em boas mãos

ando rápido, passo firme, seguro.
minhas pernas sabem onde pisam. com elas estou em boas mãos.

ando rápido, passo firme, seguro.
minhas pernas sabem onde pisam. com elas estou em boas mãos.

a algaravia. a azáfama. o burburinho. os pedaços coloridos de conversas e risos, os motores que passam, o ronco rouco e constante dos ruídos sem dono.
essa cidade eu conheço de ouvido.

sei onde dói. meus calcanhares de aquiles eu conheço como a palma da mão, mão que sei fina, mão com marcas mas sem calos, mão que mal cabe em si.
falta saber o que me move, o que me nutre. o jeito é ir tateando atrás de luz.

deu tempo de tomar banho de ouro, de lavar no âmbar de luz meus olhos queimados, deu tempo de mergulhar nas marolas mornas do sol amarelo, sol que se vai depois de um expediente tórrido e seco.
que bom que deu tempo. já não era sem tempo.

eu me distraio fácil. basta algo me roubar o foco e pronto, só vou dar por mim nem sei quando.
é assim que eu me perco: achando mil coisas.

quase dá pra ouvir o reloginho, a máquina oculta em cada fruta criando açúcar em câmera lenta, num fogo brando sem fumaça, perfumado.
com frutas há que se ficar atento. ou você a pega no pulo, ou fica pra próxima.
com outras coisas também.

no caminho é tanta gente, são tantos rostos e mais rostos e gente absorta andando apressada, mosaico irrequieto de corpos opacos avançando sob as poucas luzes, luzes que mal dão conta de tantas frestas e esquinas quando a noite sobe do chão, sobe pelas pernas, paredes, até o céu onde nuvens alaranjadas emolduram o quadro.
deve haver outros caminhos, mas esse me faz bem.

chove, e ponto.
por aqui às vezes "chove!!!", dependendo de quando "choveu???", mas hoje a chuva tem reticências, veio sem hora de ir, veio e foi ficando e já nem me lembro mais de como era sem ela, antes dessa água fina me lavar a memória e desbotar meus olhos.
o ruído dos pneus molhados, o sussuro nas lajes vizinhas, o batuque broxa em calhas e poças.
na manhã pontuada por chuva, sorrio entre parênteses.

portas fechadas, portões fechados, vitrines, lojas, a cidade inteira te vira as costas e te deixa na rua, na chuva, alma penada entre semáforos tolos sobre vias desertas, com as gotas frias a te enxotar daqui, a te mandar de volta.
vazia, a cidade fica intransitável.

quisera fossem refrões, estribilhos, versos leves que retornam e dão fôlego a uma música longa, que dão graça e ritmo e trazem gosto fresco, ou repeteco de rimas em que a memória se conforte quando não lembra direito a partitura complexa.
antes fosse. meu medo é que seja um risco no disco.

madrugada. quatro e quinze no relógio. madrugada e uma idéia incômoda afugenta meu sono: e se esses vôos não forem vôos? quem disse que deixei o ninho? tanto bater de asas, tantos mergulhos no nada, pousos forçados... o que parecem cacos de mim talvez sejam restos da casca, talvez ainda haja muito céu pela frente, talvez me falte envergadura.
custei a dormir.

o terreno firme ficou para trás. as placas sumiram, as luzes idem, e eis-me de novo engatando o cérebro em 4x4 para atravessar atoleiros, para sair de buracos e abrir trilhas, criar atalhos onde só havia mangue, mato, para trazer à luz o que não estava no mapa.
que sina, essa. vai ver é por isso que me sinto perdido.