
vida de trás pra frente, essa, esperando que no futuro alguém junte minhas pistas, confiando que o fim incerto justifique esse meio sem fim.
preciso me embalar para o presente.

vida de trás pra frente, essa, esperando que no futuro alguém junte minhas pistas, confiando que o fim incerto justifique esse meio sem fim.
preciso me embalar para o presente.

por mais que eu tente o que faço são auto-retratos, mesmo que não pareça, mesmo os que não têm nexo. são esses, aliás, meus retratos de dorian gray.

há humores que se infiltram por frestas mínimas, que te impregnam feito esponja e aderem, engrossam, viram oceanos noturnos com criaturas submersas, ondas pesadas sob um céu opaco.
uma hora passa, eu imagino.

um dia consigo o óbvio e me planto junto às minhas raízes. tanta semente lançada a esmo que não tem primavera que me salve.

os vazios são os mesmos, mas pesam quilos. atado a meus pés um buraco de chumbo, sobre meus ombros um fardo de nadas.
não sei como me livrar disso.

por mais que eu me perca dou de cara de novo, como se meus descaminhos andassem em círculo, como se eu não tivesse partido, como se eu levasse a cada passo meus próprios abismos nos braços.
se ao menos o tempo passasse para os dois. acho que vou me esgotar antes.

alguém crave essa estaca, alguém estanque logo esse coração de vampiro, coração condenado a voar cego farejando sangue novo.
quero olhar no espelho e ver meu reflexo.

a fórmula é um mistério. nem misturei direito, não vi a temperatura, os ingredientes são puro acaso.
do nada está feito, perfeito. con mucho gusto.

como eu funciono fica pra outra hora no dia de são nunca. o que me mata é entender como eu não funciono. só descubro da pior maneira.

quem tem raízes aéreas circula mais livre, mas murcha ligeiro quando o ar é irrespirável.
preciso de uma clareira, rápido.

olhos à frente, tanto asfalto pela frente, e lá se vai meu pensamento derrapando nas curvas dele mesmo.
essas ruas quebradas são meu ponto de fuga.

as melhores histórias não entram para a história, só são assunto para velhos de guerra. as melhores histórias se escrevem na pele.

o que nos une é isso, é essa dança em torno do fogo, o rosto afogueado sob a luz tão quente, nossos pés bailando perto das brasas.
longe da chama é frio e treva.
a dança é a mesma, sempre. o que muda é o que arde.

que caminho é esse, que me afasta de tudo?

dias assim, sem respirar, só se atravessam mergulhando mais fundo, engolindo sôfrego a água mágica de fontes secretas.
só assim.
a moldura dos meus dias pede quadros abstratos, mas meu pincel antiquado segue insanamente romântico

ontem do avesso, hoje de cabeça para baixo, amanhã metendo os pés pelas mãos. preciso repensar esse circo, cansei de vê-lo pegar fogo.

de medo que a chama apague toca a soprar minhas brasas, a revirar o que ainda arde.
não vejo a hora de que o fogo pegue. não vejo nada com essa fumaça toda.

olho vem com defeito de fábrica e borra o que vemos por mais que se esfregue na cara.
olho tinha que ter mãos que agarrassem o presente para eu não afundar em memórias.

algo nesse ar que respiro faz o mundo mais sólido. em passadas largas avanço para sentir mais brisa no rosto.
raro, isso. esse mundão tende a girar em falso.

o pior do front é desconfiar que o front real não é ali, é em outra parte, longe, flanco aberto onde não se chega a tempo.
os tiros vêm de todo lado. difícil avaliar.

por pouco eu me distraio, por pouco viro as costas para aquilo que nunca está. quase me esqueço desse nada, quase um dia passa em branco, dia abarrotado de tolices mas sem o toque mudo dessa falta, sem o esteio e lastro do buraco que me pesa nos ombros. quase.

o sol nasce e eu só, sempre só, sempre nu, nos olhos ainda fiapos de sonhos.
acordo cedo, sempre com medo de ter chegado tarde.