
nenhuma foto nova. nada. não que não haja nada novo à minha volta. meu coração é que está longe e levou meus olhos junto.
em piloto automático eu só ando em círculos.

nenhuma foto nova. nada. não que não haja nada novo à minha volta. meu coração é que está longe e levou meus olhos junto.
em piloto automático eu só ando em círculos.

a maldita ausência fica ali, me encarando.
nas horas sem graça, nas horas iguais, ela me fita, atenta. não tem nada a dizer a não ser: "não estou aqui". ela sorri, então.
e sigo eu, com uma cratera nas costas e lava no peito.

a luz amarela volta a piscar: coração entrando na reserva, alegria entrando no vermelho. minha energia requer recarga.
reduzo a marcha até abastecer de novo? se ao menos soubesse quanto falta.
na dúvida piso mais fundo para chegar mais rápido. seja onde for.

o corpo sabe o que faz, ou pelo menos parece saber quando desperta elástico, disposto, como se o dia adiante fosse uma aventura viril, ensolarada. mil peripécias.
tolo ou sábio, é o companheiro que tenho. vou dar-lhe crédito.

na cara um vento vivo, fresco, forte, vento como alguns abraços, como uma certa pele, fresco como o riso conjunto, como estar junto, muito junto.
vento me varra a poeira, vento me limpe o céu e me traga de longe o que carrego dentro de mim, sempre.

não sei como começa. quando percebo o mundo perdeu o pé, perdeu amarras, e flutua como um balão, como uma bolha redonda e fechada.
não sei como começa. sei que para prender de novo o mundo só com a força de mil laços, nós, fios frágeis e nervosos que me trazem de volta, que me enquadram na trama e me dão contexto.
não sei como começa. a razão simplesmente me escapa.

já fiz isso. engoli meu coração em seco, o camuflei, congelei, e segui nos tiroteios, desertos secos, em saltos sem juízo. já fiz isso, e adoraria aprender outra saída, outro truque, dava tudo para não vê-lo de novo hirto, murcho, e morrer de medo de que agora não tivesse volta.
um dia dá errado. um dia meu nome-sina perde a garantia.

mais um pouco e o sol nasce. dez horas num avião pra duas horas de descompasso. dormi no outono, acordo em primavera. milagres movidos a jato.
nesse peito movido a válvulas primaveras são bruscas, imprevisíveis, exuberantes.
nem preciso de jatos para mudar de estação: basta achar meu sol.

eu encontro comigo o tempo todo. um eu ficou naquela esquina, o outro naquele peito, e acho que me vi de relance no fundo da memória de alguém que eu mesmo não lembrava mais.
são estranhos os reencontros. nem sempre me reconheço.

idéia estúpida, imperdoável, a de colocar na bandeja peças soltas do meu quebra-cabeça e esperar que alguém as monte, as encaixe, que faça desses cacos um mosaico que me espelhe.
coisa de idiota achar que um dia uma das peças (tantas) ache encaixe em vida alheia, e que eu caiba num quadro em que nada mais falta.
precisei me desmontar todo para descobrir esse vício. não era essa a intenção, mas tá valendo.

sim, eu sumo. sumo fácil, sumo ligeiro, viro fumaça num jogo de espelhos, de cacos de espelhos girando no vento. é como eu contorno: perdendo o contorno.
antes fosse truque barato. sai caro, ser volátil.

as cores perdiam o viço, o brilho perdia o brilho, e só por carinho póstumo eu guardava as conchinhas pálidas, quebradiças, que por saudades do mar viravam areia.
ainda tropeço em pérolas, ainda teimo em trazê-las para casa, e agora sei como salvar suas cores.
freezar natureza-morta é mole. duro é manter a vida viva.

ou não, talvez o caminho não dê voltas nem tenha volta, talvez a retidão pra valer esteja nas dobras, cantos, nos saltos, nas curvas fechadas que se abrem quando solto os freios.
vai ver esse sonho de um centro seja quimera, seja querer eqüidistância de todos os pontos.
ficar no centro é pra quem não se envolve.

e eu que queria o fio desencapado, eu que queria beber da seiva, eu que queria ver fornalhas mal passo da casca, mal arranho esse verniz espesso, verniz que foi fundo nas minhas dobras e falhas, verniz que me faz polido até quando ferido, cortado, desfeito em cacos.
antes eu girasse em círculos. círculos têm centro.

andando com minha mãe, no centro, cercado de pernas e joelhos e valises e vitrines altas demais, eu avançava intrigado: o que eram aquelas grades no chão, grelhas sobre espaços escuros no subsolo? aqui e ali, entradas secretas pisoteadas por milhares de cidadãos apressados.
do mundo profundo vinham silêncios estranhos, ressonantes, vinha vento frio. algumas sopravam quente e forte, rugiam, narinas de aço de uma cidade oculta.
mistérios sob o chão, mistérios por trás de portas (tantas!), mistérios em andares de elevador em que eu nunca desci.
cresci cercado de entradas, passagens, universos atrás de frestas.
minha natureza é essa, minotáurica.

lá vamos nós de novo selva afora, selva adentro, ganhar o dia e voltar com a noite. lá vamos nós.
são tantas tribos, tantas línguas, tantos mundos que não são o teu, que fechar a porta, na volta, ganha um sentido profundo.
fechar a porta lava a alma antes de entrar.

gente entra na vida da gente, vem, sai, gente que sabe onde vai, gente que te ensina caminho, com uns você se perde de vez.
roda roda roda, volta pro mesmo ponto, quilômetros rodados sem avanço aparente, a não ser nesse quebra-cabeça que ganha todo dia mais peças.

as manhãs são minhas.
de manhã vejo o dia do alto, olho os caminhos do dia se estenderem até a borda da noite.
tomando chimarrão ao som de pássaros e cães e motores distantes avalio o que me aguarda dia abaixo, os barrancos, os buracos, a selva.
de manhã tudo parece tão claro.

concentrado em deveres, atado ao monitor, percebo de relance que lá fora está lindo, lindo e irrepetível, lindo e fugidio.
não hesito. vou à janela, abro o vidro e dou de beber aos meus olhos sedentos, a esses olhos que me pedem tão pouco, olhos mudos que mostram o que querem aos relances, de esguelha, e esperam que enfim eu perceba e lhes dê de comer.
olhos, pele, coração. tenho que lhes dar ouvidos, tenho que lhes dar na boca.

passo tanto por aqui, faz tanto tempo.
tudo mudou tanto que nem me lembro como era, ou como fui. anos e anos e somos ainda, eu e a rua, estranhos e íntimos.
cara a cara com milhões de caras, atravessando em braçadas esse rio de carros, eu, só, rio.

o asfalto tem buracos, paredes têm buracos, por todo lado há frestas, trincas, feridas abertas na pele espessa e cinzenta de cimento e betume.
a cidade tem becos, dobras, tem camadas encavaladas, enclaves, ilhas.
por aqui ou você olha onde pisa ou é um solavanco atrás do outro.

se juntar esses cacos todos, as pétalas e flores que espalho pelo caminho talvez formem um retrato, talvez um mapa, ou quem sabe - quem me dera! - uma canção.
talvez não formem nada, não informem nada. vai ver - que ninguém nos ouça - eu não digo nada, penso alto. e só.

lua baixa, céu profundo, a noite é quente.
o mundo até se esforça, mas haja poesia para a hora do rush, para o avanço sofrido, para sinais e freios, vermelhos e setas.
nessa vida non-stop a gente perde qualquer escala.

escrito assim, preto no branco, parece claro. as palavras são de todos, qualquer um entende, qualquer um poderia ter escrito.
tinta sai das fábricas aos galões, papel não falta, e aquilo que saiu do peito gota a gota, aquilo que fluiu da esponja da memória vira um riozinho a mais no oceano turvo das letras. teu destino único vira mais um.
articular em palavras desarticula a voragem.