estado sólido

na astronomia da lembrança tem estrelas, tem cometas, tem órbitas distantes em que nada mais gira.
quando é noite, noite clara céu profundo, o coração sente a força do quadrado da distância.

na astronomia da lembrança tem estrelas, tem cometas, tem órbitas distantes em que nada mais gira.
quando é noite, noite clara céu profundo, o coração sente a força do quadrado da distância.

meu lobo é muito elegante, meu lobo é muito felino, meu lobo não quer saber de peles de cordeiro.
meu lobo, salve-me sempre dos rebanhos e pastos.

a minha cidade não tem mapa. mapas são para sociedades anônimas, terras de ninguém.
mapas me dizem pouco: minhas lembranças mais caras não são coordenadas.

nessa geometria humana de pequenos círculos, triângulos trágicos, tantos obtusos e quadrados, agudo mesmo é o trapézio que não vem quando você salta sem rede.

não tenho mais truques na manga, acabaram todos. palavras mágicas, sortilégios, meu estoque já era. não sei o que fazer para trazer a magia de volta.
quem sabe a magia está lá, me esperando, e fui eu quem sumiu.

alguém invente logo um tanque mágico onde eu mergulhe de cabeça e saia do outro lado de alma lavada.
alguém invente rápido um solvente para o insolúvel.
eu já me virei do avesso mas essa mancha não sai.

as coisas que espalho a esmo, minhas pistas e pegadas não vão longe, e vistas de longe denunciam um eixo, um centro, um pólo invisível e fugidio que se mantém eqüidistante por mais que eu preencha o vácuo.

no rosto vento fresco, bom, com cheiro de pele nua, gosto de água límpida, macio como cabelos soltos, vento que abraço na proa com meus olhos cerrados.
é pra isso que eu remo tanto.

nas ruas de parati andar é pé ante pé, aventura arriscada sobre pedras malucas, pedras de todo jeito, mensagem tátil de antepassados sábios que sabiam que pensar direito só com os pés no chão.
a cem por hora, nem pensar.

esse tempo que me flui entre os dedos como vento forte e arrasta dos meus lábios e teclas tantas palavras, tantas, esse tempo-vento me limpa os olhos e me traz primaveras.

quando eu volto vem de dentro um sorriso largo, um suspiro fundo, reação corporal à eletricidade, ao ruído, aos milhares de apressados e seus milhares de rostos.
direto do meu peito, fios desencapados me ligam à azáfama.

essa história de corda-bamba pode ser truque barato, pretexto espalhafatoso para não olhar para baixo.
já caí algumas vezes. o chão não estava tão longe.
em pleno rodamoinho sei que do outro lado eu cheguei inteiro, olhando adiante sem lembrar desse inferno. é nisso que me agarro quando o chão me foge aos pés.
não o vejo, apenas ouço, ouço as notas que ele arranca com dedos enferrujados de uma guitarra idem, das cordas de arame farpado, e cada acorde sozinho é um Mississipi inteiro, é uma vida inteira, é o sumo que vai por dentro do seu corpo envelhecido e teimoso.
a cada nota, é o que vejo.
eu me pergunto quanto concreto e pó, quanto ruído e cor, quanto sangue e gozo vazam pelas minhas entrelinhas. buracos não faltam.