quarada

melhor que lavar a alma é secá-la ao sol, balançando na brisa.
claro, vincos não têm remédio, mas os remendos se perdoam e até o esgarçado tem seu charme quando se despe a armadura.

melhor que lavar a alma é secá-la ao sol, balançando na brisa.
claro, vincos não têm remédio, mas os remendos se perdoam e até o esgarçado tem seu charme quando se despe a armadura.

ando com fôlego curto, eu sei.
fica a dúvida: foi de tanto nadar abaixo da superfície ou é por farejar o tempo todo coisas que me alimentem?
preciso abrir o peito, inspirado ou não.

nem sei se escrevo para preservar lembranças ou se crio sortilégios que esconjurem o encanto dessas memórias mágicas que dançam à minha roda me deixando sem palavras.

se eu colocar na balança, o que mudou? desses descaminhos todos o que eu trouxe de volta? parece tão pouco.
quem sabe mudou a balança. quem sabe mudaram meus olhos. tomara.

"e se..." é pergunta proibida, é droga tóxica que não me traz remédio.
coisas não têm reticências, muito menos pontos finais. histórias concretas não têm entrelinhas.
ou admito que nada poderia ser diferente ou nunca mudo mais nada.

com areia se faz vidro, se faz castelo de areia, ou se faz um estrago danado no olho alheio.
com terra se faz tijolo, horta, cova rasa. com água se rega e se inunda.
matéria-prima não falta, bons usos tampouco. difícil é encarar depois sua imagem e semelhança.

não escuto.
ou tudo isso não me diz nada ou estou com a cabeça em outro lugar.
e pensar que eu conhecia tudo isso de ouvido.

me viciei no exercício estranho de me virar do avesso, de plantar bananeira, de pisar sem dó nos meus próprios calos.
haja garra. quem sabe no fim recupero a forma e perco o vício de ser amorfo.

perto da margem, fora da corredeira, se respira bem, se respira fundo.
nada como curva de rio pra endireitar a alma e ganhar mais fôlego.

essa hora é indecente.
eu preferia passar rápido e não vê-la assim, exposta e sem vida, mostrando o dorso de prédios opacos como lombadas de livros velhos, como badulaques descoloridos em prateleiras sujas.
trânsito lento.
o sol se foi, e ruas lotadas separam pessoas das suas salas desertas, dos seus quartos escuros, e da minha janela vejo janelas vazias, vazadas, janelas cegas esperando quem lhes dê alma e luz.
detesto essa hora.

chove. logo passa.
o que não passa é a garoa fina que me encharca a alma por onde eu passe.
estou me devendo uma primavera ou duas.

adiante, então.
deve ser por isso que temos olhos à frente, com um nariz no meio a servir de proa. deve ser por isso que meu pescoço não tem jogo de cintura.
ou então é pretexto meu para não olhar para baixo antes do salto, nem olhar para trás em pleno vôo.