c'est ça

não tem o que espremer de dias assim, é o que tudo à sua volta grita.
resisto como posso, e reviro minha cartola procurando por coelhos.

não tem o que espremer de dias assim, é o que tudo à sua volta grita.
resisto como posso, e reviro minha cartola procurando por coelhos.

palavras mágicas, encantamentos, amuletos. talvez seja isso o que eu faça, talvez seja tudo uma dança da chuva na secura do nada, tirando do peito oferendas para que venha a água, o verde, cores, para que chovam milagres, para que reine a primavera de novo.
às vezes nem eco vem.

distância é distância, não tem palavras que vençam, não são linhas soltas, esparsas, que vão cobrir o abismo.
distância engravida entrelinhas, distâncias não morrem nem quando você volta.

tão longe lua, tão longe estrela, tão fundo o abismo negro do céu sem nuvem, e mesmo assim a noite é mais nossa, o mundo fica de bom tamanho, o chão parece mais firme.
nada como Nada para dar escala.

o sol está aí, firme e forte. todo dia tem. ontem teve lua, esplêndida. à noite ela volta.
deveria bastar, mas não. devo estar vazando em algum lugar.

não importa. se eu disse algo, esqueça: o pé descalço na grama úmida, a terra sob a pele, as risadas boas na noite calma, o que mais importa?

logo eu parto. é um dia como outro qualquer, como o dia em que vim, um dia que vai bem, obrigado. até mais ver.

prazer assim a gente abraça forte, sem palavras, aperta contra o peito e esquece o tempo.
prazeres assim pairam, flutuam mansos, trégua doce na correnteza, cessar-fogo no tiroteio.
prazer assim a gente abraça forte.

rostos, tantos, brisa boa de feições amigas, olhos que reconhecem e retribuem o sorriso, aritmética fácil de mil parcelas que se somam e fazem de um dia um bom dia.
bom dia para todos nós.

era chinês, o artista, só podia ser. as roupas magníficas, o rosto imperturbável enquanto pratos giravam em varas longas apoiadas no queixo, nas palmas, proezas além da física, além do físico compacto, fluido, exato.
adorava circo, adorava as cores, o extraordinário, meu coração suspenso voando com trapezistas, saltando sem rede com acrobatas impávidos.
podiam ensinar alguns truques. hoje me fazem falta.

por aqui é assim: você anda rente, roçando o espaço alheio, vidas alheias, corpos alheios, que por fim nem tão alheios são de tão difusas que são as linhas que separam meu destino do teu, destino múltiplo escrito em linhas finas de um tapete mágico, pairando leve sobre tanto asfalto.

solidão ensina pouco. tudo parece mais claro, teu gume parece afiado, o contorno é cristalino, lições tão úteis quanto jogar sozinho um jogo que você inventou. assim não vale.
solidão não me alimenta, é no máximo amargo remédio.

uma coisa é se despir só, outra é se despir para alguém; mas como é ficar a nus de olhos vendados, sem saber quem te vê?
a questão é falsa, porém. há quem tenha a chave, a senha, olhos de raio-x que desarmam disfarces, que ignoram meus truques, e beba direto de fontes que nem eu sabia.
a questão para mim é outra: as fontes novas, os novos veios, as veias, já estavam lá? meu medo é que não.

céu limpo aqui é porque chuva lavou. sol, azul, calor, e lá vem água de novo, implacável, punição maior que o gozo.
o quadro aqui é esse, meio óleo, meio água-forte.

vento nenhum. nenhuma corrente. horizonte igual, adiante e em torno.
numa calmaria assim acharam o novo mundo. balela.
o jeito é remar, e manter a razão acima da linha d'água.

tantos altares eu tenho espalhados, relíquias, ícones, meus ritos secretos onde lavo a alma e saio bento, cartografia de milagres e graça.
inferno é perder o mapa.

o abismo está aí, bem debaixo do teu nariz, dos nossos narizes que nem sentem mais a evidência acre, a presença obscura da desrazão.
quem está no bonde nem vê os trilhos. quem descarrilha, menos ainda.

abri o envelope enorme, tirei a folha escura, larga, e a olhei contra a lâmpada, decifrando nos negros e cinzas o que o raio-x achou no meu peito.
pfff... nem sinal da voragem, da labareda, da bocarra escancarada e voraz, da minha gula. nada a nao ser sacos cinzentos e mudos, sombras chapadas de carne e de ossos.
dane-se a imagem. prefiro minhas mil palavras.

fique com a sala de estar. não vim a caráter.
meu caráter é outro, meu prazer é a cozinha, a coxia, a casa das máquinas. meu prazer é fazer.
quanto a ser e ter, deixa estar.

coisas mudam. você muda. mudar é verbo que se conjuga tanto que não há sujeito que agüente firme até o ponto final.
essa cidade é gerúndio.

você vira a página, fecha a porta, empacota o passado mas os vazios continuam lá, vazios sólidos, densos, calvário de momentos sem fim, sem finalidade, buracos estanques no queijo suiço da lembrança.
passado não se põe na balança: o peso de tantos nadas não tem nada que compense.