fevereiro 3, 2005

at your own risk

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

quão longe você tem que ir para se sentir distante, para pressentir logo adiante o abismo onde acaba o mundo, para deixar atrás de si o teu mundo inteiro?

meu mundo deve ser pequeno. acabo de pisar na fronteira.




fevereiro 4, 2005

gris

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

sopre meus olhos para que saiam as nuvens, sopre meus olhos para que eu veja mais claro. mudei de céus e nada mudou.




fevereiro 10, 2005

quelqu'un m'a dit

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

sorrio enternecido, sabendo que linhas finas que ninguém convidou vão traçar em torno da doçura uma trama fina de tristezas velhas, notas de rodapé do que nem chego a dizer, bordado desfiado de fios cinzentos que eu tento trazer para a luz mas que se enovela, se enrosca, como se os fios irregulares fossem a tela do que pinto e bordo, forro poído das minhas fantasias que só enganam os mais incautos.

é quando visto esse manto cinza que eu me sinto mais nu.




fevereiro 11, 2005

ad hoc

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

por mais que eu faça, nada disfarça esse fardo de ser, de ser sempre, de não ser daqui, de não ser de lá, de estar aqui em corpo mas não em alma.

por mais que eu dirfarce, uma hora alguém percebe. sempre.




fevereiro 14, 2005

Cheshire

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

deixei alguns sorrisos por aí, espalhados. eu sempre deixo.

metade despista meus passos, metade marca meus rumos, e não raro tropeço em um deles.

difícil saber qual é qual. são todos igualmente sinceros.




fevereiro 15, 2005

trinta e tantos

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

no retrato em branco e preto olhos semi-cerrados de um menino sério me olham nos olhos, olham fundo, pulando o abismo de trinta e tantos anos que separam um garoto daquele que ele veio a ser.

se ao menos ele me dissesse algo.




fevereiro 16, 2005

fragmentos reunidos

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

sobre a grama sua sombra avança.

dia claro, passos firmes, e a sombra escura varre folhas minúsculas, cobre de negro mil capins e gramíneas e mato baixo, pinta um mosaico móvel sobre o verde vivo.

ele avança. é um homem qualquer, projetando no solo um fantasma vibrante, mais complexo e belo que seu dono distraído.

bela manhã. fazia tempo.




fevereiro 17, 2005

semifusa

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

nessa partitura pálida e interminável penduro ao acaso uma nota ou outra, num improviso metódico e teimoso de quem não acerta nunca o compasso das coisas.

isso alegra, ma non troppo.




fevereiro 18, 2005

mientras tanto

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

nessas quedas livres meu coração vai parar nem sei onde, e o mergulho sem fundo fica ainda mais frio, mais oco, vácuo por dentro e por fora até que meus pés pisem chão firme e sejam de novo donos dos meus passos.

meu inferno é o limbo.




fevereiro 21, 2005

tocaia

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

por mais que eu troque de pele, por mais que eu fuja das sombras esse lobo não some, não foge da luz, caçador descarado a farejar o que eu respiro, perscrutando o que eu mal vejo, radar incansável operando invisível.

lobo danado esse, que só quer saber das cerejas do bolo.




fevereiro 22, 2005

noblesse oblige

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

meus reis estão nus faz tempo. um ou outro foi para a guilhotina, até.

revoluções eu fiz várias, mas meus tronos continuam reais.




fevereiro 23, 2005

perspectiva

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

ruas tantas dos meus dias, pauta dura da minha letra miúda, corrida, moldura rota para uma vida em rabiscos.

preciso de ruas para me perder.




fevereiro 24, 2005

sinais

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

os ruídos daqui eu entendo. sapo, cigarra, trovão não.

ruído daqui fala a minha língua. o resto me diz pouco.




fevereiro 25, 2005

A com B

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

lá vou eu catar mais peças do meu quebra-cabeça, peças que se encaixam mesmo sendo estrangeiras, relíquias, mesmo sendo parte de outros mundos.

estranho.

estranho mesmo é o que é mais próximo me ser estranho.




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