dezembro 1, 2004

missing

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

não deixei meu coração em San Francisco, escapei inteiro, mas no saguão do Ezeiza meus olhos me enganaram, escaparam de mim e voltei sem eles, voltei cego pras coisas daqui.

os fujões ficaram lá, felizes, respirando bons ares, se esbaldando de azul e luz.

agora toca a aprender tudo de novo, aprender a ler o caos, a reconhecer centelhas em pleno incêndio.

ver, em sampa, não é coisa de amador.




dezembro 2, 2004

gauche

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

não tem segredo, ruas são ruas e são duras, duráveis, levam sempre às mesmas ruas, dobram sempre nos mesmos pontos, e de A a B umas poucas retas são a menor distância, coisa simples de tudo.

por que me perco tanto, então? por que cada cruzamento banal desmonta meu quebra-cabeças, e cada bifurcação divide minha certeza em dois?

não tem cura, acho. quero dizer: não acho nada.




dezembro 3, 2004

chama

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

carrego comigo pequenas relíquias, lembranças de ouro mágico que na mão dos outros não tem valor, não tem forma nem brilho, são nada, mas que no cofre da memória reluzem límpidas, são chama viva, dão força e calor a tudo o que eu faço.

sobretudo as que queimam.




dezembro 6, 2004

meu reino

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

meu reino por alguns cheiros, pelo cheiro daquela toalha esplêndida que eu esfregava na cara, pelo cheiro das ruas portenhas, pelo perfume do seu pescoço ainda na cama, o cheiro pleno de um espresso vazio, cheiros de chocolate, de flor, de pele fresca. cheiro antigo de livros idem. cheiro-poema de uma dúzia de pães quentes.

minha memória faz de mim gato e sapato, e me arrasta pelas fuças.




dezembro 7, 2004

encoberto

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

coração de paulista é assim, sujeito a chuvas e trovoadas, escolado em mudanças drásticas, com os dois pés no chão faça sol faça chuva.

frentes frias não me assustam. o que me intriga é o que me inunda.




dezembro 8, 2004

meio obtuso

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

esfrego os meus olhos, esfrego a cara, escancaro os olhos mas o gume se foi, embotou, e me deixou aqui na mão, amorfo.

quero meus cantos vivos. quero minhas arestas. quero cada espinho das minhas rosas.




dezembro 9, 2004

crônicas

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

ledo engano esse meu de que nós na garganta, essa lava no peito eu pudesse drenar com sangrias, desatar pelos fios da meada.

doce ilusão, doce e quente, espessa, líquida, maré alta que me vem sem avisos e que deixa para trás sargaços e conchas.

vêm pérolas, mas são raras.




dezembro 10, 2004

raízes aéreas

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

"e se..." é pergunta de luxo, exercício mental para sofás macios, ao tilintar de drinques e tiradas brilhantes.

em pleno tiroteio, os outros que contem meus mortos e feridos. a hora que eu voltar do front, volto a pensar na vanguarda.




dezembro 17, 2004

dó menor

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

música, por favor, antes que eu preencha o silêncio com o que me vai na cabeça. música, rápido!, senão desafino.

(eu me dou ouvidos, claro. o que cansa são as variações em torno do tema)




dezembro 20, 2004

avante

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

se você reduz a marcha o mundo cresce, se multiplica, e aquilo que passava batido agora tem nome, sobrenome, fome.

por isso eu corro. senão me perco.




dezembro 21, 2004

seco

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

faróis escorrem na água da chuva, as cores elétricas se esvaem pelo asfalto, borrões de gente fogem da rua, e eu aqui achando o caos espetáculo.

por aqui, distanciamento é crítico.




dezembro 22, 2004

certidão

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

eu sou do centro.

minha história começa em berço histórico, nasci entre gente nascida alhures, vim à vida onde quem vem de longe reinventa vida nova.

sou filho de uma cidade adotada por muitos. yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar




dezembro 23, 2004

onde bebo

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

no fundo da minha lembrança, num cantinho à sombra sobre o mármore, fica a velha moringa d'água, impávida, exalando o perfume vivo do seu bojo úmido.

a bica existe, ainda? a água gelada ainda jorra no pé do morro?

no altar sereno da minha memória bebo a água fresca com gosto de ferro.




dezembro 27, 2004

trégua

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

quem sabe essa trégua me salva e eu descubra de ouvido, no silêncio, o caminho escondido que me leve de volta.

de volta ao quê? nem sei mais. mas pra quem gira em falso, até engano serve.




dezembro 28, 2004

artesiano

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

aqui fora ao vento nem se vê, mas sob a crosta corre lava, fogo, sob o solo mares de ferro líquido se movem. aqui fora só agulhas e ponteiros denunciam a alma inquieta e rubra.

raspando a casca com unhas e dentes, um dia alcanço meus lençóis d'água, um dia eu mordo o fio desencapado.

meus frutos pedem mais seiva.




dezembro 29, 2004

R.E.M.

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

sinais vitais ok: semáforos despertos, água e gás sob pressão normal, sistema elétrico ativo.

todos se foram, mas a cidade não desliga. cochila, tranqüila.

o monstro sonha?

noite adentro, a cidade ronca baixinho.




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