chumbo

esse oco já havia antes, imagino, oco esparso em inúmeras bolhas ocas nessa alma de esponja.
agora é um oco sólido, fundido, tem contorno, volume, tem nome e sobrenome.
céus, como pesa.

esse oco já havia antes, imagino, oco esparso em inúmeras bolhas ocas nessa alma de esponja.
agora é um oco sólido, fundido, tem contorno, volume, tem nome e sobrenome.
céus, como pesa.

esse chão sem fundo, essas toneladas de terra sob meus pés me puxam inteiro para o seio da terra mas não me engolem nunca, e me equilibro como posso no esforço contínuo de seguir de pé.
o que me vai no peito e na alma, o que me povoa a memória gravita em torno de outro centro, órbita invisível ao redor de um vazio onde já houve um sol.
dois pesos, duas medidas e um só tempo se arrastando como lava.

meus rituais mínimos e secretos não fazem chover, não ressuscitam mortos, não curam feridas. meus ritos discretos acendem velas em minha memória, e só.

essa garoa fina que empapa por dentro não passa, não cessa, e me abraça o peito como um pano de chão úmido enquanto encaro uma seca sem fim.

respiro fundo e me dependuro de novo pelas narinas, pelos nervos, para não esquecer nem por um segundo aquilo que me pesa.

deve haver outro jeito de encaixar essas peças, deve haver outro quadro possível.
eu tenho que montar um quebra-cabeças que não me deixe aos pedaços.

esperar sem saber o que me espera faz do tempo um caldo espesso de cimento e ferro.

entre uma batida do coração e outra há um silêncio, um suspense, o fôlego suspenso da platéia muda no vôo insano do trapezista. até que o coração bata de novo o martelo meu tempo tem gosto de sentença de morte.

uma a uma eu reteso minhas cordas para dedilhar algo novo, algum acorde que me desperte dessa modorra sem melodia.
sobre o teclado indiferente bato sempre nas mesmas teclas.

eu quero o veio, eu quero a fonte, quero minhas artérias ligadas ao cobre enterrado dos cabos elétricos.
que outros brinquem no rio. minha praia é o magma.

eu exorciso as piores perguntas e prossigo como se a linha fosse expressa e não tivesse fim, não tivesse quebras.
mesmo sem palavras empurro para longe qualquer ponto final.

estou inteiro ali, inteiro com meus vazios, meus jorros, com a luz dos meus incêndios nesse corpo que arde por dentro como incenso de músculo e sangue.
estou inteiro ali, aos pedaços sobre a mesa.

"você é intenso".
ela disse assim, sem mais nem menos, me olhando fundo de uma distância quase acadêmica.
faz anos isso, e eu nunca agradeci pelo raio-x que me atingiu em pleno vôo.

anos e anos entre a frigideira e o fogo, temperando o banho-maria com a alma flambada em chamas, anos e anos engrossando esse caldo agridoce.
um dia meu sumo destila, um dia vem à tona o que é irredutivelmente meu, um dia tiro da língua esse gosto de não.

eu abro meu peito e aceito o momento presente como um presente surpresa, saboreando radiante esse mimo imerecido que traz de volta o meu sorriso ausente.

na minha terra um silêncio assim é chuva certa e da boa, daquelas que põe o céu abaixo e viram a cidade do avesso.
no meu peito essa calmaria me intriga. que venham descobrimentos, rápido.

minha história escrevo em letra miúda, em letra muito corrida, escrevo sem rascunho num livro aberto sem pauta nem capa.
escrevo minha história trocando os pés pelas mãos.

o mapa do meu paraíso desconsidera abismos, pula lonjuras e paira iluminado cheio de estrelas, constelação poderosa que faz primaveras e semeia sorrisos.

esse coração vira-latas bebe vento aos borbotões farejando o rumo que o tire das ruas, que o leve de volta para o colo que perfuma seus sonhos.

minha luz nem desconfia do tanto que me brilha e dos sonhos que orbitam em torno dos seus olhos.