abril 1, 2005

estado sólido

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

na astronomia da lembrança tem estrelas, tem cometas, tem órbitas distantes em que nada mais gira.

quando é noite, noite clara céu profundo, o coração sente a força do quadrado da distância.




abril 4, 2005

the beast in me

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

meu lobo é muito elegante, meu lobo é muito felino, meu lobo não quer saber de peles de cordeiro.

meu lobo, salve-me sempre dos rebanhos e pastos.




abril 5, 2005

finis terrae

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

a minha cidade não tem mapa. mapas são para sociedades anônimas, terras de ninguém.

mapas me dizem pouco: minhas lembranças mais caras não são coordenadas.




abril 6, 2005

horror vacui

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

nessa geometria humana de pequenos círculos, triângulos trágicos, tantos obtusos e quadrados, agudo mesmo é o trapézio que não vem quando você salta sem rede.




abril 7, 2005

houdini

foto: rene de paula, rene@usina.com

não tenho mais truques na manga, acabaram todos. palavras mágicas, sortilégios, meu estoque já era. não sei o que fazer para trazer a magia de volta.

quem sabe a magia está lá, me esperando, e fui eu quem sumiu.




abril 8, 2005

centrífugo

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

alguém invente logo um tanque mágico onde eu mergulhe de cabeça e saia do outro lado de alma lavada.

alguém invente rápido um solvente para o insolúvel.

eu já me virei do avesso mas essa mancha não sai.




abril 11, 2005

gravidade

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

as coisas que espalho a esmo, minhas pistas e pegadas não vão longe, e vistas de longe denunciam um eixo, um centro, um pólo invisível e fugidio que se mantém eqüidistante por mais que eu preencha o vácuo.




abril 12, 2005

proa

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

no rosto vento fresco, bom, com cheiro de pele nua, gosto de água límpida, macio como cabelos soltos, vento que abraço na proa com meus olhos cerrados.

é pra isso que eu remo tanto.




abril 13, 2005

braille

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

nas ruas de parati andar é pé ante pé, aventura arriscada sobre pedras malucas, pedras de todo jeito, mensagem tátil de antepassados sábios que sabiam que pensar direito só com os pés no chão.

a cem por hora, nem pensar.




abril 14, 2005

oxigênio

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

esse tempo que me flui entre os dedos como vento forte e arrasta dos meus lábios e teclas tantas palavras, tantas, esse tempo-vento me limpa os olhos e me traz primaveras.




abril 15, 2005

220

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

quando eu volto vem de dentro um sorriso largo, um suspiro fundo, reação corporal à eletricidade, ao ruído, aos milhares de apressados e seus milhares de rostos.

direto do meu peito, fios desencapados me ligam à azáfama.




abril 18, 2005

high wire

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

essa história de corda-bamba pode ser truque barato, pretexto espalhafatoso para não olhar para baixo.

já caí algumas vezes. o chão não estava tão longe.




abril 19, 2005

fôlego

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

em pleno rodamoinho sei que do outro lado eu cheguei inteiro, olhando adiante sem lembrar desse inferno. é nisso que me agarro quando o chão me foge aos pés.




abril 20, 2005

skip james

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

não o vejo, apenas ouço, ouço as notas que ele arranca com dedos enferrujados de uma guitarra idem, das cordas de arame farpado, e cada acorde sozinho é um Mississipi inteiro, é uma vida inteira, é o sumo que vai por dentro do seu corpo envelhecido e teimoso.

a cada nota, é o que vejo.

eu me pergunto quanto concreto e pó, quanto ruído e cor, quanto sangue e gozo vazam pelas minhas entrelinhas. buracos não faltam.




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