dever

a sensação é essa, de débito, de estar aquém do que devia, de ter ido além do que devia, sensação vaga, ruim.
se eu der crédito, não dou conta.

a sensação é essa, de débito, de estar aquém do que devia, de ter ido além do que devia, sensação vaga, ruim.
se eu der crédito, não dou conta.

ironia, essa. pensar além de si próprio é decisão que começa e morre lá dentro, que morre contigo. o que é de interesse geral não interessa a ninguém.
deve ser amor, isso.

o baile é que faz um salão de baile, não são paredes. o baile cria a música, o baile inventa os bailarinos, lança os passos, os compassos, as partituras, instrumentos.
coisas têm alma. sem nossa alma, paredes voltam ao pó.

a todos os que já me viram do avesso, de cabeça para baixo, girando em falso, meu agradecimento profundo por não me virarem as costas. nem sempre sou fácil de se encarar.

você corre para cá, escapa para lá, mas algumas coisas te seguem, te encontram onde for.
depois de tanto zigue-zague me sobraram poucas. são meu tesouro, meu fardo, meu fado afortunado.

letras e letras e letras e texto e respostas e perguntas e eis meu cérebro seco, arenoso, caldo morno de caracteres negros em fundo branco sem fundo.
exaurido ou não, cores ainda me deixam sem palavras.

e se eu estiver andando em círculos, girando em torno do que eu nunca enfrento?
em torno do meu fogo interno, danço reverente diante da chama inexplicável.
longe dos caminhos batidos, caminho descalço sobre minhas brasas.

eu e minhas tralhas, eu e meu caos que carrego nas costas, fardo velho que só faz pesar.
ainda aprendo a tirar da frente o que me puxa para trás.

meus laços mais firmes são diáfanos, elásticos, leves.
estico-os por quilômetros e não se rompem, estiro-os por anos e me puxam de volta, juntando de novo o que nada separa, trazendo para perto o que muda mas não se vai.
o que me é sólido respira livre.

revendo o que faço, olhando de perto, aparecem vestígios, pistas, marcas na bala que denunciam o cano.
de falha em falha desenho aos poucos o retrato do buraco, desse vazio sem rosto, retrato falhado que denuncie o que sempre me escapa.
preciso errar mais.

é segunda.
não que eu quisesse. não que eu estivesse pronto. o que eu esperava? segundas não esperam ninguém.

impossível ser mais franco. o que me vem de dentro vai direto, trôpego, descabelado. não invento nada.
se tem algo inventado sou eu mesmo. o original não tem graça

tropeço a cada passo em gritos escritos, sementes de incêndios, legados sem herdeiro, e deixo no caminho minhas melhores flores, meus frutos ainda verdes.
a gente não cabe em si.

o chinês do circo não derrubava pratos. aquilo sim é que era louça: porcelana chinesa é equilibrada por natureza.
por aqui os pratos não querem nem saber: se jogam no chão sem rede, e o circo que pegue fogo.

outros ares e tudo muda, respira-se largo, enxerga-se longe, e de longe o que era familiar parece estranho, muito estranho.
bons ares os de buenos aires.

tenho cá comigo uma certeza: arquitetura ensina. os cômodos em que cresci, os degraus, janelas, portas, cada canto e cada esquina foram fôrma da minha forma.
ou eu é que inverto as coisas e deixo que paredes preguem.

o que conta mesmo é frágil, não agüenta um sopro. o que realmente vale qualquer um rouba. o que é nobre cai, mas você reergue pedra sobre pedra, impávido.
minha história é assim, sem monumentos.

quero gente que conte, quero gente para quem valha contar o que, sem eles, morre comigo.
bons amigos são companhia ilimitada.

delicado mesmo é definir onde histórias começam.
onde elas acabam não me cabe, é coisa pra ser escrita a muitas mãos. reconhecer errado onde começou um capítulo, como nasceu a trama, é outra história: faz de sagas folhetim.

a partitura dos dias tem notas raras, soltas, que quebram de surpresa o compasso mas te trazem de volta para tua melodia perdida.
sem elas você bate na mesma tecla.

às vezes olho para baixo, para o rio que corre abismo abaixo, em torno dos pilares frágeis que erguem minha palafita a salvo das águas, acima das grutas, distante das pedras.
não devo olhar para baixo. eu sei que não, mas sou meio aéreo.

pedra que rola perde aresta, vira seixo.
que venham corredeiras. prometo manter o gume.