ao redor

eu dou ouvidos aos meus olhos que não cansam de farejar o que tem gosto de vida.

eu dou ouvidos aos meus olhos que não cansam de farejar o que tem gosto de vida.

repito os meus ritos, invoco o milagre, e busco no que me brota das mãos onde me anda a cabeça.

eu me pergunto honestamente se por trás dessas respostas, se por dentro dos meus frutos existe uma pergunta ou se me afogo de propósito para não respirar novos ares.

dias, semanas, os ponteiros no relógio, nada anda no passo que meu coração demanda.

a minha justa medida, tão justa, é o que me libera os passos para eu sentir à larga.

alguém cobice o que eu nem sei que tenho, alguém roube sangue da artéria que eu desconheço.
alguém me mostre como falar de mim com propriedade.

anos sem direção mas creio haver um sentido, segredo entrelaçado em cada linha que eu traço: lavro solos e abro espaço para que venham primaveras.

para quem mal firmou os pés o próximo passo é um salto.

cansei de dar ouvidos a esse coração pesado. vou dar-lhe olhos, pernas, mãos e ver no que dá.

como se diz saudade numa língua seca, numa língua fria, numa língua que não lembra bem do que sente falta?

coração mais surdo, o meu, que não escuta a carne aos brados.

haja cores e colírios para lavar meus olhos de cinzas.

nem me fale em tempo. de tanto ruminar as horas bons momentos perdem o gosto.

breve, mais leve. até lá, fechado para balanças.

se o tempo voa que me leve junto. e logo.

deve haver algum conforto em se meter em desconfortos. seja como for, dói sempre.

e se eu não reconhecer mais o sine qua non?