
deve ser por isso, enfim, que corro a registrar o que me ocorre, o que me escorre entre os dedos, para ter ecos do que não se repete, para me convencer do inacreditável, para me aquecer de novo no calor de chama extinta.

deve ser por isso, enfim, que corro a registrar o que me ocorre, o que me escorre entre os dedos, para ter ecos do que não se repete, para me convencer do inacreditável, para me aquecer de novo no calor de chama extinta.

acaricio apaixonado as chamas que me envolvem, e cuido a cada dia que minhas brasas sigam vivas.

acorde com o dia e o abrace ainda lânguido, respire com reverência o seu hálito doce, estenda ao máximo esse milagre sem palavras.

sobre a cal, tijolos, sobre asfalto e esquinas deixo quando passo outra demão de afeto, camadas finas de lembranças colorindo cantos vivos desse pano de fundo tão duro.

não é hora de perguntas. milagre assim enche a alma, eu me rendo.
resistir é pecado.

palavras ou vêm em revoada ou saem todas correndo.
devo estar perto da fonte.

minhas sementes florescem à sombra, onde a terra é rica e a brisa amiga. plantar eu planto para todo lado, para ver se descubro onde meu solo se esconde.

dias têm recheios-surpresa, momentos pequenos que te inundam a boca e te plantam flores no jardim da memória.
pérolas assim eu tenho sempre na ponta da língua.

meu centro anda em círculos e eu corro atrás dele, ele foge de mim, zigue-zague e sobe-e-desce desenhados em cada entrelinha do que faço, em cada linha na minha palma, em cada marca nessa pele que insiste em se expor onde quer que eu me esconda.

o vínculo mais forte te suspende por um fio que mal se vê, e o coração se lança em chamas sem saber se alcança o trapézio fugidio.
não olhe para baixo. é vertiginoso.

ar fresco eu pesco às vezes em momentos raros, depois de farejar por todo canto e lançar tantas redes, tantas iscas.
ar fresco te enche a boca, o peito, e teus olhos enfim limpos se lambuzam extasiados.

acordo cedo antes que o sol nasça, antes que a luz rasante abrace fachadas no peito e ressone pelos cantos em bocejos claros entre sombras que se espreguiçam.
acordo cedo para alimentar meus olhos.

como é que esse urso marrom foi parar nos pólos e viver sem cheiros, catando no tapa peixes gelados e tendo que estraçalhar carnes para ver cores?
eu quero meu pote de mel.

os dedos mal sabem o que fazem quando segundos doces e ricos escorrem pela mão, lambuzam os risos, as caras, e quinze minutos mágicos banham em ouro dias cinzentos.

coração mais antiquado o meu, movido a fogo de lenha, peça de museu à prova de trancos e barrancos que segue impávido, besuntado, fumegante, me levando a todo vapor para onde acabam os trilhos.

essa pele segue fina como sempre, o mesmo toque, o mesmo cheiro.
não se iluda: essa pele não é mais aquela, aquela se foi, morreu, se desfez a cada toque, mas a carne sabe o que faz e a refez tal qual, fina, fresca, macia.
a delicadeza começa do zero a cada dia.

ser invisível por aqui é fácil: esses mil olhos passam batido, te atravessam sem pensar duas vezes.
um dia alguém te pega no pulo, passa batido pelas grades e te atravessa a armadura sem pensar duas vezes. fácil, fácil.
acredite.

nobreza dispensa tronos, nobreza foge das cortes e se auto-exila no seio da turba.
no calor da azáfama, ruas transpiram soberania.

gosto de ruas porque têm cantos, muros, cadernos duros para garranchos mudos, para acordes soltos, esperando quem os leia e os transmute em cantos.

o bom de se expor tanto é que só piora, eu borro meu retrato a cada traço, a cada pincelada gorda e descuidada.
as linhas nem são tortas, as entrelinhas é que são.

uma vida em trânsito, uma vida entre carros e óleo com o rosto iluminado por faróis e freios, esperas, a resposta dócil de motores fortes e seus nervos de aço sob meus pés e pele.
uma vida em combustão interna tumultos afora.