astrofísica

andando em círculos ou mudando de rumos eu traço no escuro a órbita exata de quem tem como centro um espaço vago.

andando em círculos ou mudando de rumos eu traço no escuro a órbita exata de quem tem como centro um espaço vago.

talvez não faltem peças, talvez nem haja um quebra-cabeça. talvez o problema seja essa lembrança de um quadro que não me sai da cabeça.

escondidos por aí, deixo com carinho os meus frutos embrulhados para ausente.

crescer em cidade dá nisso, uma fome por sinais e retornos, a ilusão de que caminhos se cruzam.
por aqui uma caneta basta para derrubar um muro.

por favor não, não olhe minhas mãos, não caia no meu truque barato.
(preciso de alguém que descubra como eu sumo.)

piso fundo para ver se me ultrapasso, para ver se despisto essa mania de correr atrás de mim.

escrevo miúdo, escrevo corrido, mas a tinta quente empapa as entrelinhas e queima o que eu não digo em fogo brando.

precipícios têm seu charme até o dia em que a chave te escapa da mão, mergulha em câmera lenta e glup, some de vez na água insondável.
troco todos os meus abismos por uma boa ponte.

essas questões malditas e tão velhas se repetem feito disco riscado.
a questão é: elas me atravancam ou sou eu que ando em círculos?

falta encontrar quem não fale a minha língua, quem não se enrede na minha teia. de teseus meu labirinto está cheio, o que faz falta é um bom Ícaro.

vou traçar um círculo em torno do que faço para deixar claro que não há centro.

a brisa quente na noite idem vem com perfumes distantes que não me deixam.

o espelho não me responde. o vidro polido devolve fria a mesma pergunta que me sai em brasa.
há de haver como fugir de reflexos condicionados.

conheço a palavra mágica, já tenho meus ritos secretos, so´me falta ler os sinais: milagres vêm quando bem entendem.

outras línguas têm seu gosto, seus segredos, mas todas me enchem a boca com o mesmo travo de exílio.

fome mais perversa, essa, a fome por apetite.

nos dias em que o tempo perde o passo é aí que eu perco o fôlego, e atravesso tenso essa maldita corda bamba.

essa sede por mais vida tem seu preço: na falta de uma artéria nova faço eu mesmo hemorragias.

meu signo aéreo nada às braçadas pelo mar de gente banhado por correntes de mil histórias no seio ondulante da vida anônima.

do dia o que me fica são milagres passageiros, borboletas que brincam com meus olhos sem pousar nas mãos que estendo abertas, sopros delicados marcando em brasa minha memória inflamável.