eminências

bendito seja o não-dito, bendito seja o bode preto no meio da sala, dos milhões de salas, benditos sejam os reis nus e nosso aplauso descarado.
o que conta não se conta. o que nos move se entrança com ginga pelo meio de nossas pernas.

bendito seja o não-dito, bendito seja o bode preto no meio da sala, dos milhões de salas, benditos sejam os reis nus e nosso aplauso descarado.
o que conta não se conta. o que nos move se entrança com ginga pelo meio de nossas pernas.

cidades são selvas estranhas que brotam na cabeça dos homens, no papel viram planta, criam raízes no chão e vão assimilando cimento e barro, aço e tinta, para se desdobrarem em quinas, esquinas, andares.
entre quatro paredes corações fazem ninho, e sob a sombra de lajes florescem rebentos.

deve haver estações dentro do peito, primaveras e verões, quando a seiva adoça, afloram cores, vêm as flores. deve haver.
na falta de calendários, faça sol, faça chuva, lanço sementes e rego meu chão.

voltar foi fácil, voltei num pulo: uma queda controlada num elevador de vidro, um táxi desabalado, um sono profundo a dez mil pés, cem por hora em asfalto ruim e eis-me de volta, intacto. portas deslizantes, ruído abafado, janelas vedadas.
o perigo mesmo está nos descaminhos a pé, nos passos dados a esmo por esquinas e bares. é ali que te falta o chão.
vertiginoso é ter os pés no chão.

há uma primavera a caminho, só pode ser isso. nos meus galhos secos descubro uma flor ali, outra aqui, pinceladas leves de cor imprevista sobre meus tons de cinza, notas claras e soltas que mal fazem música.
queria puxá-la pelos cabelos, trazê-la logo para preencher meu quadro, mas o que os dedos arrancam são pétalas soltas, brotos.
tenho no fundo muito inverno, ainda. uma hora passa.

cada um aqui tem rumo certo: na hora x partem para o destino y, equação simples de turbinas e esteiras, um ligue-os-pontos a peso de ouro.
cada um vem de um canto, cada um vai para longe. nesse meio tempo, atônitos, compartilhamos um saguão gelado na madrugada escura, limbo hi-tech cheirando a café.

assim que eu fechar a porta e sair desse hotel e voar para longe esse quarto estará de novo intacto, impecável, palco extraordinário para personagens idem, cenário de sonho para outras noites que não as minhas, para transes mais ricos e vívidos do que meu pensativo silêncio e nariz na vidraça perscrutando janelas cegas na noite que cai.
quartos de hotel me escorrem entre os dedos. até a próxima.

tenho que olhar onde piso. de tanto andar em corda bamba nem lembro os passos que dei, meus passos em falso, os passos que não dei e que não passam nunca.
minhas pistas são um caos, mas me trouxeram até aqui. e eu assino embaixo.

hoje revi meu espelho, velho amigo, e me vi como sempre, do mesmo ângulo, sob a mesma luz, mesmos olhos me olhando nos olhos à queima-roupa, roupa alguma sobre o corpo que o espelho da pia abstrai no retrato 3x4.
o drama são os espelhos mal-criados, esses que te pegam no pulo, pelas costas, pelos flancos, papparazzi que ignoram os protocolos mínimos da condescendência.
espelhos assim são covardia, golpe baixo, traição ao pacto implícito dos reflexos condicionados.

esse mundo dá um baile, volta e meia perco o pé. rodopios, improvisos, meio tango meio axé, e lá vou eu improvisando, compensando como posso minha falta de gingado.

nessa noite quente e sem vento para alguns é dia, para eles o trabalho mal começou. madrugada adentro nas veias escuras da cidade que dorme eles abrem caminho para o dia que vem, para a manhã que não quer saber de vestígios da véspera.

nosso tempo respira assim, tomando fôlego nas noites queridas entre parênteses, hiato raro nesse texto corrido dos dias idem.
na partitura rabiscada do meu descompasso, um contraponto em allegro compensa mil contratempos.

coisa maçante ser você mesmo, acompanhar tua história linha por linha, palavra por palavra.
haja paciência, perseverança, haja esperança que as estórias avancem, que as tramas se adensem.
há capítulos inteiros que, resumidos, são reticências.
o cenário por aqui são bastidores. ao meu redor um palco atulhado de cabos, tapadeiras, maquinário, atores tropeçando em coxias, ópera inacabada em obras sem fim.
viver, aqui, é ser contra-regra.

tenho medo que meus olhos fiquem surdos e não escutem mais o que a cidade sussura. tenho medo de só enxergar aquilo que me esfregam na cara, e que já nem me incomoda mais.
se meu coração cansar, meus olhos se fecham.
sentido as coisas fazem de vez em quando, quando bem entendem. quando você menos espera, não entende mais nada.
na dúvida, aperto o passo. uma hora o sentido dá o ar da sua graça.