
ponto de vista nunca é firme. um passo para o lado, cinco minutos antes ou depois e você vê tudo diferente.
ponto de vista é firme se você empacar.

ponto de vista nunca é firme. um passo para o lado, cinco minutos antes ou depois e você vê tudo diferente.
ponto de vista é firme se você empacar.

vem de dentro. não sei como, mas vem.
não sei a palavra mágica, não sei qual o segredo, mas alguma coisa abre essa porta, e faz-se luz, faça sol faça chuva.
bem-vinda, inexplicável.

querido diário: nem todo dia é querido, nem sempre o dia-a-dia traz o que eu queria.
o que estamos escrevendo aqui? novelas? sagas? se ao menos a gente fizesse história.

é só ligar os pontos, traçar a lápis o que meus pés traçaram. não tem segredo.
A com B, 3 com 4, aos poucos fica claro meu desenho sem contorno, minha figura por colorir, fica claro que é tudo esboço.

tarde linda de sol limpo, ruas calmas no domingo azul.
em pausas assim a cidade sorri. dias assim têm outra agenda.

quanto fôlego eu tenho? pergunta ruim para se fazer sob pressão, enxergando curto debaixo d'água.
não é hora para ser profundo, é hora de mergulhar de cabeça.

reli coisas minhas ontem, reli de enfiada o que pari em partes.
quem diria. eu que imaginei desatar meus nós repuxando os fios da meada, eu que pensei estancar a hemorragia descobrindo artérias, eu que imaginei embotar o gume de tanto usar a lâmina, errei: esse saco não tem fundo.
achei meu veio. com o tempo eu me afio, com o tempo endireito essas mal-traçadas linhas.

sol. até que enfim.
ontem ele estava lá, só não dava pra ver.
anteontem idem, amanhã sabe-se lá.
em verdade, o sol não está nem aí.

uma parte minha ficou em casa, na cama, e mandou pra rua um emissário, um digníssimo representante para assuntos mundanos, com carta branca para a vida prosaica.
hoje é dia de sociedade anônima.

pensei que eu não chegaria nunca, que me perderia, que tropeçaria abismo abaixo.
ainda faço um balanço e vejo se cheguei inteiro, se algo se extraviou.
se der tempo, claro.

para todos os efeitos, está feito. há muito pela frente, há mil caminhos, mas volta não tem, e isso não é defeito, é fato.
ou fado.

nu uma vírgula. minha arte maior são véus, fumaça, jogo de corpo para esconder o flanco. artifícios são minha segunda natureza.
um dia eu ainda me pego no pulo.

engenheiros fazem plantas, mas plantas que são plantas vão semeando ao vento, vão seduzindo insetos, vão brotando em vãos, barrancos, conquistando ilhas distantes.
não fui engenheiro. eu floreio muito.

enquanto as peças não se encaixam, enquanto joio e trigo caem no mesmo saco, fica difícil saber o que nasceu para sucata e o que um dia vai funcionar.
não, eu não tenho um plano, tenho rabiscos só. e metade do papel já foi.

vida se escreve assim em linhas tortas, em linhas curvas, num desenho sinuoso que contorna o que não enfrenta, que corta ao meio quando acha atalhos, corda bamba vencendo barrancos.
vida se escreve assim, sem pular linhas.
aos trancos e barrancos estamos aí, remendando as cordas bambas e agarrando o trapézio na unha.
teimosia? inércia? garra? se pensar o bicho come.

se estender o braço toco um, se me distrair trombo com outro, corpo-a-corpo dia após dia onde sou mais um em dez milhões, onde faço coro com dez mil vozes, papel menor de figurante anônimo para um sem-fim de olhos.
há paredes, claro. há portas. mas a solidão é um patrimônio público.

onde te levam teus passos se você anda direito? se eu pensasse mais em fins do que no meio, se eu pisasse sem dó, iria mais longe?
nem sei porque pergunto. deve ser o sol de deserto sem oásis à vista, lançando na areia sombras de dúvida.

céu hoje é manto baixo de cor cinzenta, promessa clara de garoa fina, de asfalto úmido, pára-brisa sujo.
a água pouca escorre rala ralo adentro, e as bocarras na sarjeta mal limpam a garganta seca.
fome, sede, minha fera faminta espreitando na sombra.

escavando entre os escombros, revirando as trincheiras há de haver bandeiras brancas, rabiscos de preces, tocos de vela entre destroços e balas, tormentos mudos sob uma tormenta maior.
poupe energia. o mundo não pára em sinais.

há trechos inteiros que são só trechos, nadas prolongados que separam o que realmente conta. no álbum da memória, o que fica são as figurinhas coloridas e soltas , descoladas para sempre do papelão cinza do cotidiano.

preciso carregar comigo um kit de primeiros socorros com cheiros queridos, sabores sem nome, risadas gostosas e outros licores fortes.
preciso de remédio rápido para olhos turvos, preciso ter isso à mão sem ter que revirar a memória.