chestershire

não olhe assim tão fundo, o que há é muito raso, muito claro, raízes quase à flor da pele.
um dia ainda aprendo superficialidades.

não olhe assim tão fundo, o que há é muito raso, muito claro, raízes quase à flor da pele.
um dia ainda aprendo superficialidades.

o que me leva adiante vem de não sei onde, sopro teimoso que me enche as velas mesmo quando estou a pique, e impávido sigo em frente a troco de vento.

O que há nesse buraco
Que dali me saem pássaros
Que dali eu tiro flores?
O que tem nesse vazio
Que ali encontro sedas
Que me vêm em tantas cores?
O que cabe nesse oco?
um silêncio que faz eco?
um perfume que não some?
O que tenho tão no fundo
Que me brota a flor da pele?

seguir o coração quando ele some é coisa dura: você some atrás dele mas lá no escuro ele vai pela sombra.

estico sobre a caixa do peito o que me sobrou dessa corda e tiro dela uma nota profunda, longa, gesto compenetrado de quem afina um cello em frangalhos.

brincando à minha volta, soprando meus cabelos quando estou distraído, essa ausência brinca de esconde-esconde e me pega no pulo onde eu menos espero.

difícil dizer de boca cheia "meu caminho" com as mãos cheias de becos, descaminhos, encruzilhadas sem placas.
se meu tempo andasse reto não derraparia tanto a cada esquina.

coração mais paulistano esse, que amanhece trabalhando encharcado de garoa.

agarro meu coração pelas ventas e o prenso na parede, respiração pesada, olho no olho. assim eu não lhe escapo.

esfrego essa cidade na cara para lavar os meus olhos, para afiar o meu gume, para ganhar arestas onde sou muito polido.

o que eu levo comigo e não me abandona são questões sem resposta, são finais sem final, interrogações e reticências que pontuam sempre o que eu não digo nunca.

metade do que arde é o que me passa batido e me escorre entre os dedos.
a outra metade simplesmente não passa.

em algum momento deixei para trás o que me impelia adiante. sigamos impávidos para ver se há volta.