoma do meu carro, deslizando quase automaticamente por um cenário que sei de cor com os ouvidos embebidos nos meus cd's de sempre, esqueço fácil o curto período em que eu tomava banho de gente.
banho de gente bom mesmo era no final do dia.
antes de mergulhar por inteiro no rio de gente eu tinha meio quarteirão de bela cintra para me esquecer da assepsia anódina do escritório e ir sorvendo aos poucos os ruídos, os motores, a pressa, para enfim entrar na Paulista e nadar multidão adentro rumo ao meu apartamento silente.
se você tem olhos sedentos, se teus ouvidos são alegres, a embriaguez é certa. fisionomias as mais improváveis, fragmentos de conversas, tiques, perfumes baratos trejeitos, risos, esbarrões, a passagem negociada mudamente, a coreografia intrincada da multidão, e risos sonoros, pérolas soltas na massa móvel.
ambulâncias e sirenes, freios e arranques, britadeiras e ao fundo a mistura indistinta de milhares de passos e vozes e escapes e mais sirenes. e os olhares-relâmpago, os olhares mais longos, olhos dançando de rosto em rosto, rostos que talvez nunca se vejam mais.
voltar a pé naquele tempo era a minha night at the opera.



































