maio 3, 2004

contas

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

o que te ensinam são contas que fecham, dois e dois que dão quatro, um x da questão que resolve o problema. fica por tua conta lidar com a diferença, com os pontos fora da curva, escapar de conjuntos vazios.

desafio mesmo é dividir o que se tem incomum.




sinal de ocupado

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

as coisas têm mais o que fazer. esperar que elas te digam algo é perda de tempo.

se o mundo parou para te dar um toque, é sinal de que você precisa de um.




maio 4, 2004

(un)happy few

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

deixe o rei nu, dispa a corte inteira, circule com uma faca no peito. ninguém se abala.

novelas diárias roubam a cena de qualquer espetáculo.




maio 5, 2004

sem título

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

horas sem peso, medos sem nome. não sei onde vim parar. caí fora do mapa.

parece que topei com um pedaço de bom caminho. até que enfim.




maio 6, 2004

de duas uma

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

as mãos agarram o trapézio. todos respiram de novo.

vôos e quedas começam com um salto e pairam sobre fôlegos suspensos, a meio caminho do baque ou do aplauso.

o que faz a diferença? você nunca aprende.




maio 7, 2004

expediente

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

daqui eu ouço buzinas, motores esparsos, freios de ônibus, e entremeando as máquinas há pequenos trinados, pios, cantos límpidos de pássaros que não vejo, mensagens cifradas entre criaturas que voam sobre nós. trama colorida sobre um fundo sujo.

cidade atarefadíssima essa, na terra e no ar.




maio 10, 2004

profundeza

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

memória é água profunda, com correntes estranhas que te trazem de volta o que andava no fundo e te jogam na praia náufragos pálidos, sobreviventes que mesmo com as cores lavadas mantêm sua força, seu viço, seu gosto.

o que os olhos não vêem teu coração vai rever com os mesmos olhos, quer queira, quer não.




maio 11, 2004

operação

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

você escolhe o ângulo, enquadra, foca, dispara. teu bisturi tira uma fatia e você a congela tão bem que não se vê o corte, o sangue, não se vê a carne indócil que nenhuma anestesia acalma.

a operação é crua, mas é assim que se embala o passado para presente.




maio 12, 2004

meteorologia

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

nem adianta olhar para cima, esse céu não dá respostas. as estrelas se foram, a lua perdeu o posto, o vento não tem mais rumo.

a previsão do tempo informa: não vai dar tempo.




maio 13, 2004

no meio do caminho

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

onde eu fui parar? a dúvida é se eu páro para ver se apareço, ou se continuo rodando até me achar.

tomara que eu volte logo. é chato estar só.




maio 14, 2004

foco

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

preciso olhar para o lado certo, para quem está do meu lado. preciso ser preciso, mesmo com meus olhos míopes e esse coração grande angular.

não posso me perder de vista.




maio 17, 2004

ouça

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

tem um silêncio por aqui, um silêncio denso rondando cada entrelinha.
por mais que eu fale ele se multiplica, se desdobra, e cobra de mim a atenção devida.

uma hora vou ter que dar ouvidos ao meu peito, ao meu corpo. estou cercado.




maio 18, 2004

comunidade

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

temos tanto em comum, todos nós, tantas coisas compartilhadas todo o tempo, a vida toda, que nem nos damos conta das marcas invisíveis de milhares de mãos, dos rastros mudos de milhões de passos, do murmúrio de infinitas vozes que chamamos silêncio, bastões que passamos um para o outro nessa corrida para todos os lados.

é esse nada que nos une. é essa brisa que é nosso fôlego.




maio 19, 2004

curto

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

você sente no ar: por aqui há fios desencapados, eletricidade engatilhada esperando por pele nua, pela carne úmida para te acender os nervos, te trincar os dentes enquanto o mundo se funde em flash branco.

gosto daqui. a corrente é contínua.




aqui, agora

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

tudo em volta está deserto, tudo certo, tudo perto, tudo menos o que parece tão longe.
talvez seja o contrário, talvez eu é que esteja perto demais do que não me abandona nunca, desse buraco sem fundo em cima do qual erijo castelos de cartas e giro no globo da morte.

difícil dizer.




maio 20, 2004

da cappo

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

quinta, hoje, ontem quarta. logo é sábado, quando sábado parece que foi ontem e entre sábados nem sei mais o que houve.

nessa música ligeira o refrão eu sei de cor, difícil é lembrar da letra. se ao menos tivesse rimas. não tem não.




maio 21, 2004

pocket version

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

memória não vira página. se virasse estaria imensa, gorda, me pesaria nos ombros.
tem algum truque aí: quando eu tinha menos história minha história era maior, monumental, novela escrita em pedra escura. agora é light.




maio 24, 2004

varal

foto e texto: rene de paula jr, rene@usina.com

ainda vou inventar uma prece, prece singela como as que minha avó ensinou, prece que peça aos deuses do sonho que me lavem os olhos e me quarem a alma, para que toda manhã nasça nova, fresca, como uma camisa branca bem passada.

ando meio amarrotado, ultimamente.




maio 25, 2004

meio amargo

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

esqueça os olhos, esqueça ouvidos. não é com eles.
não cheire, não morda, ponha direto na língua, no calor da boca, e que o mundo se derreta quente, alague a alma e nine o coração com doçura escura, densa, lenta.

tenho lembranças sabor chocolate. guardo na manga para dias chuvosos.




maio 26, 2004

radar

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

vento fresco assim é bom, vem limpo, vem novo, e quem sabe venham rastros, cheiros, pistas claras que tento farejar faz tempo.

longe da matilha, esses dentes de lobo mais assustam do que ajudam.




maio 27, 2004

elevado

foto e textos: rene de paula jr, rene@usina.com

se o trânsito não tivesse parado, se eu não tivesse desligado a música, se eu não tivesse aberto a janela em pleno viaduto em plena noite, eu não a teria visto, vulto distante em uma janela escura, detalhe sutil na paisagem muda, e teria passado por ela envolto em música, embalado em confortos, embalando lembranças e pensamentos soltos, e esse lugar que é a sua casa, sua vista, seu ponto de vista seria mais um borrão veloz, um hiato, uma entrelinha inexpressiva em mais um parágrafo sem graça.

foi rápido. mas ficou.




maio 28, 2004

iazul

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

que ironia. mato minha fome de fogo com fagulhas. recarrego minha bateria em faíscas. encontro eternidade no que nasce e morre diante dos meus olhos agradecidos.

o que muda me diz tanto.




maio 31, 2004

front

foto e texto: rene de paula jr, rene@usina.com

trégua, ao menos por um par de horas, trégua para que eu possa escutar os gritos e encontrar a batalha oculta, recolher os feridos, tratar as feridas. preciso de paz para achar a guerra.

no front ninguém suspeita.




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