junho 1, 2004

madrugada

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

sono obscuro como um naufrágio noturno, mergulho profundo em mar opaco, esbarrando em destroços de sonhos, em criaturas esquivas.

algo me traz de volta. um bongô? a essa hora? maldito seja. deixe-me despencar em paz.

meu buraco é mais embaixo.




back home

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

a noite vem e a esponja de paredes e portas suga de volta os corpos gastos, as almas cansadas, e se embebe devagar com o calor lento do descanso de muitos.

amanhã tem mais.




junho 2, 2004

fim

foto e texto: rene de paula jr, rene@usina.com

estórias têm fim, feliz ou não, histórias não. histórias são tramas onde os fios se enroscam, onde a tesoura do acaso corta a esmo linhas vivas e deixa pontas soltas, buracos, e costuras se desfazem onde menos se espera.

escrever é um risco. toda página concorre a epílogo.




junho 3, 2004

Aimée Mann

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

é a terceira vez que ela me atinge em cheio, tiro grosso no peito, e eis-me aqui de novo repetindo a canção pasmo, exposto, desmascarado.

primeiro foi "Wise up", depois "One", e agora "Invisible Ink":

there comes a time
when you swim or sink
then I jumped in my drink
'cause I couldn't make myself clear

maybe I wrote in invisible ink
oh, I've tried to think
how I could've made it appear
(...)
I suppose I should be happy to be misread
better be that than
some of the other things I have become
(...)

queria tanto ter escrito isso, tanto.

que bom que não escrevi ainda.




junho 4, 2004

primeiro plano.

foto e texto: rene de paula jr, rene@usina.com

preciso limpar a vista e enxergar o que é rico, o que me vem aos borbotões, esse excesso que me vem e cai de maduro ao meu redor.

aquilo que falta não está nem aí.




junho 7, 2004

first steps

foto e texto: rene de paula jr, rene@usina.com

meus pés pisaram primeiro o asfalto, calçadas, ladrilhos, e até hoje estranho o chão que cede, que molha, que abraça os dedos descalços.

minha terra firme é dura, escura, e se aquece seca ao sol.




junho 8, 2004

SAP

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

da noite pro dia passei sobre cerrado, selva, mar, Cuba, dormindo sempre. nasce o sol e eu aqui longe de casa de novo.

avião não é viagem: é um seletor de canais.




junho 9, 2004

declaração

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

arranquei um pedaço e levei embora, arranquei vários outros e os trouxe escondidos, crime perfeito que ninguém notou, legítima defesa contra o ataque da saudade, essa bandida que me espreita logo ali na esquina.




junho 10, 2004

zás-trás

foto e texto: rene de paula jr, rene@usina.com

eu já volto. isso é, volto se ainda houver eu, se ainda houver pra onde voltar, se nessa mágica espantosa de sumir sem sair do lugar eu não errar o truque e me serrar no meio.

rufem os tambores. cruzem os dedos.




junho 11, 2004

assinaturas

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

o pano de fundo dessas manhãs quentes é um perfume doce, leve, que vem junto com o abraço do ar úmido, denso.

hoje, caminhando distraído, uma nota ligeira, uma pincelada rápida de um outro perfume completou o quadro: esse é o mesmo cheiro de 25 anos atrás, cheiro que eu nem sabia ter guardado, nem sabia estar tão fresco na minha memória poeirenta.

são paulo eu reconheço de ouvido. aqui o nariz falou mais alto.




junho 14, 2004

nel mezzo

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

o que eu tenho feito de mim, o que eu faço com o que tenho nas mãos?

o espelho não me responde, o tempo desaparece impassível, e eu sigo a todo vapor deitando trilhos que me abram caminho.




junho 15, 2004

surpresa

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

carinho quando vem de longe faz as malas, põe a melhor roupa e vem.

você mal abre a porta e ele te salta no colo, de olhos fechados, e você nem se pergunta se isso ou aquilo.

a carinho dado não se olha os antes.




junho 16, 2004

bom dia

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

sim, é um novo dia, um belo dia, mas quisera eu acordar assim tão claro.
o corpo desperta ligeiro, mas alguma coisa noturna, algum fiapo de sonho me embaça os olhos, me anuvia a alma, e começo o dia sem virar a página, e lá vou eu escrever direito sobre estranhos rabiscos e borrões.

sonhos atacam pelas costas.




junho 17, 2004

gula

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

olho mais guloso esse, procurando guloseimas e petiscos o dia todo. quando dou por mim, acharam algo.

aos poucos aprendo a lhes dar ouvidos.




junho 18, 2004

oração subordinada

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

benditos os momentos em que o que há são passos firmes, ar fresco nas narinas e nada te pesando nos ombros.

bendito seja o presente, bendito seja que o resto se ausente, bendita seja essa ilusão deliciosa de que a vida é isso, presente.




junho 21, 2004

switch

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

depois de amanhã tudo isso vai ser ontem, vai ser longe, vai ser ser lembrança com começo meio e fim. depois de amanhã retomo o que continua, recomeço o que nunca parou.

depois de amanhã eu mudo de estação.




junho 22, 2004

primeira viagem

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

precisa bater a porta, fechar o livro com estrépito, precisa sumir do mapa para o que passou virar passado, virar algo que foi de um jeito e não tem mais jeito. precisa parafusar o caixão para ter certeza do nunca mais.

é o jeito. somos todos amadores, enfim.




onze

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

quantas vezes esse número, quantas vezes outros tantos, números escolhidos a dedo sem me dar conta, vezes quatro por andar, elevados ao cubo em tantos prédios, na soma sem fim de sobes e desces entre a garagem e o que chamo de lar.




junho 23, 2004

nem pense nisso

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

acima de mim, num cubículo que nunca vi, um motor enorme aciona volantes, polias, correntes, e arrasta poço acima esse caixote enorme que só conheço por dentro, que conheço mal, com o qual minha única relação são dois botões, térreo e onze.

em torno do elevador, do poço, do prédio, por detrás de paredes e asfalto, mil engrenagens e máquinas, fluxos e tremores, entranhas elétricas atrás de paredes e portas.

a cidade é um sistema nervoso.




junho 24, 2004

colo

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

tanta coisa solta, tanta coisa em aberto. espalhadas assim nem quebra-cabeça parecem, parece sim que a cabeça se quebrou em mil cacos, e que não terei jamais a cabeça para juntar tudo de novo.

devagar eu rejunto, colo A com B, B com C, e dou colo pra mim mesmo enquanto sonho com dias sem caos.




junho 25, 2004

à vista

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

que meu corpo me garanta o limite, que meu coração me conceda mais crédito. por algum tempo vou ter que entrar no vermelho.




junho 28, 2004

elegância

foto e texto: rene de paula jr, rene@usina.com

nem tudo é assunto, nem tudo interessa. para isso existem véus, paredes, cofres, tapetes que encubram o que varremos da área e varremos de novo cada vez que uma desgraça engraçadinha resolva desfilar à luz do dia.




junho 29, 2004

pé de vento

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

é esse meu caminho, eu reconheço. os passos que dei marcaram o chão, os que não dei marcaram meu peito, e tanto as retas quanto os saltos, todos os desvios insanos me trouxeram aqui direto, de pé sobre pés inquietos.

se eu sumir do mapa, me procure em terra incógnita.




junho 30, 2004

berço esplêndido

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

uma vida inteira em berços mecânicos, mãos ao volante e olhos à frente, embalado por molas e ninado a motor, uma vida inteira com a cabeça nas nuvens e o pé nos pedais.

uma vida inteira a caminho.




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