botânica

abrir, descascar, arrancar pele fresca, lida penosa peito adentro para encontrar a semente, para ser mais fecundo, para deixar mais frutos.
bom que haja polpa e doçuras e flores no caminho. ainda estão meio verdes, mas sabem bem.

abrir, descascar, arrancar pele fresca, lida penosa peito adentro para encontrar a semente, para ser mais fecundo, para deixar mais frutos.
bom que haja polpa e doçuras e flores no caminho. ainda estão meio verdes, mas sabem bem.

dias longos, sem pé nem cabeça. vésperas do quê?
na verdade não há suspense, estou suspenso, cabeça e pés. e só.

dias longos de trégua, de calma, tardes iguais numa cidade vazia. nenhum compromisso à vista nem gente à vista, nada.
que bom que acabou. minha alma eu lavo é na rua.

sim, semeei. sim, arei reguei e mantive as pragas longe, sim, eu sei o que fiz sob sol, sede, solidão. mesmo assim, quando é primavera e o que é vivo desabrocha no deserto, tem gosto de milagre sempre.

- estou falando sério, eu disse rindo.
sina mais sem graça, a de ser sério. ninguém leva a sério.
sina é assim: leve ou não, vamos levando.

páginas não vêm em branco. páginas nunca viram, não são portas para se fechar e passar a chave, nem são pontos pontos finais. toda linha nova é ponta de novelo, é fio de trama.
se olhar pra frente, porém, o lápis só vê novos mundos.

bem-vindo ao retrato de dorian gray em asfalto e cimento, bem-vindo às chagas escancaradas e às sujeiras expostas, bem-vindo à deselegância.
dizem que há beleza e luxo, paraíso oculto atrás de mil portas, palco secreto perdido em um caos de bastidores.
prefiro assim. meu lar é a casa das máquinas.

ofereço o que eu tenho, ponho na mesa, dou de bandeja minha safra e meus frutos e aguardo que me digam se está verde, se passou, se a estação não é essa ou, pior, que ainda estou longe de achar meu lugar ao sol.

o que é belo aqui alguém fez, alguém trouxe. tudo por aqui veio de longe por mil caminhos.
meu avô diria, solene: "a mão do Homem!".
de muitos homens, digo eu, homens e mulheres, vivos e idos.

segunda? terça? preciso pensar duas, três vezes para lembrar o dia, dificuldade que se estende aos meses, anos, datas.
horas eu sei sempre. sou pontualíssimo praticante. o problema são os tempos distantes.
tenho miopia afetiva. o que é longe fica flou.

obra aqui emenda uma na outra, mal surge um colosso cai um quarteirão inteiro. dá-lhe crateras, gruas, terra rasgada, desordem e progresso.
sina meio fabril, meio febril.
saúde aqui é essa febre.

televisão, antes, "pegava".
o canal 5 pegava bem, outros não, e você ia girando as antenas compridas buscando uma combinação mística que fizesse triunfar o sinal sobre o chuvisco.
televisão tinha fantasmas. televisão ficava pulando enquanto você suava em busca do equilíbrio impossível no botão VERTICAL.
televisão era como a Graça, algo que ia e vinha por razões extra-humanas. televisão você acreditava, mesmo que absurdo.
eu saio do ar ás vezes.

tudo à minha volta me reflete, espelhos, paredes, livros, tudo. olho em torno de mim e o que recebo em torno é o que eu fui, o que eu fiz, o que pareço ser.
preciso sair. preciso escapar dos reflexos condicionados.

a questão toda não é se é ou não é, ou se é isso ou aquilo. importante é o que dá para fazer, aonde isso leva.
verdadeiro ou não é tema para quem gira em falso. para quem salta, qualquer galho é trampolim.

debaixo do asfalto, dos prédios, pessoas, o que havia? ainda há?
o que pro meu coração é solo não é terra, não é pedra, é destino escrito em cimento, reescrito em concreto, rasgado com máquina.
a selva de pedra se leva no peito.

nada é meu aqui, exceto o que vai nas malas, no bolso, no hard-disk da máquina. nada nada nada. nesse mundo aqui eu caí do céu.
onde eu for, vou pegar o bonde andando, vou pegar o filme no meio.
bela lição de geografia: descobrir minha fronteira me perdendo em desertos.