minha linha

tecelão de araque, eu, caçando pontas soltas que perdi pela trama, reatando meus fios da meada para passar inteiro por buracos de agulha.

tecelão de araque, eu, caçando pontas soltas que perdi pela trama, reatando meus fios da meada para passar inteiro por buracos de agulha.

olhos me olham fundo, mudos, e o sorriso vem fácil, terno, nos lábios mil entrelinhas, na ponta da língua segredos antigos, no rosto amistoso memórias traçadas em linhas finas.
silêncios assim valem ouro.

que a lagartixa ferida fuja em disparada e roube o espetáculo.
assim, ao menos, a cauda arrancada se contorce em paz.

a bússola prova: quilômetros dentro da terra ferro fundido gira pesado, quente.
nesse meu peito exposto um coração obscuro bombeia sangue ferroso na carne em busca de um norte.

pelo vale das trevas ou nessa cidade com sol o que me guia são meus passos, meus pés, vencendo um a um degraus e desvãos.
músculos confortam. eu até esqueço dos buracos sem fundo escondidos sob passos maiores que as pernas.

com fios em brasa eu bordo minha história nessa trama de ruas e andares, frestas e esquinas.
uma emenda aqui, outra ali, e a linha segue tesa, tensa, minha corda-bamba a cem metros do solo.

sobre o solo duro meus pés improvisam passos, ritmos, e dançam sobre o chão chamando primaveras.
tenho que descobrir o que minhas sementes escondem.
eu me perdi indo ao Brás e me achei nem sei onde, cercado de casinhas de pijama, fachadas de chinelo sentadas na rua vendo São Paulo passar.
eu me perdi de jeito, me enfiei onde não era chamado em ruas que não davam mão, que eram só muro, galpões de poucos amigos, viadutos que não me deram bola.
com muito custo (vitória sem glória) achei meu rumo centro adentro, pedindo licença entre os prédios calados, reunidos com frio ao redor de fracas luzes e praças poucas, e com todo o respeito deixei-os para trás até chegar aqui, na parada festiva de prédios em marcha da avenida paulista, pista de pouso para meus vôos cegos.
em arabescos trôpegos, em garranchos miúdos, meu coração grafiteiro picha amor por todos os cantos.
(postado originalmente no deux ou trois choses que je sais d'elle)

esse concreto não me engana, não nasci ontem. nasci quando ali não havia nada, e nada impede que amanhã volte ao pó.
de concreto mesmo só o desejo, a memória, a vontade que não deixa pedra sobre pedra.

o pulso teso vem por veias minúsculas e estende ao sol a pele sedosa das pétalas, das folhas, velames coloridos que um vento interno infla primaveras afora.
máquinas macias perfumadas abrem asas sobre nós.

enfio meus dedos nos pulsos, na carne e trago de volta o pulso e o fogo que ameaçam fugir.
não tem acordo: minha seiva eu quero à flor da pele.

este é o meu toque, é isso o que me cabe nas mãos, essa é a marca deixada pelo peso da minha palma.
dos meus olhos, da minha pele, dos meus ouvidos tão sedentos que fique ao menos minha sede para semente.

a pancada acerta em cheio, fere e num instante fica claro meu contorno, meu tamanho, e isso dói.
que a pele renasça fina como antes. cicatrizes sim, calos jamais.

a armadura já era, a munição acabou faz tempo. agora é na unha, na mão, agora é olho no olho.
agora é no gogó.
em arenas que se prezam lutamos de peito nu.

carrego comigo o peso de mil esquinas, esquinas sem nome e nem nada em torno além de esperas, faróis, esquinas cercadas de noites longas em que tanto faz, hiatos no asfalto onde o que há são teus passos, motores, e um fio de lembrança de que muito longe existe um lugar que seja minimamente teu.

quando eu me perco de mim fica a dúvida: quem desencaminhou primeiro?
que eu volte logo. logo-logo alguém percebe.

o sol de inverno vem baixinho e pega no pulo sombras lânguidas abraçando muros, o asfalto descoberto vestindo a estampa difusa de folhagens e galhos.
o dia que nasce se unge de intimidades.

o meu trajeto até aqui é um mapa secreto escrito na pele, cabelos, na alma, rabiscos de descaminhos e desertos, setas vermelhas apontando incêndios e flores.
nem eu o decifro. só sei que aqui estou, atônito.

o que fica de um dia você só avalia no outro, ou nunca, ou anos depois.
memória é um prato que se come com calma, con mucho gusto.

virei à esquerda, direita, andei em círculos e me perdi feio, perdi tempo mas, olhando em torno, acho que não me perdi de mim.

coração de trapezista é assim: com ou sem rede tambores rufam e aérea a alma se lança sobre um abismo de respirações suspensas.

esses ecos vêm de dentro, bem lá dentro, das minhas catedrais e galerias, dos meus teatros desertos e seus túneis secretos por onde sobe um vento fresco, límpido, que me sopra o rosto quando me aproximo da fonte.

minha mão escreve miúdo, corrido, e vai bordando apressada em linha fina cor de sangue o retrato da minha chama, as volutas dos meus incêndios.
luta mais inglória essa, ser um homem de palavra.