agosto 1, 2005

minha linha

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

tecelão de araque, eu, caçando pontas soltas que perdi pela trama, reatando meus fios da meada para passar inteiro por buracos de agulha.




agosto 2, 2005

oi

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

olhos me olham fundo, mudos, e o sorriso vem fácil, terno, nos lábios mil entrelinhas, na ponta da língua segredos antigos, no rosto amistoso memórias traçadas em linhas finas.

silêncios assim valem ouro.




agosto 3, 2005

paredes

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

que a lagartixa ferida fuja em disparada e roube o espetáculo.

assim, ao menos, a cauda arrancada se contorce em paz.




agosto 4, 2005

terra incógnita

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

a bússola prova: quilômetros dentro da terra ferro fundido gira pesado, quente.

nesse meu peito exposto um coração obscuro bombeia sangue ferroso na carne em busca de um norte.




agosto 5, 2005

next steps

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

pelo vale das trevas ou nessa cidade com sol o que me guia são meus passos, meus pés, vencendo um a um degraus e desvãos.

músculos confortam. eu até esqueço dos buracos sem fundo escondidos sob passos maiores que as pernas.




agosto 8, 2005

ponto a ponto

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

com fios em brasa eu bordo minha história nessa trama de ruas e andares, frestas e esquinas.

uma emenda aqui, outra ali, e a linha segue tesa, tensa, minha corda-bamba a cem metros do solo.




agosto 9, 2005

seara

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

sobre o solo duro meus pés improvisam passos, ritmos, e dançam sobre o chão chamando primaveras.

tenho que descobrir o que minhas sementes escondem.




agosto 10, 2005

brás

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

eu me perdi indo ao Brás e me achei nem sei onde, cercado de casinhas de pijama, fachadas de chinelo sentadas na rua vendo São Paulo passar.

eu me perdi de jeito, me enfiei onde não era chamado em ruas que não davam mão, que eram só muro, galpões de poucos amigos, viadutos que não me deram bola.

com muito custo (vitória sem glória) achei meu rumo centro adentro, pedindo licença entre os prédios calados, reunidos com frio ao redor de fracas luzes e praças poucas, e com todo o respeito deixei-os para trás até chegar aqui, na parada festiva de prédios em marcha da avenida paulista, pista de pouso para meus vôos cegos.

em arabescos trôpegos, em garranchos miúdos, meu coração grafiteiro picha amor por todos os cantos.

(postado originalmente no deux ou trois choses que je sais d'elle)




agosto 11, 2005

avante

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

esse concreto não me engana, não nasci ontem. nasci quando ali não havia nada, e nada impede que amanhã volte ao pó.

de concreto mesmo só o desejo, a memória, a vontade que não deixa pedra sobre pedra.




agosto 12, 2005

a todo vapor

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

o pulso teso vem por veias minúsculas e estende ao sol a pele sedosa das pétalas, das folhas, velames coloridos que um vento interno infla primaveras afora.

máquinas macias perfumadas abrem asas sobre nós.




agosto 15, 2005

raízes aéreas

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

enfio meus dedos nos pulsos, na carne e trago de volta o pulso e o fogo que ameaçam fugir.

não tem acordo: minha seiva eu quero à flor da pele.




agosto 17, 2005

cheio de dedos

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

este é o meu toque, é isso o que me cabe nas mãos, essa é a marca deixada pelo peso da minha palma.

dos meus olhos, da minha pele, dos meus ouvidos tão sedentos que fique ao menos minha sede para semente.




agosto 18, 2005

DNA

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

a pancada acerta em cheio, fere e num instante fica claro meu contorno, meu tamanho, e isso dói.

que a pele renasça fina como antes. cicatrizes sim, calos jamais.




agosto 19, 2005

último round

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

a armadura já era, a munição acabou faz tempo. agora é na unha, na mão, agora é olho no olho.

agora é no gogó.

em arenas que se prezam lutamos de peito nu.




agosto 21, 2005

don't walk

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

carrego comigo o peso de mil esquinas, esquinas sem nome e nem nada em torno além de esperas, faróis, esquinas cercadas de noites longas em que tanto faz, hiatos no asfalto onde o que há são teus passos, motores, e um fio de lembrança de que muito longe existe um lugar que seja minimamente teu.




agosto 22, 2005

I'll be back

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

quando eu me perco de mim fica a dúvida: quem desencaminhou primeiro?

que eu volte logo. logo-logo alguém percebe.




agosto 23, 2005

amanhece

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

o sol de inverno vem baixinho e pega no pulo sombras lânguidas abraçando muros, o asfalto descoberto vestindo a estampa difusa de folhagens e galhos.

o dia que nasce se unge de intimidades.




agosto 25, 2005

em frente

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

o meu trajeto até aqui é um mapa secreto escrito na pele, cabelos, na alma, rabiscos de descaminhos e desertos, setas vermelhas apontando incêndios e flores.

nem eu o decifro. só sei que aqui estou, atônito.




bom bocado

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

o que fica de um dia você só avalia no outro, ou nunca, ou anos depois.

memória é um prato que se come com calma, con mucho gusto.




agosto 26, 2005

pedaço de mau caminho

foto e texto: rene de paula jr, rene@usina.com

virei à esquerda, direita, andei em círculos e me perdi feio, perdi tempo mas, olhando em torno, acho que não me perdi de mim.




agosto 29, 2005

keep walking

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

coração de trapezista é assim: com ou sem rede tambores rufam e aérea a alma se lança sobre um abismo de respirações suspensas.




agosto 30, 2005

águas

foto e texto: rene de paula jr, rene@usina.com

esses ecos vêm de dentro, bem lá dentro, das minhas catedrais e galerias, dos meus teatros desertos e seus túneis secretos por onde sobe um vento fresco, límpido, que me sopra o rosto quando me aproximo da fonte.




agosto 31, 2005

tinta invisível

foto: rene de paula jr, rene@usina.com

minha mão escreve miúdo, corrido, e vai bordando apressada em linha fina cor de sangue o retrato da minha chama, as volutas dos meus incêndios.

luta mais inglória essa, ser um homem de palavra.




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