setembro 1, 2004

eminências

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

bendito seja o não-dito, bendito seja o bode preto no meio da sala, dos milhões de salas, benditos sejam os reis nus e nosso aplauso descarado.

o que conta não se conta. o que nos move se entrança com ginga pelo meio de nossas pernas.




setembro 2, 2004

muito natural

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

cidades são selvas estranhas que brotam na cabeça dos homens, no papel viram planta, criam raízes no chão e vão assimilando cimento e barro, aço e tinta, para se desdobrarem em quinas, esquinas, andares.

entre quatro paredes corações fazem ninho, e sob a sombra de lajes florescem rebentos.




setembro 3, 2004

santo dia

 foto: rene de paula jr, rene@usina.com

deve haver estações dentro do peito, primaveras e verões, quando a seiva adoça, afloram cores, vêm as flores. deve haver.

na falta de calendários, faça sol, faça chuva, lanço sementes e rego meu chão.




setembro 13, 2004

volta

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

voltar foi fácil, voltei num pulo: uma queda controlada num elevador de vidro, um táxi desabalado, um sono profundo a dez mil pés, cem por hora em asfalto ruim e eis-me de volta, intacto. portas deslizantes, ruído abafado, janelas vedadas.

o perigo mesmo está nos descaminhos a pé, nos passos dados a esmo por esquinas e bares. é ali que te falta o chão.

vertiginoso é ter os pés no chão.




setembro 14, 2004

estações

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

há uma primavera a caminho, só pode ser isso. nos meus galhos secos descubro uma flor ali, outra aqui, pinceladas leves de cor imprevista sobre meus tons de cinza, notas claras e soltas que mal fazem música.

queria puxá-la pelos cabelos, trazê-la logo para preencher meu quadro, mas o que os dedos arrancam são pétalas soltas, brotos.

tenho no fundo muito inverno, ainda. uma hora passa.




setembro 17, 2004

hiato

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

cada um aqui tem rumo certo: na hora x partem para o destino y, equação simples de turbinas e esteiras, um ligue-os-pontos a peso de ouro.

cada um vem de um canto, cada um vai para longe. nesse meio tempo, atônitos, compartilhamos um saguão gelado na madrugada escura, limbo hi-tech cheirando a café.




quarto 611

rene de paula jr, rene@usina.com

assim que eu fechar a porta e sair desse hotel e voar para longe esse quarto estará de novo intacto, impecável, palco extraordinário para personagens idem, cenário de sonho para outras noites que não as minhas, para transes mais ricos e vívidos do que meu pensativo silêncio e nariz na vidraça perscrutando janelas cegas na noite que cai.

quartos de hotel me escorrem entre os dedos. até a próxima.




setembro 20, 2004

marca registrada

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

tenho que olhar onde piso. de tanto andar em corda bamba nem lembro os passos que dei, meus passos em falso, os passos que não dei e que não passam nunca.

minhas pistas são um caos, mas me trouxeram até aqui. e eu assino embaixo.




setembro 21, 2004

veja bem

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

hoje revi meu espelho, velho amigo, e me vi como sempre, do mesmo ângulo, sob a mesma luz, mesmos olhos me olhando nos olhos à queima-roupa, roupa alguma sobre o corpo que o espelho da pia abstrai no retrato 3x4.

o drama são os espelhos mal-criados, esses que te pegam no pulo, pelas costas, pelos flancos, papparazzi que ignoram os protocolos mínimos da condescendência.

espelhos assim são covardia, golpe baixo, traição ao pacto implícito dos reflexos condicionados.




setembro 22, 2004

pas de deux

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

esse mundo dá um baile, volta e meia perco o pé. rodopios, improvisos, meio tango meio axé, e lá vou eu improvisando, compensando como posso minha falta de gingado.




setembro 23, 2004

labor

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

nessa noite quente e sem vento para alguns é dia, para eles o trabalho mal começou. madrugada adentro nas veias escuras da cidade que dorme eles abrem caminho para o dia que vem, para a manhã que não quer saber de vestígios da véspera.




setembro 24, 2004

presto

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

nosso tempo respira assim, tomando fôlego nas noites queridas entre parênteses, hiato raro nesse texto corrido dos dias idem.

na partitura rabiscada do meu descompasso, um contraponto em allegro compensa mil contratempos.




setembro 27, 2004

em suma

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

coisa maçante ser você mesmo, acompanhar tua história linha por linha, palavra por palavra.

haja paciência, perseverança, haja esperança que as estórias avancem, que as tramas se adensem.

há capítulos inteiros que, resumidos, são reticências.




setembro 28, 2004

men at work

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

o cenário por aqui são bastidores. ao meu redor um palco atulhado de cabos, tapadeiras, maquinário, atores tropeçando em coxias, ópera inacabada em obras sem fim.

viver, aqui, é ser contra-regra.




setembro 29, 2004

ruído

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

tenho medo que meus olhos fiquem surdos e não escutem mais o que a cidade sussura. tenho medo de só enxergar aquilo que me esfregam na cara, e que já nem me incomoda mais.

se meu coração cansar, meus olhos se fecham.




setembro 30, 2004

pelo sim pelo não

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

sentido as coisas fazem de vez em quando, quando bem entendem. quando você menos espera, não entende mais nada.

na dúvida, aperto o passo. uma hora o sentido dá o ar da sua graça.




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