wish list

alguém invente óculos para corações que não enxergam saída, alguém crie uma bússola para quem anda em círculos.
tenho pressa: tempo quando pára é que mais corre.

alguém invente óculos para corações que não enxergam saída, alguém crie uma bússola para quem anda em círculos.
tenho pressa: tempo quando pára é que mais corre.

sim, eu ri da boca pra fora. alguns vazios são duros de engolir de boca fechada.

combustão interna não inovou tanto. a invenção valeu porque não girava em falso.

com o sol batendo no rosto você caminha sobre as sombras que fogem para trás a cada passo iluminado.

meus monumentos secretos são pequenos escândalos, tochas acesas no meio das ruas, homenagem ereta ao que me corre nas veias, retrato descarado do que me escorre entre os dedos.
meus monumentos secretos não me deixam esquecer.

sopeso pensativo um punhado de descaminhos, a minha história de desatinos, e sorrio ao pensar que a distância entre meus pontos se mede em arrancadas e derrapagens.

morro acima, abismo abaixo, as pernas levam como podem a tocha que trago no peito. se quero luz, fecho meus olhos e vejo o que arde.

ouvir silêncio nesse tumulto em que eu mesmo faço barulho é incontornável como só ver ausência cercado por tantos.
eu vejo mosaicos onde queria o teu contorno.

o que o espelho me traz são dois olhos baços e nenhuma resposta. eu quero olhos grávidos de perguntas fecundas.

deve haver outros caminhos. deve haver outra maneira. deve haver mais gente que teima em abrir caminho sem se importar com ladeiras.

minha paz me sorri nas boas batalhas, cercado de front por todos os lados.
bendita seja a luz do fogo cruzado, bendita a clareza à beira de abismos.

coração é bicho rude, que insiste feito máquina em bater com alma ou sem.

que a cada dia eu escolha o que não tem escolha, que cada passo me aproxime do inelutável. basta de dar voltas quando o tempo me escapa em linha reta.

a brisa fria que vem de dentro não tem parede que barre, não tem fachada que cubra.
acordo gelado.
que o calor do dia encubra o que me escapa pelas frestas.

difícil manter a pose quando tudo pára. a mil por hora o vento no rosto sopra longe as nuvens de sempre.

bem-vindo ao outro lado da linha que você não viu, não previu, e atravessou sem sentir.

por mais que eu transite essa espera me segue, me cega, e esfrego os olhos e piso firme para fugir desse esperar intransitivo e direto.

o milagre me escorreu entre os dedos. na mão aberta, o vazio doloroso que conheço como a palma da minha mão.

o que salva é esse impulso não sei de onde que me empurra à frente com caminho ou sem, sem destino certo e sem certeza alguma.
o que salva é uma direção mesmo quando nada mais faz sentido.