presente

essa falta não falha um dia, não falta nunca, e grita "presente!" mesmo sem ser chamada.

essa falta não falha um dia, não falta nunca, e grita "presente!" mesmo sem ser chamada.

meus olhos correm as mesmas ruas, os mesmos cantos, dedilhando distraídos as linhas duras sem tirar nenhuma música.

meus dias têm medo de mim. mal começam e os pego no pulo, mal acabam e já vão para a balança.
se não atento, meus dias me escapam.

seguir direto de reto não tem nada, pode ser a curva letal abismo abaixo ou o caminho certo para andar em círculo. preciso de um bom ziguezague para entrar na linha.

quero meu gume de volta, quero meus cantos vivos, quero que meus cacos sejam de vidro límpido.

aqui e ali, quando menos espero, uma nota solta encontra seu lugar na música antiga que habita meu peito.
sem partitura que me guie, sigo dedilhando absorto aquilo que me toca.

o recheio desse oco muda de gosto mas segue vazio. outro dia era doce.
o sabor de hoje é de água morna para quem não tem sede.

tantas sementes que espalho e nem sei que frutos dão. o gosto da minha polpa há de me explicar, um dia, o que minhas raízes tão poucas procuram tão fundo.

minha história é mais uma, mais um sopro morno nesse vento de tantas almas. ser um em um milhão, aqui, vale para qualquer um.

acho que vi algo ali, um sinal talvez, a promessa de promessas.
ou são meus olhos de novo emprestando de graça a pouca Graça que me sobra.

encontre-me nessa fonte, eu não tardo. meu coração fora de tom afino aqui, na calma desse tumulto.
em clareiras dessa selva escondo minhas pedras de toque.

se não fosse meu olho me puxar pela orelha eu não via o que sorri debaixo do meu nariz.

a dor deixe aí, nem toque nela. ela morre comigo.
o remédio de que preciso há de deixá-la precisa, sólida.
se eu descuidar ela me anestesia.

parar para respirar dá nisso: brisa fresca, sons, perfumes que passam e a doçura antiga que, não sei como, não passa.

essa é a minha língua, língua de quem mata a sede nas fontes que desencava, língua com gosto por tudo o que língua alguma traduz.

sorrio agradecido pelos sons que me rodeiam, pelos risos, pelos sorrisos iluminados que nunca vi e nem verei de novo.
num mar de vidas entrelaçadas, o vento de sonhos alheios me sopra na face, e sorrio.

sorry, paladar, mas esse gosto amargo vem de dentro, de algo indigesto que eu rumino sem cessar.
o problema é que eu gosto.

contar só comigo é pouco. o que me salva é esse cara em mim que não dá as caras mas move montanhas para eu sair do lugar.
a trilha sonora dos meus dias é o canto da algaravia, o falatório por todos os cantos.
as vozes que se entrelaçam são música para meu olvido.

a minha liberdade começa onde a rua termina, nas esquinas, avenidas, na multidão que abre os braços e cerra os olhos para melhor acolher a vida de cada um.