outubro 1, 2004

tentativa e erro

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

é isso o que eu sei fazer.

sei? sei nada. mal sei ser, mal sei como fazer, mal sei como fazer jus a mim mesmo. vou aprendendo na marra.

nem sei o que os outros esperam, mas eu já esperei demais.




outubro 4, 2004

chave da cidade

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

bem-vindo. a cidade é sua.

um milhão de maneiras de ser ninguém, vinte chances ao dia de ser invisível, cem horas ao mês indo e vindo sem avanço algum.

tantas portas. tão poucas chaves nesse bolso furado.




outubro 5, 2004

freud for dummies

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

nos meus sonhos me perco em corredores e escadas e cômodos incômodos, há cidades e ruas e esquinas e trânsito onde dirijo mal carros indóceis.

nos meus sonhos estou nu quando não devia.

meus sonhos chovem no molhado.




outubro 6, 2004

déja vu

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

a dúvida é se cheguei à fronteira ou se nunca saí do centro.

o sonho da carreira solo, sonho de marco polo, virou tour com velhos fantasmas, entourage que me descobre por mais que eu despiste.

difícil essa história de sair fora de si.




outubro 7, 2004

ar

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

nesta terra de ninguém espaço livre não tem.
vidas roçam de leve as vidas vizinhas, passos são dados numa coreografia de anônimos, é tudo ombro a ombro, pele com pele, olhos nos olhos.

nesta selva densa de corpos inquietos, o que mais tem é espaço livre.
em cada dobra, em cada esquina, voragens sem fundo, começos de histórias, caminhos virgens te esperam. ou não.




outubro 8, 2004

yours sincerely

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

tem quem desenhe cidades, tem quem levante edifícios e templos e praças e pontes. tem quem crie canções.

nem sei o que deixo. pelo sim pelo não, espalho a marca da minha palma pelos muros, pelas telas, pela alma de quem porventura eu toque.




outubro 11, 2004

seis horas

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

há pássaros por aqui, eu os ouço logo cedo, eu os ouço antes mesmo de abrir meus olhos, o corpo ainda imerso em manta macia.

eu ouço trinados e cantos, eu os ouço em pontos distintos, geometria invisível de distâncias precisas, cantos que outro canto responde, depois outro, depois silêncio, então outro canto, sinais sucintos assegurando: o território está coberto, vigiado, seguro.

pairando sobre nossos sonos, criaturas aladas voam e velam. não por nós.




outubro 15, 2004

bossa antiga

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

daqui da rua, caminhando só entre os prédios, são tão belas as salas, os lares, tão sedutor o pouco que as janelas amplas - tantas - deixam entrever, como colos macios adivinhados em decotes distraídos.

meu coração vagabundo quer se perder por mundos sem fim




outubro 18, 2004

quarenta, então

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

caminho torto, esse, sobe morro, desce muito, cada curva uma surpresa, cada escolha um horizonte.

onde acaba não se vê, mas eis-me aqui na metade do viável.

sei lá que fim justifica tanto meio.




outubro 19, 2004

de ouvido

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

por aqui as coisas gritam, te puxam pela orelha, te cutucam pelas costas, fazem polichinelo no meio do teu caminho.

por aqui a gente cala, releva, faz que nada vê, e não damos ouvido ao que é gritante mas não tem mais voz.




outubro 20, 2004

refrão

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

é duro reconhecer mas talvez eu cante sempre a mesma música, bata sempre na mesma tecla, e mesmo quando fujo de mim eu vario sobre o mesmo tema, sobre a mesma teima, improvise de mil jeitos o estribilho que sei de cor.

se ao menos eu rimasse mais.




outubro 27, 2004

coordenada

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

mapas mentem. o mundo não se mostra assim, escancarado, esparramado na mesa como um filé mignon. quem põe o pé na estrada sabe: virar pra cá ou pra lá vira tudo do avesso; um bom desvio é outra história.

adoro mapas. esboço esquemas, traço setas, rabisco lógicas, tentando mostrar por alto o que me toca fundo.




outubro 28, 2004

por supuesto

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

eu sabia que esse cheiro doce, morno, cheiro fresco de cidade madura ia me prender pelas narinas, ia me puxar pelas ventas como se arrasta um touro desconcertado, animal perdido por ruas que nao são suas, ruas que vão bem sem mim, obrigado, ruas antigas que não conheço mas rasgam espaço no meu mapa afetivo, na minha cartografia intrincada de cão vadio, nas minhas memórias mais caras dos dias sem história.

eu sabia. sina de vira-lata, essa.




outubro 29, 2004

ouvindo coisas

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

coisas não dizem nada.

lua cheia no céu limpo, o murmúrio manso da noite morna, uma pétala, tudo isso não diz nada. é você que põe palavras nas suas bocas, na boca fechada das coisas mudas, palavras loucas de quem ouve coisas.

quem tem boca é você, sou eu, somos nós em todas as línguas, dando voz ao que nos enche os olhos.




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