homem-bala

coração na corda-bamba se equilibra como pode ou senão pedala mais. que venha o próximo número, e rápido.

coração na corda-bamba se equilibra como pode ou senão pedala mais. que venha o próximo número, e rápido.

com carinho dedilho as minhas linhas, minha teia, os fios que eu estendo entre tudo que me prende, e balanço sobre abismos que hoje sopram ventos frescos.

com alguma freqüencia sintonizo de súbito as vidas que passam, voam, transitam à minha volta, sinfonia potente de músicos que não se escutam.
o ruído das ruas é a voz do possível.

esse gosto eu conheço de longe: gosto de distância a perder de vista.

o tempo tem várias cores, algumas vibrantes, outras nem lembro. essa falta de cor, porém, eu sei de cor.

quem não muda de ares fica assim, respirando fundo a cada perfume novo.

o fio tênue que costura minhas sedas e farrapos vem de um carretel pequeno que trago no peito e se enrosca pelas vísceras e corre pelas veias e sai pela ponta dos meus dedos que teclam aqui e ali esboços de uma trama entressonhada.

tempo é generoso, um dia dá de presente um bom sentido a dias inteiros sem sentido aparente.

a soma das questões que deixei abertas, o peso de tudo o que pressenti é o meu legado a peso de vento.

as histórias boas batem asas e voam, vão nem sei onde, e um dia pousam leves na tua palma trazendo de volta o que nunca se foi.

para enxergar novos milagres que meus olhos não se esqueçam de esquecer o que já vi.

nos desvãos dessa cidade planto à sombra sementes que desconheço e mil dentes de dragão.

meu silêncio mais profundo é no seio do azáfama.
é cercado por todos os lados que me afasto do distanciamento crítico.

meus erros erram bem para errar sempre. um dia eu desaprendo, espero.

faça sol faça chuva eu aro a pele espessa, tirando água de pedra e trazendo primaveras que me livrem desse inverno.

meu caminho fica mais fácil quando faço de conta que ele existe.

devo estar na corda-bamba: quando menos espero bate uma brisa com cheiro de abismo.

tire esse vazio de mim e ele fará uma falta danada. tanta coisa cai dentro que nem sei de onde vêm.

não há respostas agora. não há boas perguntas tampouco. que o coração rumine em paz o indigerível e meus olhos vejam sempre o que tenho diante dos olhos.

trouxe da noite uma bagagem incômoda que não me sai dos ombros e pesa mais quando lembro que não vou esquecer.